Jackson Cionek
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O cérebro de um mamífero também carrega a história dos outros?

O cérebro de um mamífero também carrega a história dos outros?

Um abraço, uma pedra, uma ferramenta. Da Serra da Capivara aos povos da tradição Umbu e aos construtores de sambaquis, quantas histórias de aprendizagem podem existir em um mesmo mundo vivo?

Série especial BrainLatam | VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC — 2026

UM ABRAÇO QUE CONTINUA ACONTECENDO

Talvez você consiga recordar um abraço recebido em um momento difícil.

O calor de outro corpo. A pressão dos braços. Uma voz familiar. Talvez sua respiração tenha mudado.

Agora imagine esse mesmo abraço vindo de alguém desconhecido.

Os movimentos poderiam ser semelhantes. A experiência, completamente diferente.

O que transforma contato em acolhimento? Como outro indivíduo participa das condições em que percebemos segurança, pertencimento ou ameaça?

Será que um cérebro também carrega a história das relações vividas por seu organismo?

Essa pergunta acompanha nossa participação como patrocinadores do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), programado para 16 a 19 de novembro de 2026, sob o tema “O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar”.

Podemos começar pelos mamíferos, mas nossa investigação atravessará também a arqueologia latino-americana.

O CUIDADO PARTICIPA DO DESENVOLVIMENTO

Muitos mamíferos dependem de cuidados durante períodos importantes do desenvolvimento.

Alimentação, proteção, proximidade e aprendizagem participam de suas trajetórias, embora as estratégias variem enormemente entre espécies.

A presença de outro indivíduo pode modificar comportamentos e respostas fisiológicas relacionadas ao estresse.

Mas proximidade não significa necessariamente segurança. Uma relação também pode envolver competição, agressividade ou incerteza.

Essa diversidade nos ajuda a distinguir o vínculo biológico da experiência individual de pertencimento.

Entre os participantes anunciados para o simpósio estão Renata Frazão, que investiga circuitos relacionados à reprodução e à regulação metabólica, e Felipe C. Ribeiro, pesquisador de mecanismos moleculares envolvidos na doença de Alzheimer.

Suas áreas não são equivalentes, mas ajudam a reconhecer que desenvolvimento, reprodução e memória dependem de condições biológicas que acompanham toda a existência.

QUANDO UMA PEDRA SE TORNA FERRAMENTA

Imagine agora a Caatinga da Serra da Capivara, no Piauí.

Um macaco-prego observa outro utilizando uma pedra para processar alimento.

O indivíduo mais jovem se aproxima. Observa. Talvez experimente outro movimento.

O pesquisador brasileiro Tiago Falótico, com Eduardo Ottoni e colaboradores, investigou ferramentas de Sapajus libidinosus encontradas em escavações arqueológicas.

Em estudo publicado em 2019, identificaram vestígios de uso de ferramentas com aproximadamente 2.400 a 3.000 anos.

As características dos instrumentos mudaram entre diferentes períodos, inclusive entre cerca de cem anos atrás e o presente.

Isso revela uma história tecnológica antiga de primatas não humanos.

Não demonstra, entretanto, transmissão cultural contínua durante três milênios, nem que os animais atuais tenham aprendido diretamente com indivíduos daquele passado remoto.

A pergunta permanece fascinante:

Quantas gerações podem participar da transformação de uma maneira de utilizar o mundo?

A APRENDIZAGEM PRECISA QUE O OUTRO POSSA SE APROXIMAR

Em 2024, pesquisadores estudaram experimentalmente como informações sobre uma tarefa de obtenção de alimento circulavam entre macacos-prego selvagens da Serra da Capivara.

Os resultados mostraram que a tolerância social favorecia oportunidades de observação e influenciava os caminhos da aprendizagem.

Os animais também demonstraram maior atenção a determinados indivíduos bem-sucedidos.

Não basta existir alguém que conheça uma técnica.

Outros precisam encontrar condições para observar, aproximar-se e experimentar.

Esse resultado oferece uma conexão com nossa investigação sobre coletivos.

A possibilidade de aprender também depende das relações que permitem o encontro.

Não podemos concluir que os macacos organizem suas relações segundo princípios humanos de liberdade ou justiça.

Mas podemos investigar como proximidade, tolerância e diferenças individuais participam da circulação de conhecimentos.

DUAS HISTÓRIAS NAS PEDRAS DA SERRA DA CAPIVARA

Na mesma região, encontramos registros de antigas ocupações humanas.

As pinturas rupestres e os sítios arqueológicos testemunham diferentes momentos de uma longa história de presença humana.

Imagine pessoas trabalhando com instrumentos de pedra enquanto, naquele território, outros primatas também manipulavam materiais.

Não sabemos se ocorreram encontros específicos daquela maneira.

Também não existem evidências suficientes para afirmar que os macacos aprenderam suas técnicas com humanos, ou o contrário.

Mas podemos reconhecer duas trajetórias tecnológicas investigáveis no mesmo Bioma.

As ferramentas humanas e aquelas produzidas por macacos apresentam histórias, funções e processos de aprendizagem distintos.

Talvez o mais interessante seja perceber que a produção de uma história material não é exclusiva da nossa espécie.

A arqueologia dos primatas amplia nossa capacidade de perguntar como diferentes organismos transformam materiais ao longo das gerações.

E OS CAÇADORES ASSOCIADOS À TRADIÇÃO UMBU?

Vamos percorrer imaginariamente o sul da América do Sul, milhares de anos antes da colonização europeia.

Um grupo humano desloca-se por uma paisagem que hoje relacionamos ao sul do Brasil.

Alguém reconhece um possível caminho. Outro observa um animal. Uma pessoa prepara uma ponta de pedra.

A cena é uma reconstrução narrativa, não o registro de um acontecimento conhecido.

A arqueóloga brasileira Mercedes Okumura e o arqueólogo Astolfo Araujo investigaram pontas bifaciais associadas à chamada tradição Umbu.

Esses vestígios apresentam longa distribuição temporal e diferenças regionais significativas.

O arqueólogo João Carlos Moreno de Sousa também questiona a ideia de que toda essa diversidade represente uma única cultura homogênea.

Portanto, falar dos “Umbus” exige cuidado: estamos diante de uma classificação arqueológica, não de uma identidade coletiva única comprovada.

Mesmo assim, as ferramentas revelam conhecimentos técnicos, escolhas de materiais e práticas que atravessaram diferentes ocupações humanas.

OS SAMBAQUIS: QUANDO O TERRITÓRIO TAMBÉM GUARDA MEMÓRIAS

Agora imagine a costa atlântica do sul e sudeste brasileiro.

Gerações de pessoas participam da construção de grandes estruturas com conchas, sedimentos e outros materiais.

Essas construções, chamadas sambaquis, podem envolver atividades funerárias, alimentação, ocupação e organização social.

Alguns conjuntos se desenvolveram durante milhares de anos.

Em 2023, Tiago Ferraz da Silva, Tábita Hünemeier, André Strauss e colaboradores participaram de um estudo arqueogenômico sobre antigas populações costeiras sul-americanas.

Os resultados demonstraram diversidade genética entre grupos sambaquieiros que apresentavam semelhanças materiais.

Isso nos oferece uma advertência fundamental:

Semelhança entre ferramentas, construções ou práticas não significa que todos pertençam ao mesmo povo.

Também não podemos presumir relações diretas de ancestralidade entre todos os grupos classificados na tradição Umbu e as populações construtoras de sambaquis.

O território preserva diferentes histórias, inclusive aquelas que ainda não sabemos relacionar.

O BIOMA NÃO É APENAS CENÁRIO

Da Caatinga à Mata Atlântica, encontramos organismos e coletivos produzindo relações com materiais, alimentos, outros seres e ambientes.

Uma pedra pode participar da obtenção de alimento por um macaco.

Outra pode integrar uma ferramenta humana.

Conchas podem participar de construções que permanecerão na paisagem durante séculos.

O Bioma oferece condições e possibilidades, mas não determina sozinho os comportamentos.

Nessa perspectiva, podemos aproximar neurociência, arqueologia, ecologia e antropologia sem reduzir seus diferentes objetos a uma explicação única.

A pesquisa latino-americana revela que nossas histórias de conhecimento começam muito antes das instituições coloniais que posteriormente passaram a classificá-las.

CORPO-TERRITÓRIO E A POSSIBILIDADE DE SER MUITOS

Na BrainLatam, propomos o Corpo-Território como unidade indivisível de existência, sensibilidade e participação no mundo.

Nossa hipótese autoral afirma:

Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.

Essa formulação não constitui uma teoria neurocientífica validada.

Ela convida a investigar como organismos participam de relações que transformam suas possibilidades de existência.

Também utilizamos Jiwasa para pensar a agência compartilhada sem eliminar a singularidade dos participantes.

Os coletivos animais e os grupos humanos do passado não podem ser automaticamente classificados como Jiwasa.

Mas suas histórias nos permitem perguntar:

Como conhecimentos circulam? Quais condições permitem aprender? Quando o pertencimento amplia possibilidades individuais?

UMA TECNOLOGIA MIL ANOS À FRENTE, EM UM BIOMA PRESERVADO

Imagine pesquisadores observando primatas em uma Caatinga preservada, utilizando tecnologias capazes de acompanhar movimentos e sinais fisiológicos com interferência mínima.

Hoje, EEG, fNIRS e outras técnicas já permitem investigar diferentes processos, embora existam limitações importantes para aplicações naturalísticas e entre espécies.

Como representante da Artinis & NIRx e da Brain Products, a BrainLatam aproxima pesquisadores de tecnologias de neuroimagem funcional, eletroencefalografia e investigação multimodal.

Queremos imaginar instrumentos cada vez mais avançados, mas também perguntas que reconheçam o valor dos ambientes e dos organismos investigados.

QUANTOS OUTROS PARTICIPARAM DE QUEM SOMOS?

Voltemos ao abraço do início.

Talvez você ainda consiga recordar alguma sensação daquele encontro.

A pessoa que participou de sua história pode estar distante. Mas a experiência continua disponível à sua memória.

Na Serra da Capivara, pedras preservam vestígios de diferentes histórias tecnológicas.

No sul da América do Sul, pontas líticas e sambaquis revelam trajetórias humanas diversas.

E, entre os mamíferos, vínculos e oportunidades de aprendizagem continuam transformando comportamentos.

O VIII Simpósio da UFABC nos convida a investigar o cérebro em contexto.

Talvez possamos acrescentar:

Quantos outros seres participaram das condições que tornaram possível aquilo que hoje percebemos como nosso próprio Ser?

Jiwasa: a possibilidade de Ser muitos sem que cada um precise deixar de Ser.


Sobre esta série

Este artigo integra a série especial da BrainLatam, patrocinadora do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC, previsto para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo.

Dialogamos com os temas anunciados por Renata Frazão e Felipe C. Ribeiro, ampliando a reflexão para estudos de primatologia, arqueologia e comportamento social na América Latina.

As interpretações autorais não representam necessariamente as posições dos pesquisadores ou da organização.

Evento oficial: https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/

Referências — Uma segunda leitura do blog

1. O desenvolvimento dos mamíferos envolve relações entre cuidado, fisiologia e ambiente.

Frazão, R. Laboratório de Neurofisiologia da Reprodução. Instituto de Ciências Biomédicas, USP.

Pesquisa mecanismos neuroendócrinos envolvidos na reprodução e na integração de sinais metabólicos e hormonais.

https://sites.usp.br/neuroreplab/pt/home/

2. Macacos-prego possuem uma história de uso de ferramentas que atravessa milhares de anos.

Falótico, T.; Proffitt, T.; Ottoni, E. B.; Staff, R. A.; Haslam, M. (2019). Three thousand years of wild capuchin stone tool use. Nature Ecology & Evolution, 3, 1034–1038.

A pesquisa identifica vestígios arqueológicos de ferramentas e transformações em seus padrões de utilização.

https://doi.org/10.1038/s41559-019-0904-4

3. Aprender com outros depende também da tolerância e das oportunidades de observação.

Social tolerance and success-biased social learning underlie the cultural transmission of an induced extractive foraging tradition in a wild tool-using primate. (2024). Pesquisa com macacos-prego da Serra da Capivara.

O estudo experimental demonstra como relações sociais influenciam a circulação de informações sobre novas tarefas.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39556750/

4. Diferentes populações humanas produziram ferramentas líticas no sul da América do Sul.

Okumura, M.; Araujo, A. G. M. (2013). Pontas bifaciais no Brasil Meridional: caracterização estatística das formas e suas implicações culturais. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia.

Os autores identificam variações regionais em pontas associadas à tradição Umbu.

https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2013.106842

5. Uma classificação arqueológica não representa necessariamente uma única cultura homogênea.

Moreno de Sousa, J. C. (2019). Tecnologia de ponta a ponta: em busca de mudanças culturais durante o Holoceno em indústrias líticas do Sudeste e Sul do Brasil. Revista de Arqueologia, 32(1).

A pesquisa questiona a homogeneidade tradicionalmente atribuída aos conjuntos líticos classificados como Umbu.

https://doi.org/10.24885/sab.v32i1.637

6. Os construtores de sambaquis possuíam histórias regionais e genéticas diversas.

Silva, T. F. et al. (2023). Genomic history of coastal societies from eastern South America. Nature Ecology & Evolution, 7, 1315–1330.

A investigação arqueogenômica revela diversidade entre populações antigas que construíram sambaquis.

https://doi.org/10.1038/s41559-023-02114-9

7. As relações entre cérebro, ambiente e comportamento exigem diálogo interdisciplinar.

UFABC (2026). VIII Simpósio em Neurociência e Cognição — O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar.

O encontro aproxima pesquisas biológicas, cognitivas, tecnológicas e sociais.

https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/

8. Podemos investigar pertencimento e memória territorial a partir de uma perspectiva decolonial.

Cionek, J. (2025). O Renascimento do Pertencimento Natural — Joinville, Umbus, Sambaquis e a Prosperidade Bribri. BrainLatam.

O ensaio autoral aproxima Corpo-Território, conhecimentos ancestrais e continuidade da vida, propondo perguntas que ultrapassam as evidências estritamente arqueológicas.

https://www.brainlatam.com/blog/o-renascimento-do-pertencimento-natural-joinville-umbus-sambaquis-e-a-prosperidade-bribri-6744

Nota conceitual: Corpo-Território, Consciência 5D e Jiwasa são formulações autorais da BrainLatam. As pesquisas citadas fundamentam questões específicas, sem constituir comprovação experimental dessas propostas.

BrainLatam | W45/2026 — Blog 03


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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States