Jackson Cionek
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Comunicação Viva: enfrentando o poder dos 01s sobre mídia, dívida e narrativas

Comunicação Viva: enfrentando o poder dos 01s sobre mídia, dívida e narrativas

Quando eu observo o nosso tempo, eu vejo duas camadas acontecendo ao mesmo tempo:

  • de um lado, poucos grupos – os 01s – concentram mídia, plataformas digitais, dados, crédito e narrativa;

  • de outro, a maioria de nós vive com o corpo cansado, a mente fragmentada, a atenção sequestrada e, muitas vezes, endividada, tentando sobreviver dentro de histórias que não fomos nós que escrevemos.

Quando eu uso “01s”, eu estou falando dessa minoria que:

  • é dona de grandes meios de comunicação;

  • controla plataformas e algoritmos que decidem o que aparece nas nossas telas;

  • desenha e lucra com produtos de crédito e dívidas que prendem o nosso futuro.

Diante disso, eu proponho a ideia de Comunicação Viva:

Comunicação Viva é o encontro de corpos em primeira pessoa, em biomas concretos, conversando com tempo, escuta e responsabilidade, sem serem guiados o tempo todo por algoritmos e contratos que servem ao lucro dos 01s.

Entre o poder frio dos 01s e a Comunicação Viva, está a disputa central da democracia neste século.


O foco deste texto

Neste texto eu escolho acender um único foco:

Se a Constituição não proteger a Comunicação Viva, os 01s continuarão decidindo sozinhos quais histórias o país pode contar sobre si mesmo – e quais corpos vão carregar a culpa e a dívida.

Sem Comunicação Viva:

  • a democracia vira espetáculo;

  • o parlamento vira cenário;

  • e a vida real acontece na fenda entre o boleto e a notificação do celular.

O que eu quero aqui é costurar três camadas:

  1. mídia e algoritmos (quem controla o que vemos e sentimos);

  2. dívida (quem controla o nosso tempo e o nosso futuro);

  3. Consciência em Primeira Pessoa (como tudo isso entra no corpo, na Mente Damasiana, nas nossas Zonas 1, 2 e 3).


Quem são os 01s no mundo da comunicação e da dívida

Eu poderia apontar nomes de grupos, bancos e plataformas, mas o ponto aqui é estrutural.

Os 01s são:

  • os grandes proprietários de meios de comunicação, que decidem o que é “fato relevante” e o que é “ruído”;

  • os donos ou controladores de plataformas que desenham algoritmos para capturar atenção, não para promover entendimento;

  • os arquitetos de produtos de crédito que se apresentam como solução mágica para desejos e emergências, mas podem se transformar em prisão de longo prazo.

Na prática, isso significa que um pequeno conjunto de atores:

  • escolhe quais crises aparecem todo dia na TV;

  • define, por meio de algoritmos, o que aparece na nossa tela quando abrimos o celular;

  • oferece, ao mesmo tempo, as “soluções” financeiras para a angústia que esse mundo produz.

É um circuito fechado:

  1. mídia e plataformas produzem medo, escassez, comparação e desejo;

  2. isso gera ansiedade, sensação de falta e urgência;

  3. o crédito aparece como saída imediata;

  4. a dívida, depois, é tratada como problema moral individual.

Nessa lógica, o 01 não precisa apontar o dedo diretamente. Basta que ele controle a narrativa: o resto o próprio corpo endividado faz, se culpando.


Mídia, algoritmos e colonização da atenção

Quando eu falo em colonização da atenção, eu estou falando do seguinte:

  • Aplicativos são desenhados para manter o corpo conectado o máximo de tempo possível.

  • Notificações, cores, sons, recompensas aleatórias, rolagem infinita: tudo isso explora um cérebro que evoluiu para reagir rapidamente a novidades e ameaças.

  • No lugar de fruição e presença (Zona 2), a gente vive em micro-explosões de alerta – mini Zonas 3 – que não se resolvem em ação concreta, só em mais rolagem.

O resultado é conhecido na pele:

  • dificuldade de manter foco profundo;

  • sono de má qualidade;

  • sensação de estar sempre atrasado;

  • irritação constante, mesmo sem “motivo”;

  • incapacidade de sustentar escuta verdadeira do outro.

Para a democracia, isso é devastador.

Sem atenção sustentada, não existe deliberação.
Sem deliberação, não existe decisão coletiva.
E sem decisão coletiva, a democracia vira assinatura em contrato já pronto.

Quando a maior parte das nossas emoções é acionada por conteúdos escolhidos algorithmicamente, a Comunicação Viva é substituída por uma Comunicação Automatizada:

  • eu não falo a partir da minha experiência em Corpo-Território;

  • eu apenas replico, compartilho, reajo a conteúdos que foram empurrados para mim porque geram engajamento.

Aí quem governa não é o “povo”, é o modelo de negócios da plataforma.


Dívida: a narrativa silenciosa que prende o futuro

Se os algoritmos colonizam o presente, a dívida coloniza o futuro.

Dívida não é só número em planilha. Ela é também:

  • tensão no peito;

  • aperto no estômago;

  • insônia na véspera do vencimento;

  • sensação de fracasso porque “eu deveria dar conta”.

Uma coisa é uma dívida planejada, transparente, com juros decentes e possibilidade real de quitação.
Outra coisa é a dívida desenhada para durar para sempre, girando em juros, multas e renegociações que mantêm a pessoa presa.

Quando essa lógica se espalha:

  • famílias inteiras passam a existir como apêndices de contratos;

  • jovens começam a vida adulta já devendo;

  • idosos prolongam a vida trabalhando apenas para “acertar pendências”.

E aqui vem a parte mais perversa:
a narrativa dominante diz que o problema é “falta de educação financeira” individual, e não um sistema conscientemente organizado em torno de lucros altos sobre a culpa e o desespero.

Essa culpa individual silencia a Comunicação Viva:

  • em vez de falarmos “nós estamos presos a um modelo de dívida estrutural”,

  • cada um se cala, com vergonha, achando que o erro é pessoal.


Onde entra a Consciência em Primeira Pessoa

Tudo isso que eu descrevi até aqui não é somente sociologia ou economia. É neurofisiologia da vida cotidiana.

Na minha linguagem:

  • Mente Damasiana é esse encontro permanente entre interocepção (como o corpo está por dentro) e propriocepção (como o corpo se move e se posiciona);

  • quando o corpo é submetido a estresse crônico (notificações, violência, insegurança, dívida), a interocepção vai sendo educada para sentir o mundo como ameaça constante;

  • em vez de Zona 2 (fruição, curiosidade, criatividade), ficamos oscilando entre Zonas 1 e 3, com picos de ansiedade, apatia, procrastinação, raiva sem direção.

A Comunicação Viva pede outra coisa:

  • pede corpos que tenham direito à pausa, à sombra, à água limpa, ao silêncio;

  • pede espaços em que eu possa dizer em primeira pessoa:

    • “eu sinto medo quando…”,

    • “eu adoeço quando…”,

    • “eu respiro melhor quando o território é cuidado assim…”;

  • e pede que esses relatos sejam tratados como dados legítimos, não como “drama”.

Quando eu falo em Quorum Sensing Humano, eu estou dizendo:

existe uma inteligência coletiva que emerge quando muitos corpos, em um mesmo bioma, sentem coisas parecidas ao mesmo tempo – falta de água, calor, violência, insônia, fome, dívida, esperança.

Se o sistema político ignora essa inteligência e ouve apenas gráficos de PIB e relatórios de risco, ele está desligando o microfone da Consciência em Primeira Pessoa.

Comunicação Viva é justamente o contrário:
é pegar esse microfone de volta.


Comunicação Viva: o que é, para além do slogan

Para mim, Comunicação Viva não é nostalgia de uma era pré-digital.
Ela é uma proposta de alta performance orgânica com segurança psicológica, na política e na vida cotidiana.

Eu chamo de Comunicação Viva quando:

  • corpos e comunidades se encontram em tempos e espaços que não são inteiramente controlados por plataformas;

  • há possibilidade de fala em primeira pessoa, sem marketing e sem roteiro;

  • há disposição para escutar, inclusive o que não queremos ouvir;

  • o bioma entra na conversa:

    • rios, florestas, mares, montanhas aparecem como pauta viva, não como cenário.

Comunicação Viva pode acontecer:

  • numa assembleia territorial;

  • numa roda de jovens na escola;

  • numa consulta comunitária sobre uso da água;

  • numa audiência pública onde as pessoas falam como o corpo está reagindo a uma obra, uma lei, um conflito.

Ela também pode ser mediada por tecnologia – desde que:

  • os algoritmos sejam transparentes;

  • o objetivo principal seja compreensão, não engajamento cego;

  • e a plataforma esteja a serviço do Quorum Sensing Humano, não ao contrário.


O que isso tem a ver com a Constituição Chilena

Quando eu trago isso para o processo constituinte chileno, eu enxergo alguns pontos essenciais:

  1. Direito à Comunicação Viva como direito fundamental
    Não basta dizer “liberdade de expressão” em termos abstratos.
    Eu proponho falar explicitamente em:

    • direito a se informar por meios plurais e desconcentrados;

    • direito a não ser manipulado por estratégias de captura de atenção;

    • direito a participar de debates públicos em formatos que respeitem corpo, tempo e bioma.

  2. Limites constitucionais ao poder concentrado de mídia e plataformas
    Isso inclui:

    • regras claras de desconcentração de propriedade;

    • obrigação de transparência sobre como são decididos os conteúdos que aparecem para cada pessoa;

    • proteção especial para crianças e adolescentes, que ainda estão com o cérebro em desenvolvimento.

  3. Proteção contra narrativas abusivas de dívida
    A Constituição pode:

    • estabelecer princípios para impedir superendividamento como modelo de negócio;

    • garantir informação simples e comparável em contratos;

    • estimular formas de economia que não dependam da culpa e do medo como armas de venda.

  4. Institucionalizar espaços de Comunicação Viva
    Em vez de depender apenas de eleições periódicas, o texto constitucional pode:

    • reconhecer assembleias territoriais, conselhos de bioma e fóruns cidadãos como parte da estrutura democrática;

    • dar a esses espaços algum nível de poder consultivo vinculante;

    • obrigar governos a ouvir relatos em primeira pessoa em decisões de grande impacto.


Sugestão de artigo constitucional (rascunho em espanhol)

Aqui eu arrisco um texto que poderia aparecer, adaptado, em uma nova Constituição chilena:

Artículo X – Derecho a la Comunicación Viva y límites al poder de los 01

  1. Toda persona y toda comunidad tienen derecho a la Comunicación Viva: a informarse, expresarse y deliberar en condiciones de pluralidad, diversidad y respeto, sin ser objeto de manipulación sistemática por parte de actores públicos, económicos o tecnológicos.

  2. El Estado garantizará la desconcentración de la propiedad de los medios de comunicación y promoverá medios comunitarios, indígenas, locales, educativos y públicos independientes como condición para la vida democrática.

  3. Las plataformas digitales que operen en el territorio nacional estarán sujetas a obligaciones de transparencia sobre sus sistemas de recomendación de contenidos, protección especial de niños, niñas y adolescentes, y prevención de dinámicas que lesionen la salud mental, la dignidad humana y el ejercicio de los derechos políticos.

  4. El Estado adoptará medidas para prevenir el sobreendeudamiento de los hogares y evitar prácticas comunicacionales que, bajo la apariencia de información o publicidad, normalicen estructuras de deuda que atenten contra una vida digna.

  5. La regulación de los medios, de las plataformas digitales y de los servicios financieros deberá orientarse a proteger el espacio de la Comunicación Viva, entendida como el encuentro de cuerpos, territorios y biomas en primera persona, condición esencial para el ejercicio del Quorum Sensing Humano y de la democracia.


Sugestões de leitura comentadas

  1. Shoshana Zuboff – A Era do Capitalismo de Vigilância

    • Como grandes plataformas transformam dados pessoais em matéria-prima para lucro e controle.

    • Para buscar: “Zuboff Era do Capitalismo de Vigilância 2018”.

  2. Byung-Chul Han – No Enxame e Psicopolítica

    • Ensaios sobre como a hiperconexão digital e a autoexploração substituem formas tradicionais de dominação.

    • Para buscar: “Byung-Chul Han No Enxame Psicopolitica”.

  3. Tiziana Terranova – textos sobre trabalho gratuito e redes digitais

    • Discute como nossas interações online se transformam em trabalho não pago para plataformas.

    • Para buscar: “Tiziana Terranova free labor network culture”.

  4. Maurizio Lazzarato – A Fábrica do Homem Endividado

    • Mostra como a dívida se torna tecnologia central de controle social e subjetivo.

    • Para buscar: “Lazzarato fabrica do homem endividado”.

  5. Nick Srnicek – Platform Capitalism

    • Analisa o modelo econômico das plataformas digitais e suas formas de concentração de poder.

    • Para buscar: “Nick Srnicek Platform Capitalism”.

  6. Jaron Lanier – Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now

    • Apresenta, em linguagem acessível, argumentos sobre os efeitos das redes sociais na mente e na política.

    • Para buscar: “Jaron Lanier Ten Arguments for Deleting”.

  7. Trabalhos sobre mídia e democracia no Chile (Sergio Godoy e outros)

    • Discutem concentração de mídia e impacto na qualidade democrática chilena.

    • Para buscar: “Sergio Godoy media ownership Chile democracia”.

  8. Relatórios recentes sobre saúde mental e redes sociais em adolescentes

    • Diversos órgãos de saúde têm alertado para relações entre uso intenso de redes e sofrimento psíquico em jovens.

    • Para buscar: “relatorio redes sociais saude mental adolescentes 2023 2024”.







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Jackson Cionek

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