Yãy hã mĩy: Imitar Ser Para Transcender-se Ser
Yãy hã mĩy: Imitar Ser Para Transcender-se Ser
Pau de Fita, Fio Vivo e Neurociência Decolonial para a Era Digital
Do Corpo ao Brain Bee: Neurociência Decolonial para Adolescentes da América Latina
Talvez a gente precise começar antes da palavra “brincadeira”.
Antes de chamar algo de jogo, dança, esporte, ritual, educação física ou folclore, havia corpos aprendendo com outros corpos.
Uma criança observava o avô.
Uma neta imitava a avó.
Um menino tentava repetir o gesto de um animal.
Uma menina aprendia o canto olhando o corpo de quem cantava.
Um grupo corria, girava, caía, ria, voltava.
O território inteiro ensinava.
A escola moderna muitas vezes separou tudo: corpo para um lado, mente para outro; ciência para um lado, espiritualidade para outro; infância para um lado, ancestralidade para outro. Mas muitos povos originários das Américas nunca organizaram o mundo assim.
Aqui entra um dos conceitos fundamentais da BrainLatam2026:
Yãy hã mĩy — imitar ser para transcender-se Ser.
Essa formulação é nossa leitura BrainLatam2026, não uma tradução literal fechada. Na exposição Mundos Indígenas, da UFMG, o conceito yãy hã mĩy aparece como um dos mundos apresentados por curadores indígenas, incluindo o mundo Tikmũ’ũn/Maxakali; a exposição também orienta que esses mundos sejam encontrados sem tradução apressada ou comparação redutora com a nossa realidade conhecida. (UFMG)
Na nossa linguagem:
imitar não é copiar.
Imitar é entrar em outro modo de ser para voltar transformado ao próprio corpo.
Imitar não é obedecer
A colonização muitas vezes ensinou que imitar é repetir sem pensar. Copiar o modelo. Obedecer ao mestre. Seguir a forma certa.
Mas, quando olhamos para Yãy hã mĩy, a imitação ganha outra profundidade.
A criança que imita um animal não está apenas “fazendo de conta”.
Ela está experimentando postura, respiração, atenção, ritmo, força, silêncio, direção e presença.
O jovem que aprende um canto não está apenas decorando som.
Está entrando em uma memória coletiva.
A neta que brinca com a avó não está apenas passando tempo.
Está recebendo um modo de perceber o mundo.
Essa é a diferença entre uma imitação morta e uma imitação viva.
A imitação morta quer formar seguidores.
A imitação viva forma presença.
Contra a espiritualidade fora do corpo
A Neurociência Decolonial não precisa negar a espiritualidade. Pelo contrário. Ela precisa impedir que a espiritualidade seja arrancada do corpo, do território e da vida concreta.
Quando a espiritualidade fica fora do corpo, ela pode virar culpa, medo, obediência ou promessa distante. Quando volta para o corpo, aparece como respiração, ritmo, canto, chão, roda, cuidado, gesto, sonho, memória e pertencimento.
A exposição Mundos Indígenas lembra que os mundos indígenas envolvem existências humanas e outras existências — plantas, animais e espíritos — com quem se convive efetivamente. Também afirma que esses mundos nos ensinam a coexistir, interagir com respeito e aceitar que existem outros modos de organizar a realidade. (UFMG)
Então a pergunta não é: “isso é brincadeira ou espiritualidade?”
A pergunta é mais profunda:
que tipo de corpo essa prática forma?
Que tipo de atenção ela cultiva?
Que tipo de território ela faz sentir?
Que tipo de pessoa ela ajuda a nascer?
Brincadeiras ancestrais como laboratórios de corpo-território
Quando olhamos para brincadeiras dos povos originários das Américas, percebemos que brincar nunca foi apenas “passar o tempo”.
O Museu das Culturas Indígenas publicou em 2025 o material Do museu à escola, tecendo diálogos: Brincadeiras Indígenas, criado como recurso didático para educadores e elaborado com equipe indígena e não indígena, mestres de saberes e estagiários indígenas. O próprio MCI reforça que o material não pretende oferecer verdades absolutas e recomenda escuta, diálogo com anciões e cuidado para que práticas indígenas não sejam reproduzidas sem contexto. (Museu das Culturas Indígenas)
Esse cuidado é central.
A gente não quer transformar práticas ancestrais em “atividade divertida” desconectada de seus povos.
Não queremos retirar rito, canto, brinquedo ou gesto de seu território e vender como dinâmica escolar.
Queremos aprender a escutar.
As figuras de barbante, por exemplo, mostram uma pequena escola de APUS fino: mão, olho, memória, espera, sequência e história. No texto-base anterior, essa prática aparece como uma forma de Jiwasa em escala mínima: duas pessoas regulando atenção, gesto e tempo juntas.
Na Guatemala, o Grupo Sotz’il Jay publicou Etz’anem, pesquisa sobre jogos e brinquedos tradicionais mayas kaqchikeles, apresentada como contribuição para a pedagogia lúdica e para os conhecimentos dos povos originários. (Museu das Culturas Indígenas)
A peteca também pode ser lida como corpo-território em movimento: atenção compartilhada, coordenação olho-mão, ritmo, lateralidade, espera e resposta ao outro. Não é só rebater um objeto. É manter algo vivo no ar.
E talvez essa seja uma boa imagem para Jiwasa:
uma atenção que só continua se alguém responde.
Capoeira: a roda afro-brasileira como laboratório do Hemisfério Sul
A capoeira não é o único laboratório corporal do continente, mas é um exemplo forte de uma inteligência do Hemisfério Sul: corpo, ritmo, roda, música, ancestralidade, defesa, jogo, improviso e pertencimento.
Na roda, ninguém aprende sozinho.
O berimbau regula.
A palma regula.
O canto regula.
O mestre regula.
O parceiro regula.
O grupo regula.
Isso é Jiwasa.
E também é função executiva em movimento: esperar, inibir impulso, mudar de estratégia, lembrar sequência, ajustar força, ler o outro, decidir em tempo real.
Um estudo randomizado de 2022 com crianças de 8 a 13 anos investigou efeitos da capoeira sobre funções executivas e encontrou melhora em coordenação olho-mão, além de associação positiva entre melhora em funções executivas e número de aulas frequentadas. (UFMG) Outro estudo sobre capoeira em pré-escolares encontrou impacto positivo modesto no controle inibitório, com efeitos maiores em alguns grupos socialmente vulneráveis.
A capoeira nos ajuda a dizer:
o corpo também pensa.
A roda também ensina.
A cultura também é laboratório.
O Pau de Fita da vida comunitária
Agora podemos abrir uma imagem nova, sem abandonar o eixo ancestral.
O Pau de Fita é uma dança tradicional em que participantes circulam ao redor de um mastro segurando fitas coloridas que vão sendo trançadas pelo movimento coletivo. O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular descreve o pau-de-fita como uma dança de pares de origem portuguesa, realizada ao redor de um mastro com fitas multicores. (Antigo) A Ciência Hoje das Crianças também apresenta o pau-de-fitas como dança trazida por portugueses e espanhóis, adaptada no Brasil e conhecida por nomes como dança de fitas, dança da trança e dança do mastro. (CHC)
Na leitura BrainLatam2026, cada fita pode representar um Eu Tensional.
Um fio é o corpo que quer brincar.
Outro é a curiosidade.
Outro é o medo.
Outro é a pressa.
Outro é a vontade de pertencer.
Outro é a raiva.
Outro é a memória da avó.
Outro é o desejo de aparecer.
Outro é a pergunta própria.
Outro é o algoritmo chamando.
A vida comunitária é esse pau de fita.
Se cada fio puxa sozinho, a dança vira nó.
Se a roda encontra ritmo, os fios formam desenho.
A gente pode pensar o dEUS como o regente dessa roda interna: não um ego fixo comandando tudo, mas uma inteligência que percebe qual Eu Tensional deve liderar em cada momento, qual precisa esperar, qual precisa respirar, qual precisa ser escutado e qual não pode governar sozinho.
Fio Vivo e Onça de Luz: folclore público para a era digital
É aqui que a Lenda do Fio Vivo pode entrar.
Não como tradição antiga inventada.
Não como folclore falso.
Mas como uma criação pública, laica e consciente para a infância digital.
A ideia é simples:
cada criança nasce com fios vivos.
Cada fio é uma força do corpo.
A comunidade ajuda a trançar esses fios.
A tecnologia não pode ser a única dançarina da roda.
A Onça de Luz representa telas, games, redes sociais, notificações e IA. Ela não é simplesmente má. Ela também pode ensinar, conectar, traduzir e ampliar mundos. Mas, quando chega antes do corpo estar formado, pode puxar todos os fios para si.
A criança deixa de sentir o próprio ritmo.
O adolescente confunde desejo próprio com recomendação.
A pergunta vira resposta pronta.
O corpo vira espectador.
O Fio Vivo vira fio capturado.
A Yvirá, revista da Cátedra UNESCO de Ciência para Educação, destaca que o uso de telas na primeira infância expõe crianças a estímulos rápidos e intensos, diferentes das experiências sensório-motoras e sociais do mundo real; também defende políticas públicas intersetoriais para educação digital, proteção de direitos, formação profissional e criação de espaços seguros e comunitários para brincar. (Yvirá)
O Núcleo Ciência Pela Infância também aponta que a exposição excessiva a telas tende a substituir brincar, interação e presença adulta, afetando linguagem, vínculos afetivos, regulação emocional e habilidades sociais na primeira infância. (NCPI)
Por isso, antes da IA conectada, precisamos de IA Desconectada.
A criança segura uma fita.
O adolescente nomeia um Eu Tensional.
A roda gira.
O grupo percebe quando a trama virou nó.
A pergunta reorganiza o movimento.
A comunidade ajuda cada fio a encontrar lugar.
O Colibri da Pergunta pode aparecer apenas como voz da roda:
Quem está puxando o fio agora?
O corpo ou a tela?
A pergunta ou a resposta pronta?
A roda ou o feed?
A comunidade ou o algoritmo?
Essa é a parte urgente.
O Estado precisa assumir que educar na era digital não é apenas conectar escolas, distribuir telas ou ensinar comandos de IA. A orientação da UNESCO sobre IA generativa afirma que governos precisam implementar ações imediatas, planejar políticas de longo prazo e desenvolver capacidades humanas para garantir uma visão centrada no humano dessas tecnologias; a UNESCO também alerta para proteção de dados, validação ética e uso adequado por idade. (UNESCO)
A gente precisa de novos folclores públicos.
Não para substituir culturas ancestrais.
Não para apagar tradições existentes.
Não para inventar “ancestralidade” artificial.
Mas para criar, com responsabilidade, novas brincadeiras comunitárias que preparem bebês, crianças e adolescentes para a vida adulta digital.
O Fio Vivo pode ser isso: uma brincadeira nova, inspirada no Pau de Fita, nas figuras de barbante, na peteca, na capoeira, nos jogos Maya Kaqchikeles e nas pedagogias originárias do corpo.
Uma brincadeira para aprender que:
todo fio precisa de corpo.
todo corpo precisa de roda.
toda roda precisa de pergunta.
toda tecnologia precisa de limite.
A pergunta que podemos levar ao Brain Bee
Se um adolescente lê este texto e se interessa por neurociência, já temos uma pergunta científica:
o que muda no cérebro, no corpo e na atenção quando uma criança aprende por imitação corporal, roda, canto, jogo, território e IA Desconectada?
Um estudo BrainLatam2026 poderia comparar experiências como:
brincadeira individual sem interação;
brincadeira em dupla, como figuras de barbante;
brincadeira coletiva em roda;
capoeira com música, improviso e pertencimento;
Pau de Fita com nomeação dos Eus Tensionais;
atividade digital sem corpo compartilhado.
Poderíamos observar controle inibitório, atenção compartilhada, memória de trabalho, coordenação motora, sincronização corporal, sensação de pertencimento e retorno à calma depois do erro.
Em laboratório multimodal, poderíamos usar EEG, fNIRS, eye-tracking, respiração, HRV/RMSSD, GSR, EMG e análise de vídeo para estudar atenção, regulação autonômica, esforço motor, sincronia social e co-regulação.
A hipótese BrainLatam2026 seria:
práticas ancestrais e novos folclores públicos de imitação, roda e território podem favorecer funções executivas porque não treinam o cérebro isolado: treinam o corpo em relação.
DREX Cidadão: cultura corporal como política pública
Se essas práticas formam atenção, pertencimento, memória, corpo e comunidade, então elas não podem ser tratadas apenas como “cultura complementar”.
Elas são infraestrutura humana.
Uma escola que oferece capoeira, brincadeiras de roda, pesquisa de brincadeiras indígenas, diálogo com mestres de saberes, materiais simples, tempo de corpo e respeito ao território não está apenas oferecendo atividade.
Está oferecendo Zona 2.
Está oferecendo Jiwasa.
Está oferecendo APUS.
Está oferecendo proteção contra a captura digital precoce.
Está oferecendo pertencimento.
No nosso modelo, o DREX Cidadão aparece como metáfora de metabolismo público: cada criança precisa de energia social para aprender. Essa energia inclui alimento, escola, tecnologia e ciência, mas também corpo, cultura, ancestralidade, território e brincar.
Sem isso, a educação fica desencarnada.
E uma educação desencarnada pode até produzir desempenho, mas não necessariamente produz presença.
Fechamento: os fios vivos da comunidade
Yãy hã mĩy nos dá uma chave.
Transcender não é abandonar o corpo.
Não é fugir do mundo.
Não é obedecer a uma autoridade distante.
Transcender pode ser voltar ao corpo com mais mundo dentro.
A criança imita o animal e volta mais atenta.
Imita o canto e volta mais pertencente.
Imita o gesto da avó e volta mais antiga.
Imita a roda e volta mais coletiva.
Imita a ginga e volta mais capaz de responder sem se quebrar.
Imita o algoritmo para entender seus limites.
Imita o Pau de Fita para perceber que nenhum Eu Tensional deve governar sozinho.
A América Latina não precisa importar todos os seus modelos de aprendizagem.
Nós temos arquivos vivos no corpo.
Antes do Brain Bee, existe o corpo.
Antes da neurociência, existe a brincadeira.
Antes da performance, existe a roda.
Antes da explicação, existe a imitação viva.
Antes da IA, existe a pergunta.
E talvez a imagem central seja esta:
os Fios Vivos vão tecendo a trama no Pau de Fita da vida comunitária.
Uma infância protegida não é uma infância sem tecnologia.
É uma infância que entra na tecnologia com corpo, pergunta, roda e pertencimento.
Referências usadas
UFMG / Espaço do Conhecimento. Mundos Indígenas — referência para mundos indígenas, Tikmũ’ũn/Maxakali, Yãy hã mĩy e corpo-território. (UFMG)
Museu das Culturas Indígenas. Do museu à escola, tecendo diálogos: Brincadeiras Indígenas, 2025 — referência para brincadeiras indígenas, autoria indígena, cuidado pedagógico, escuta de anciões e formação de professores. (Museu das Culturas Indígenas)
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Pau-de-fita — referência para a dança com mastro e fitas multicores. (Antigo)
Ciência Hoje das Crianças. Pau-de-fitas — referência para a dança de fitas, sua adaptação no Brasil e seus nomes regionais. (CHC)
UNESCO. Guidance for generative AI in education and research, 2023 — referência para IA generativa, políticas públicas, proteção de dados, uso adequado por idade e abordagem centrada no humano. (UNESCO)
UNICEF. Early childhood development — referência para primeira infância, desenvolvimento cerebral, cuidado responsivo e brincar. (UNICEF)
Yvirá / Cátedra UNESCO de Ciência para Educação. A primeira infância na era digital — referência para telas, interações presenciais, brincar, desenvolvimento infantil e políticas públicas. (Yvirá)
Núcleo Ciência Pela Infância. Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, 2025 — referência para riscos do uso precoce/excessivo de telas e necessidade de políticas de proteção à infância digital. (NCPI)
Texto-base BrainLatam2026 desta conversa. Yãy hã mĩy: Imitar Ser Para Transcender-se Ser — base do ensaio anterior sobre capoeira, brincadeiras ancestrais, APUS, Tekoha, Jiwasa e DREX Cidadão.