Jackson Cionek
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América Latina em Pé: quando a festa vira consciência coletiva

América Latina em Pé: quando a festa vira consciência coletiva

Bad Bunny Super Bowl Halftime Show — leitura decolonial (política, religiosa e científica)

A gente não assistiu “só um show”. A gente assistiu um acontecimento de regime — não no sentido partidário, mas no sentido de regime de sensibilidade: quem pode ocupar o centro, em que língua, com quais símbolos, com qual direito de existir sem pedir desculpa. O Bad Bunny no Super Bowl Halftime Show virou uma aula pública — não de opinião, mas de estado do corpo no coletivo: festa como tecnologia, pertencimento como método, autoestima como infraestrutura. (Reuters)

Quando a gente vê um evento desse tamanho sustentar uma apresentação marcada por espanhol, por referências porto-riquenhas e por uma estética de rua/território, a pergunta muda: por que isso incomoda tanto? A resposta aparece no próprio noticiário: houve celebração, mas também backlash cultural e político justamente por “não caber” no molde esperado do que seria “a cara” do evento. (San Francisco Chronicle)

Aqui entra o nosso nó Jiwasa: a gente não lê isso como “lacração” nem como “polêmica”. A gente lê como um ajuste do continente em si mesmo — um gesto de dizer: a gente existe inteiro. E a existência inteira não é só discurso; é ritmo, é corpo, é povo.

1) O que a festa faz com o corpo (e por que isso é ciência)

Festa, rito, canto, dança, repetição: isso é linguagem de sistema nervoso. Um rito bem feito reduz entropia interna e devolve previsibilidade. A literatura experimental sobre comportamento ritualizado descreve justamente esse papel: sequências repetitivas e rígidas podem amortecer ansiedade e reorganizar estado. (Nature)

E no coletivo, a coisa fica ainda mais “física”: quando a gente compartilha tempo (batida, passo, resposta do corpo), a gente pode entrar em sincronia — e sincronia não é poesia; é mensurável. Em estudos de dinâmica de grupo, mudanças em sincronia fisiológica durante interação predizem sensação psicológica de coesão. (Frontiers)

Então o show vira um laboratório em escala: não é só representar cultura; é produzir coesão em tempo real — e isso, num continente treinado para a vergonha, vale mais que mil editoriais.

2) A armadilha colonial: odiar o “crime visível” e naturalizar o “crime estrutural”

Agora a parte que dói: por muito tempo, a gente foi educado a confundir justiça com catarse. A gente aprendeu a mirar a raiva no “criminoso visível” — quase sempre o pobre, o periférico, o corpo marcado — enquanto o crime estrutural (o que sequestra orçamento, captura Estado, compra influência, molda regra, produz dano em escala) passa como “complexidade”, “negócio”, “política normal”.

Isso não é chute: a criminologia crítica contemporânea chama isso pelo nome — crimes of the powerful (crimes/danos sociais perpetrados por elites, corporações, Estado e arranjos institucionais). E há agenda específica sobre isso na América Latina e Caribe, justamente para tirar do invisível esses danos que não aparecem na foto do noticiário policial. (Compass)

Em paralelo, dá para mapear como “crime” e “pobreza” se associam no discurso público digital: há trabalho recente em NLP que identifica e categoriza vieses do tipo crime-poverty bias e “criminalização institucional dos pobres” em postagens, mostrando como esse atalho moral circula e se reforça socialmente. (ACL Anthology)

E quando a gente coloca isso no chão latino-americano, a pergunta deixa de ser “quem é mais bandido?” e vira: quem define o que é crime, quem vira exemplo, e quem nunca paga? A crítica sobre seletividade penal e “criminalização secundária” também aparece em análises de cobertura e enquadramento de crimes corporativos e danos massivos, apontando como estruturas legais e narrativas tendem a tratar o dano do poderoso como exceção ou acidente. (OpenEdition Journals)

Esse é o ponto civilizatório: a nossa baixa estima não é “falta de autoestima individual”; é um regime cultural de vergonha + distração moral, onde a gente é treinado a brigar com o sintoma e proteger a causa.

3) O que o Halftime Show fez: um Jiwasa de festejos (sem virar soldado)

Agora a virada: Bad Bunny colocou um rito caribenho/latino dentro do maior altar do entretenimento esportivo dos EUA e disse, com música, cena e símbolo: a gente não é apêndice; a gente é centro também. A imprensa descreveu a apresentação como carregada de especificidade cultural, comunidade e “resistência pela alegria”. (TIME)

Teve leitura pública do show como “ato de resistência” e como prova de que a cultura não foi capturada por uma única agenda de exclusão. (TIME)
Teve análise detalhando referências porto-riquenhas e símbolos (trabalho, território, cotidiano) e como eles foram colocados sem tradução paternalista. (Forbes)

E teve a reação previsível — críticas por ser em espanhol, por símbolos, por presença. Isso é importante porque revela o que estava escondido: o veto invisível contra a nossa linguagem ocupando o centro. (San Francisco Chronicle)

No nosso Jiwasa, o mérito não é “ganhar debate”. O mérito é outro: mostrar uma saída que não depende de ódio. Porque tem um risco real em qualquer política de pertencimento: virar “soldado” — fusão identitária rígida que exige sacrifícios, inimigos, obediência. A psicologia social descreve bem como certos tipos de fusão/compromisso extremo com grupo podem empurrar orientações pro-grupo rígidas e perigosas. (UT Psychology Labs)

O show não pediu soldado. Ele ofereceu pulso. E pulso é diferente de marcha: pulso regula; marcha captura.

4) Marco civilizatório para mudanças de regime no continente (sem golpe, sem sequestro)

A gente pode traduzir isso em um protocolo de mudança de regime (regime de sensibilidade e governança), em 7 ± 2 princípios:

  1. Língua sem desculpa: a gente não traduz a própria existência para merecer existir. (CBS News)

  2. Alegria como método: festa não é fuga; é tecnologia de regulação coletiva. (Nature)

  3. Pertencimento antes de dogma: sem inimigo obrigatório, sem obediência como prova. (UT Psychology Labs)

  4. Justiça que enxerga o alto: crime estrutural também tem rosto, rede e dano. (Compass)

  5. Crítica sem desumanização: discordar sem fabricar caça ao “outro”.

  6. Mídia e educação para o estado do corpo: atenção não é canal; é estado coletivo (e pode ser treinado). (Frontiers)

  7. Rito laico de cuidado: repetir o que regula, não o que sequestra.

Se a gente toma isso como marco, a “mudança de regime” deixa de ser fantasia messiânica e vira engenharia cotidiana: ritualizar dignidade, sincronizar cooperação, desativar o teatro moral que protege o crime de cima e pune o de baixo.

Fechamento

A gente viu uma mensagem notingrada no corpo: o continente não precisa escolher entre consciência e festa. A festa pode ser a forma mais rápida de recuperar consciência quando a consciência foi colonizada por vergonha. A gente não está pedindo licença para existir. A gente está relembrando o que sempre foi nosso: o direito de pertencer — sem virar soldado.


Referências (pós-2021):

  1. Lang et al. (2022), Scientific Reports — compatibilidade: ritual/padrão previsível como regulação de ansiedade e estado. (Nature)

  2. Tomashin et al. (2022), Frontiers / PMC — compatibilidade: sincronia fisiológica associada à coesão de grupo. (Frontiers)

  3. Atiles (2024), Social Compass — compatibilidade: crimes dos poderosos e danos sociais na América Latina/Caribe. (Compass)

  4. Curto et al. (2024), ACL Anthology (PDF) — compatibilidade: vieses que associam pobreza a crime e “criminalização do pobre” no discurso público. (ACL Anthology)

  5. Swann et al. (2024), Comprehensive Identity Fusion Theory (PDF) — compatibilidade: fusão identitária e risco de “virar soldado” (sacrifícios custosos). (UT Psychology Labs)

  6. AP (2026) review do Halftime Show — compatibilidade: leitura pública do show como acontecimento cultural/histórico. (AP News)

  7. Reuters (2026) sobre impacto comunitário — compatibilidade: show como “lifeline” cultural e dignidade sob ameaça social. (Reuters)



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