Jackson Cionek
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Quando a Ciência deixa de pertencer a um único cérebro

Quando a Ciência deixa de pertencer a um único cérebro

Conhecimento, sentimentos e a emergência da descoberta compartilhada

O instante em que ninguém sabia a resposta

Imagine cinco pesquisadores diante de uma tela.

Um gráfico apresenta um resultado inesperado.

A primeira pesquisadora sente entusiasmo. Talvez tenham descoberto algo importante.

O segundo desconfia. Pode existir um erro na coleta.

A terceira reconhece um padrão que já havia encontrado em outro experimento.

O quarto permanece em silêncio.

A quinta pergunta:

E se estivermos fazendo a pergunta errada?

Algo muda naquele instante.

Talvez o entusiasmo diminua. Talvez a desconfiança encontre uma explicação. Talvez uma hipótese que parecia suficiente precise transformar-se.

Nenhum deles possuía antecipadamente tudo o que seria necessário para compreender o resultado.

E, mesmo assim, algo começa a emergir entre suas diferenças.

Quem fez a descoberta?

A pessoa que percebeu primeiro?

Aquela que duvidou?

Ou aquela que permitiu formular uma pergunta que ainda não existia?

Fazer é Ciência

Na BrainLatam, desenvolvemos uma analogia entre três capacidades que reconhecemos no próprio Corpo-Território.

Religião imagina. Ciência faz. Política avalia.

Não são definições universais dessas atividades. São aproximações funcionais para investigar como imaginamos possibilidades, agimos e julgamos consequências.

Chamamos Fazer–Ciência–Executivo à capacidade de agir sobre o presente disponível.

Investigar, experimentar, observar, comparar e modificar nossas ações.

Imagine uma criança tentando atravessar um pequeno riacho.

Ela observa as pedras.

Imagina um caminho.

Experimenta apoiar o pé.

Percebe que determinada superfície escorrega.

Reorganiza o movimento.

Não precisa conhecer a palavra Ciência para aprender com a experiência.

Da mesma forma, não precisamos pertencer a uma instituição científica para formular perguntas e investigar possibilidades.

Mas o método científico acrescenta exigências fundamentais: controles, documentação, confronto com evidências, reprodutibilidade quando aplicável e abertura à crítica.

Fazer torna-se investigação científica quando organizamos nossas experiências para que também possam ser examinadas e contestadas por outros.

O presente não obedece às nossas hipóteses

Voltemos ao laboratório.

A equipe esperava encontrar um resultado.

Encontrou outro.

Podemos ignorá-lo.

Podemos selecionar apenas os dados que confirmam nossas expectativas.

Ou podemos investigar a diferença.

Essa escolha envolve mais do que procedimentos técnicos.

Existe uma experiência emocional.

A frustração de descobrir um erro.

O medo de perder meses de trabalho.

A alegria de reconhecer uma possibilidade inesperada.

A vergonha de apresentar uma interpretação equivocada.

O sentir prova que estamos experimentando algo, mas não demonstra que nossa interpretação seja verdadeira.

Por isso, emoções não precisam ser expulsas da Ciência.

Precisamos reconhecê-las sem transformá-las automaticamente em evidências.

A confiança pode permitir apresentar dúvidas.

A curiosidade pode sustentar novas tentativas.

Mas o excesso de confiança também pode dificultar a identificação de erros.

Quando o contraditório produz conhecimento

Hanne De Jaegher e o pesquisador argentino Ezequiel Di Paolo propuseram o conceito de produção participativa de sentido.

A ideia permite investigar como a própria interação pode transformar os significados construídos pelos participantes.

Imagine que uma pesquisadora apresente sua hipótese.

Outro pesquisador identifica uma variável esquecida.

Ela reconsidera o experimento.

Uma terceira pessoa sugere outra condição de comparação.

A pergunta inicial já não é a mesma.

Isso não significa que três cérebros se transformaram em um cérebro maior.

Cada Corpo-Território conserva suas próprias experiências.

Mas a interação pode produzir caminhos que nenhum deles havia antecipado isoladamente.

A verdade pode estar entre Nós sem pertencer exclusivamente a nenhum de Nós.

E o contraditório não precisa representar uma ameaça ao pertencimento.

Pode constituir uma de suas possibilidades mais importantes.

Quem pode modificar a pesquisa?

Pesquisadores também ocupam posições diferentes.

Um coordenador conhece os equipamentos.

Uma estudante percebe um problema durante a coleta.

Um técnico reconhece interferências no sinal.

Uma pessoa participante relata uma experiência que o protocolo não conseguiu representar.

Quem será escutado?

Imagine que todos devam seguir a interpretação do pesquisador mais experiente.

Talvez consigam trabalhar rapidamente.

Mas poderão deixar de reconhecer informações importantes.

Agora imagine que qualquer integrante possa apresentar uma observação fundamentada e solicitar uma verificação.

A organização da pesquisa pode transformar-se.

A liderança científica não deveria significar o direito permanente de determinar quais perguntas poderão existir.

Na hipótese do Jiwasa, uma posição de coordenação pode mudar conforme as necessidades e as contribuições.

Perceber uma diferença, sinalizá-la e reorganizar o movimento coletivo não exige tornar-se proprietário da descoberta.

O conhecimento também nasce no território

O sociólogo colombiano Orlando Fals-Borda desenvolveu a pesquisa-ação participativa como uma possibilidade de integrar investigação, conhecimento e transformação social.

Nessa abordagem, comunidades não precisam permanecer apenas como objetos de pesquisa.

Podem participar da formulação de problemas e da produção de conhecimentos sobre suas condições de existência.

Imagine pesquisadores investigando a qualidade da água de um território.

Moradores conhecem mudanças de cor, odores e períodos de escassez.

Os pesquisadores possuem instrumentos para medir substâncias e comparar resultados.

Nenhuma dessas experiências precisa substituir automaticamente a outra.

O conhecimento vivido pode ajudar a formular perguntas.

As medições podem confirmar, corrigir ou ampliar interpretações.

Quem vive um problema pode participar da Ciência que procura compreendê-lo.

Isso não dispensa critérios metodológicos.

Amplia as possibilidades de investigação.

Quando a Ciência aprende a ouvir sentimentos

A pesquisadora Amy Edmondson investigou como a segurança psicológica se relaciona com a aprendizagem em equipes.

Seu trabalho mostrou associações entre a possibilidade percebida de assumir riscos interpessoais e comportamentos de aprendizagem.

Imagine uma estudante que percebe um erro.

Se teme humilhação, talvez permaneça calada.

Se consegue apresentar sua observação, o grupo poderá verificar o problema.

Mas acolher uma pergunta não significa aceitar qualquer conclusão.

Significa permitir que ela seja examinada.

Uma Ciência que não admite dúvidas pode tornar-se eficiente na repetição e limitada na descoberta.

Também precisamos reconhecer que sentimentos de pertencimento podem produzir conformidade.

Um laboratório pode ser acolhedor e, ainda assim, resistir a interpretações contrárias às suas convicções.

Por isso, confiança e contraditório precisam coexistir.

A descoberta pertence a quem?

Brian Uzzi e colaboradores analisaram milhões de publicações científicas e encontraram relações entre impacto científico e combinações de conhecimentos convencionais com elementos incomuns.

O estudo também observou a contribuição das equipes para combinações pouco usuais.

Isso não demonstra que toda pesquisa coletiva seja superior à individual.

Mas sustenta a importância de investigar como diferentes conhecimentos podem produzir novas associações.

Talvez a descoberta comece quando alguém reconhece uma possibilidade.

Talvez continue quando outro consegue demonstrar seus limites.

E talvez adquira significado quando uma terceira pessoa encontra uma aplicação inesperada.

A autoria científica precisa reconhecer contribuições efetivas.

Mas o conhecimento também depende de instrumentos, instituições, experiências anteriores e pessoas frequentemente invisíveis nos resultados publicados.

Reconhecer a autoria não precisa significar declarar a propriedade exclusiva da verdade.

Podemos medir um Fazer–Ciência coletivo?

Imaginemos um experimento com cinco pesquisadores.

Primeiro, cada participante analisa individualmente dados científicos ambíguos.

Registramos suas hipóteses, confiança, sentimentos e decisões.

Depois, todos analisam os mesmos dados, seguindo uma liderança fixa.

Finalmente, realizam uma investigação cooperativa em que qualquer participante pode modificar a pergunta, solicitar controles e propor novos experimentos.

Utilizamos EEG, fNIRS, ECG, variabilidade cardíaca, respiração e registros comportamentais.

Precisamos distinguir respostas semelhantes aos mesmos estímulos de modificações verdadeiramente recíprocas.

Sincronização cerebral não demonstra, por si só, descoberta compartilhada.

Podemos investigar quem modificou determinada hipótese, quais evidências foram utilizadas e como as decisões mudaram.

Mas precisamos acrescentar uma etapa.

Depois do encontro, cada participante volta a trabalhar individualmente.

Será que agora consegue formular perguntas que antes não imaginava?

Quando o Nós transforma o UM

Essa talvez seja nossa pergunta experimental mais importante.

Não basta descobrir se cinco pessoas conseguem resolver juntas um problema.

Precisamos investigar se a experiência compartilhada modifica o repertório que cada uma leva consigo.

Talvez uma pesquisadora aprenda a considerar variáveis anteriormente ignoradas.

Outra desenvolva maior tolerância à incerteza.

Uma terceira reconheça novas possibilidades de colaboração.

Também poderão existir resultados negativos: conformidade, dependência da liderança ou redução da autonomia.

Na BrainLatam, chamamos Quorum Sensing Humano à hipótese de que determinadas condições de interação podem reorganizar possibilidades individuais e coletivas.

Isso não equivale ao mecanismo molecular de comunicação bacteriana.

Nem demonstra uma consciência coletiva independente.

Propomos investigar se um Nós pode ampliar as possibilidades de Ser de cada UM, mesmo depois que o encontro termina.

Ciência, Executivo e Estado-Jiwasa

Agora imagine que os pesquisadores investiguem um problema do próprio Bioma.

A Ciência produz resultados.

Mas quem decide o que fazer com eles?

Na analogia da BrainLatam, Religião–Legislativo representa a capacidade de imaginar futuros e formular regras para torná-los possíveis.

Fazer–Ciência–Executivo representa experimentar ações no presente e observar suas consequências.

Política–Jurídico representa avaliar resultados, conflitos, valores e possibilidades de correção.

Chamamos Religare à circulação entre essas capacidades.

No Estado-Jiwasa, nenhuma deveria pertencer exclusivamente a uma autoridade.

O Corpo-Território continua sendo agente de percepção, investigação e decisão.

Uma política pública não deveria funcionar apenas porque acreditamos nela. Precisamos observar seus resultados.

E permitir que aqueles que vivem suas consequências participem de sua avaliação.

A Ciência que continua depois do encontro

Voltemos ao laboratório.

O gráfico permanece na tela.

A pesquisadora entusiasmada continua sentindo curiosidade.

O colega desconfiado encontrou uma explicação possível.

A estudante antes silenciosa propôs um novo experimento.

Agora todos podem seguir caminhos diferentes.

Talvez nunca cheguem à mesma interpretação.

Isso não significa necessariamente que fracassaram.

Se suas hipóteses forem confrontadas com evidências, poderão construir conhecimentos que ainda não estavam disponíveis.

A maravilha da Ciência compartilhada não está em fazer todos pensarem da mesma maneira. Está em permitir que cada encontro transforme aquilo que conseguimos perguntar, sentir e fazer.

Talvez a descoberta científica não pertença a um único cérebro.

Mas cada Corpo-Território pode participar dela sem deixar de Ser.

E nossa pergunta permanece aberta:

A investigação coletiva amplia o repertório de hipóteses, sentimentos e ações que cada pesquisador consegue desenvolver posteriormente, quando volta a investigar sozinho?


Referências comentadas

De Jaegher, Hanne; Di Paolo, Ezequiel (2007). Participatory sense-making: An enactive approach to social cognition. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 6, 485–507.

Desenvolve a produção participativa de sentido, permitindo investigar como a interação transforma significados sem eliminar a autonomia dos participantes.

Fals-Borda, Orlando (1987). The Application of Participatory Action-Research in Latin America. International Sociology, 2(4).

Apresenta a pesquisa-ação participativa latino-americana, integrando conhecimento, ação e participação das comunidades na investigação de suas próprias condições.

Fals-Borda, Orlando; Rahman, Muhammad Anisur (orgs.) (1991). Action and Knowledge: Breaking the Monopoly with Participatory Action Research.

Discute a democratização da produção do conhecimento, com experiências de investigação participativa em diferentes territórios.

Edmondson, Amy (1999). Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 44(2), 350–383.

Investiga relações entre segurança psicológica e aprendizagem em equipes, contribuindo para compreender as condições nas quais dúvidas e erros podem ser discutidos.

Uzzi, Brian; Mukherjee, Satyam; Stringer, Michael; Jones, Benjamin (2013). Atypical Combinations and Scientific Impact. Science, 342(6157), 468–472.

Analisa combinações convencionais e incomuns de conhecimento científico e suas relações com impacto e produção colaborativa.

Woolley, Anita Williams; Chabris, Christopher; Pentland, Alex; Hashmi, Nada; Malone, Thomas (2010). Evidence for a Collective Intelligence Factor in the Performance of Human Groups. Science, 330(6004), 686–688.

Investiga o desempenho de pequenos grupos em diferentes tarefas. Seus resultados sobre inteligência coletiva e fatores associados motivaram pesquisas e debates posteriores.

Daston, Lorraine; Galison, Peter (2007). Objectivity. Zone Books.

Examina historicamente como diferentes ideais de objetividade e julgamento científico foram construídos, contribuindo para distinguir evidências de interpretações.

Maturana, Humberto; Varela, Francisco (1984). El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Editorial Universitaria.

Obra chilena fundamental para compreender cognição, organização dos seres vivos e história de interações entre organismo e ambiente.

Cionek, Jackson. Religare — Religiosidade Plena em um Estado Democrático, Laico e de Direito.

Fundamenta a analogia autoral entre capacidades de imaginar possibilidades, agir sobre o presente e avaliar consequências, aqui relacionadas à Religião, à Ciência e à Política.

BrainLatam (2026). Completude do Movimento.

Desenvolve a hipótese da Completude do Movimento, relacionada à percepção, mobilização, ação, retorno e reorganização das possibilidades de Ser.

Nota científica: A pesquisa participativa, a produção compartilhada de sentido e determinados fenômenos de desempenho coletivo possuem fundamentação empírica. A analogia Fazer–Ciência–Executivo e as hipóteses Quorum Sensing Humano e Estado-Jiwasa são propostas da BrainLatam. Os estudos citados não demonstram que a sincronização neural produza uma consciência coletiva nem que a participação amplie necessariamente as capacidades futuras de cada pesquisador.


BrainLatam | W44/2026






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States