Jackson Cionek
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Quando perceber vira valorar - de onde julgamos aquilo que vemos?

Quando perceber vira valorar - de onde julgamos aquilo que vemos?

Duas pessoas olham para a mesma imagem.

Uma diz:

“Que lugar agradável.”

A outra:

“Eu não me sentiria seguro aqui.”

A configuração de pixels pode ser praticamente a mesma.

Então, de onde veio a diferença?

No blog anterior, partimos do trabalho de Carolina Zähme, Isabelle Sander, Aleksandrs Koselevs, Simone Kühn e Klaus Gramann, From perception to appraisal: Brain responses to natural and built features in urban environments.

O estudo mostra que características visuais naturais e construídas das cenas urbanas aparecem associadas a respostas EEG em momentos diferentes daqueles relacionados à avaliação subjetiva. Em outras palavras, detectar características de uma cena e atribuir valor a ela não parecem precisar acontecer em um único instante indiferenciado.

Agora queremos avançar:

de onde julgamos aquilo que percebemos?

Para o Religare, precisamos primeiro perguntar de onde vem o próprio Perceber.

Para Perceber, precisamos de consciência

Na Consciência 5D, não utilizamos Perceber como sinônimo de todo processamento sensorial.

Antes do Perceber consciente, a luz já foi transduzida, circuitos foram recrutados, características foram discriminadas e diferentes representações podem ter participado do processamento.

Mas, em nosso modelo, Perceber exige consciência.

Nossa formulação é:

Consciência é um movimento que se percebe Ser dentro do metabolismo produzido.

É uma hipótese conceitual BrainLatam, não uma definição consensual da neurociência.

Isso nos permite distinguir:

processamento

de

Perceber em primeira pessoa.

E o novo Perceber nunca encontra um cérebro vazio.

Ativados, pré-ativados e o próximo Perceber

Propomos que, para processar um novo acontecimento, o Corpo-Território recruta circuitos ativados e pré-ativados.

Memórias recentes.

Expectativas.

Estados corporais.

Associações.

Atenção.

Representações suficientemente disponíveis.

Quando um novo Perceber emerge, ele próprio passa a participar desse repertório.

Assim:

ativados + pré-ativados + estímulo

processamento

Perceber

nova ativação

novas condições para o próximo Perceber.

A neurociência contemporânea mostra que representações podem alternar entre estados mais ativos e estados latentes. Em 2023, Watanabe e colaboradores observaram ciclos de silenciamento e reativação de objetivos nos córtices frontal e parietal durante resolução de problemas complexos. Modelos activity-silent também propõem que informações podem permanecer disponíveis sem atividade persistentemente elevada. (ScienceDirect)

Nossa hipótese vai além desses achados.

Aproximadamente 15 ativações: não como gavetas, mas como prioridade

Na BrainLatam trabalhamos provisoriamente com uma ordem de grandeza de aproximadamente 15 ativações prioritariamente recrutáveis.

Não significa quinze itens conscientes.

Não significa quinze “slots” de memória de trabalho.

Não significa que o décimo sexto acontecimento apague o primeiro.

Nossa hipótese é sobre prioridade de recrutamento.

Enquanto determinados circuitos permanecem suficientemente recentes, repetidos ou relevantes, tendem a participar mais facilmente do próximo processamento.

Com a entrada contínua de novas ativações, algumas das mais antigas poderiam deixar progressivamente de ser recrutadas com a mesma facilidade.

Mas em qual modo funcional isso seria especialmente importante?

No que chamamos de Pedra.

Pedra não é apenas “pensar rápido”

Pedra não é simplesmente outro nome para o Sistema 1 de Kahneman.

No modelo BrainLatam, Pedra representa um agrupamento operacional de configurações funcionais com forte participação sensório-motora e somatossensorial, automatização, hábito, execução rápida e alta performance.

Um atleta experiente não precisa reconstruir conscientemente cada gesto.

Um músico não calcula cada movimento dos dedos.

Um motorista treinado realiza inúmeras correções sem deliberar sobre cada uma delas.

Informações proprioceptivas e somatossensoriais são fundamentais para a execução motora eficiente, e a literatura recente sobre aprendizagem motora mostra como a prática pode transformar respostas inicialmente deliberadas em habilidades progressivamente mais automatizadas.

Essa automaticidade aumenta a velocidade.

Mas eficiência e flexibilidade não são exatamente a mesma coisa.

Pedra funciona porque o organismo não precisa pesquisar tudo o que já viveu antes de agir.

Ele precisa recrutar rapidamente aquilo que está suficientemente disponível.

Na formulação BrainLatam:

Pedra — sensório-motor / Pensar Rápido

permite replicar o conhecido;

executar habilidades;

utilizar hábitos;

responder rapidamente;

e manter alta performance.

Não significa que o córtex pré-frontal “desligou”, nem que Pedra esteja localizado numa única área cerebral.

É uma metáfora funcional para uma organização distribuída em redes.

Mas de onde vêm as pré-ativações com as quais acordamos?

Aqui surge uma nova hipótese importante.

Talvez nossas pré-ativações não sejam apenas aquilo que aconteceu nos últimos minutos.

Elas podem ser também o resultado de processos ocorridos enquanto dormíamos.

O sono não é uma interrupção vazia da atividade cerebral.

Pesquisas recentes mostram que memórias codificadas durante a vigília podem ser espontaneamente reativadas durante o sono e participar de processos de consolidação, integração e reorganização. Reativações durante sono NREM, inclusive sono de ondas lentas, têm forte suporte experimental. (PubMed)

Portanto, não seria adequado afirmar que um bom sono profundo simplesmente “zera” nossas ativações.

O que podemos perguntar é algo diferente:

um bom ciclo de sono reorganiza quais representações estarão mais disponíveis quando voltarmos a Perceber conscientemente?

Essa é uma pergunta compatível com os achados contemporâneos sobre reativação e consolidação, embora a ligação específica com nossas ~15 ativações ainda seja hipótese BrainLatam.

Após uma boa noite de sono, talvez acordemos com um repertório de prioridades diferente daquele com que fomos dormir.

Algumas experiências recentes foram reforçadas.

Outras integradas.

Outras talvez tenham perdido prioridade.

E muitas dessas reativações não precisam chegar à lembrança consciente.

REM não é simplesmente lembrar sonhos

Isso também evita outra confusão.

Sono REM, sonho e memória não são a mesma coisa.

Reativações de memória podem ocorrer durante o sono sem que depois consigamos narrá-las conscientemente. Estudos recentes mostram tanto reativações durante NREM quanto evidências de reativação durante REM, enquanto a relação direta entre reativação de memória e conteúdo dos sonhos permanece complexa. (PubMed)

Portanto, o fato de não acordarmos lembrando de determinado sonho não significa que nada tenha ocorrido com as representações durante o sono.

Para nossa hipótese, isso é particularmente interessante:

talvez parte daquilo que acorda pré-ativado não seja aquilo de que acordamos lembrando.

E o que acontece depois que pegamos o celular?

Aqui entramos em uma condição historicamente muito recente.

Durante grande parte da história humana, depois de acordar, o Corpo-Território encontrava um número relativamente limitado de acontecimentos imediatos.

Hoje podemos despertar e, em poucos minutos, encontrar:

mensagens;

notícias;

vídeos;

comentários;

indignações;

publicidade;

WhatsApp;

Instagram;

TikTok;

e-mail;

buscadores;

e agora sistemas de inteligência artificial capazes de produzir conteúdo praticamente sem limite.

Cada encontro pode gerar uma nova ativação.

Cada notificação pode mudar atenção.

Cada vídeo pode antecipar o próximo assunto.

Cada resposta da IA pode abrir outras dez perguntas.

Nossa hipótese é que podemos estar criando uma condição de superpré-ativação.

Não no sentido de que o cérebro simplesmente armazene tudo.

Quase o contrário.

Recebemos tantos candidatos a ativação que o sistema precisa selecionar continuamente o que continuará suficientemente disponível para ser recrutado.

Revisões recentes sobre ambiente digital descrevem sobrecarga informacional, interrupções constantes, alternância de tarefas e dificuldades de atenção sustentada. A sobrecarga de informação também tem sido associada a pior tomada de decisão e maior pressão cognitiva. (Frontiers)

Em estudo de 2024, distrações provenientes de redes sociais alteraram desempenho e padrões neurais relacionados à atenção global e local. (ScienceDirect)

Isso não demonstra a hipótese das 15 ativações.

Mas torna urgente testá-la.

Talvez o problema não seja informação demais, mas tempo de menos

Podemos ter acesso a mais informação do que qualquer geração anterior.

E ainda assim ter menos tempo entre uma ativação e outra.

Essa diferença é fundamental.

O problema pode não ser simplesmente:

“recebi muita informação.”

Pode ser:

“recebi uma nova ativação antes de conseguir reorganizar a anterior.”

Se permanecemos em Pedra — navegando, respondendo, compartilhando e reagindo rapidamente — a eficiência desse modo funcional pode favorecer justamente aquilo que ele sabe fazer melhor:

recrutar rapidamente o que está disponível e seguir adiante.

Assim, algumas ativações mais antigas podem deixar de participar das próximas percepções antes que tenham sido comparadas, contextualizadas ou integradas.

Temos cada vez mais conteúdo.

Mas talvez nem sempre tenhamos tempo para pensar sobre aquilo que acabou de nos modificar.

A IA pode intensificar isso — ou fazer exatamente o contrário

Seria simplista afirmar que inteligência artificial necessariamente piora nossa cognição.

A IA pode multiplicar informação e acelerar a sucessão de estímulos.

Mas também pode funcionar como offloading cognitivo, organizar conteúdo, recuperar informações esquecidas e apoiar processos metacognitivos.

Há pesquisas recentes mostrando benefícios de ferramentas generativas quando utilizadas junto com metacognição compartilhada e externalização de parte da carga cognitiva. (Nature)

Portanto, a pergunta Religare não é:

“IA é boa ou ruim?”

É:

“em qual conectoma estou usando a IA?”

Se a utilizo para solicitar vinte respostas sucessivas sem refletir sobre nenhuma, talvez esteja alimentando Pedra.

Se a utilizo para comparar hipóteses, buscar contrapontos e reconstruir aquilo que havia deixado de recrutar, ela pode ajudar Tesoura.

Se a utilizo para perceber meus próprios pressupostos, talvez também possa favorecer Papel.

Relação antes de sujeito e objeto

Essa dinâmica nos aproxima novamente das ontologias relacionais latino-americanas.

Em diferentes tradições aimará, Mapuche, Guarani/Kaiowá, Kichwa e Maya, pesquisadores contemporâneos descrevem relações nas quais pessoa, território e outros existentes não começam necessariamente como entidades completamente independentes que somente depois se conectam.

Jiwasa, tekoha, che/mapu, pacha e as relações da milpa Maya não são equivalentes entre si.

Muito menos “explicam” a Consciência 5D.

Mas permitem questionar uma premissa ocidental:

o percebedor realmente continua sendo o mesmo depois de perceber?

Alejandro Haber formula provocativamente que conhecimento é relacionamento.

Astrid Ulloa e Sofía Zaragocin trabalham corpos-territórios como relações vividas.

Izaque João mostra que tekoha não é apenas uma superfície externa onde alguém mora, mas um lugar constituído através das relações que permitem determinado modo de viver.

Essas perspectivas nos ajudam a formular melhor nossa hipótese:

o percebido se imbrica no percebedor porque o acontecimento da percepção modifica o repertório material daquele Corpo-Território que continuará percebendo.

Do Perceber ao Planejar e ao Julgar

Depois de Perceber, podemos representar o que ainda não aconteceu.

No Religare:

Religião = Planejar.

“E se isso continuar?”

“E se eu entrar ali?”

“E se essa pessoa estiver certa?”

“E se esse território desaparecer?”

Depois atribuímos valor.

Política = Julgar / Escolher.

“Isso é bom.”

“Isso é perigoso.”

“Isso deve ser preservado.”

“Isso deve ser proibido.”

Alguns julgamentos podem acontecer rapidamente em Pedra.

Outros exigem recuperar alternativas que não estavam entre nossas ativações prioritárias.

É aí que entra Tesoura — Pense Devagar: comparação, inferência, recorte, análise e maior participação de redes de controle pré-frontal.

E talvez entre também Papel:

consigo perceber o estado a partir do qual estou julgando?

O que ficou fora do meu recrutamento?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para uma sociedade hiperconectada.

Depois de dormir, acordamos com determinado repertório.

Depois chegam mensagens.

Vídeos.

Notícias.

Discussões.

Algoritmos.

IA.

Novos Perceberes entram como novas ativações.

E, se nossa hipótese estiver correta, algo progressivamente deixa de ser recrutado.

A questão então não é apenas:

“O que eu sei?”

Mas:

“o que ainda está suficientemente disponível para participar do que estou pensando agora?”

“O que percebi hoje que já mudou aquele que perceberá amanhã?”

“Qual relação deixou de ser recrutada porque quinze outras chegaram depois?”

“Preciso continuar em Pedra ou preciso de tempo para Tesoura e Papel reorganizarem o campo?”

Zähme e colaboradores mostraram que perceber características de uma cena e avaliá-la não precisam ser o mesmo instante.

A Consciência 5D acrescenta que, para nós, Perceber exige consciência:

um movimento que se percebe Ser dentro do metabolismo produzido.

E Religare acrescenta talvez a pergunta mais desconfortável:

quando finalmente digo “eu julguei”, quantos acontecimentos já participaram materialmente da construção daquele “eu” — e quantos outros ficaram temporariamente fora daquilo que consegui recrutar?

Referência principal

Zähme, C., Sander, I., Koselevs, A., Kühn, S., & Gramann, K. (2026). From perception to appraisal: Brain responses to natural and built features in urban environments. Brain and Environment, 8, 100028. DOI: 10.1016/j.braen.2026.100028.

Referências complementares

Carbone, J., & Diekelmann, S. (2024). An update on recent advances in targeted memory reactivation during sleep. npj Science of Learning, 9, 31. DOI: 10.1038/s41539-024-00244-8.

Denis, D., & Cairney, S. A. (2023). Neural reactivation during human sleep. Emerging Topics in Life Sciences, 7(5), 487–498. DOI: 10.1042/ETLS20230109.

Haber, A. (2022). O conhecimento é o relacionamento: cenas de gnosiologia catamarcana. Revista de Arqueologia, 35(1), 39–52. DOI: 10.24885/sab.v35i1.957.

Ibáñez, A., Melloni, L., Świeboda, P., et al. (2024). Neuroecological links of the exposome and One Health. Neuron, 112(12), 1905–1910. DOI: 10.1016/j.neuron.2024.04.016.

João, I. (2022). Autonomia kaiowá e guarani: a ação dos ñanderu e ñandesy na criação do tekoha. Revista de Antropologia. DOI: 10.11606/1678-9857.ra.2022.204550.

Lansner, A., Fiebig, F., & Herman, P. (2023). Fast Hebbian plasticity and working memory. Current Opinion in Neurobiology, 83, 102809. DOI: 10.1016/j.conb.2023.102809.

Mercado, K., & de Lafuente, V. (2022). Prefrontal and Premotor Cortices Encode Inference Judgements. Neuroscience, 485, 145–146. DOI: 10.1016/j.neuroscience.2022.01.011.

Picard-Deland, C., Bernardi, G., Genzel, L., Dresler, M., & Schoch, S. F. (2023). Memory reactivations during sleep: a neural basis of dream experiences? Trends in Cognitive Sciences, 27(6), 568–582. DOI: 10.1016/j.tics.2023.02.006.

Ulloa, A., & Zaragocin, S. (2022). Diàlegs sobre feminismes, ambientalismes i racismes des de les geografies feministes llatinoamericanes. Documents d’Anàlisi Geogràfica, 68(3), 481–491. DOI: 10.5565/rev/dag.743.

Villarroel Cárdenas, V., Sanhueza-Estay, C., & Quintriqueo Millán, S. (2022). Ontología relacional mapuche, conocimiento susceptible de articular al conocimiento escolar. Diálogos sobre Educación, 13(25).

Watanabe, K., Kadohisa, M., Kusunoki, M., Buckley, M. J., & Duncan, J. (2023). Cycles of goal silencing and reactivation underlie complex problem-solving in primate frontal and parietal cortex. Nature Communications, 14, 5054. DOI: 10.1038/s41467-023-40676-1.

“superpré-ativação” não significa que temos mais capacidade; pode significar exatamente que existem mais candidatos disputando um repertório limitado de recrutamento. O sono pode reorganizar esse repertório; a vida digital pode modificá-lo novamente muito rapidamente; e Tesoura/Papel seriam relevantes justamente para recuperar diversidade antes que Pedra continue executando apenas aquilo que permaneceu disponível.







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States