Ver o Território Como Corpo: APUS, Povos Originários e Neurociência Decolonial
Ver o Território Como Corpo: APUS, Povos Originários e Neurociência Decolonial
Talvez a pergunta mais importante para a Neurociência Decolonial não seja apenas: “o que o cérebro percebe?”
A pergunta mais profunda é: de onde o corpo aprende a perceber?
Na escola, na ciência e na política moderna, muitas vezes tratamos o território como espaço externo: um mapa, uma propriedade, uma área de gestão, um recurso natural. Mas, para muitos povos originários da América Latina, território não é cenário. Território é corpo, memória, língua, sonho, alimento, ritual, parentesco e continuidade da vida.
É aqui que entra o APUS: o corpo além da pele. O APUS é a propriocepção estendida, a capacidade de o corpo sentir montanha, água, mata, casa, rua, vento, calor, língua e comunidade como partes da própria orientação no mundo.
Ver o território como corpo não é metáfora fraca. É uma forma de inteligência. É perceber que o corpo não se forma sozinho dentro da cabeça. Ele se forma em relação com o chão, com a água, com a língua, com os sonhos e com os seres que habitam o mesmo mundo.
Nos debates latino-americanos recentes, a noção de corpo-território aparece como categoria cosmopolítica, especialmente nas lutas de mulheres indígenas no Brasil, indicando a relação inseparável entre povo e território e denunciando formas de espoliação que transformam corpos e terras em objetos de exploração. (Revistes de la Universitat de Barcelona)
Esse ponto é central para adolescentes. Quando um jovem perde território, ele não perde apenas uma paisagem. Ele perde referências corporais de pertencimento. Perde chão, ritmo, memória e futuro. A ansiedade, a hiperestimulação e a sensação de vazio não nascem apenas “dentro” do indivíduo. Muitas vezes, são efeitos de um APUS ferido.
A cosmovisão Wixárika ajuda a compreender isso. Pesquisas recentes sobre práticas, linguagem e território Wixárika mostram que culturas orais não podem ser reduzidas a mapas escritos ou categorias externas. Johannes Neurath, em 2024, discute a dificuldade de catalogar o “intraduzível” e observa que os Wixárika e povos vizinhos, por serem culturas orais, costumam desconfiar da linguagem escrita como forma suficiente de representar seus mundos. (Berghahn Journals)
Isso é muito importante para a Neurociência Decolonial: nem todo conhecimento cabe em palavra escrita, tabela ou protocolo. Alguns conhecimentos vivem no corpo, no ritual, no caminho, na repetição, no canto, no sonho e na relação com o território. Quando a ciência ignora isso, ela pode até medir o cérebro, mas perde o mundo que formou aquele cérebro.
Os Lacandones, no México, também ajudam a ampliar essa leitura. Pesquisas colaborativas de longa duração com os Lacandon Maya em Mensabak, Chiapas, mostram a importância de estudar práticas culturais, paisagens rituais, vida contemporânea e desenvolvimento comunitário em diálogo com os próprios membros da comunidade, e não apenas como objeto externo de pesquisa. (ResearchGate)
Aqui aparece uma regra ética fundamental: pesquisar povos originários não é extrair dados culturais. É construir relação. É respeitar língua, território, memória, sonho e autoridade comunitária. A ciência colonial pergunta: “o que podemos coletar?”. A ciência em modo Jiwasa pergunta: “o que podemos compreender juntos sem ferir o território?”.
A língua também é território. Estudos sobre sonhos e multilinguismo mostram que a exposição a uma língua durante o dia influencia sua presença nos sonhos, indicando que o mundo vivido continua reorganizando linguagem durante o sono. Um estudo de diário de sonhos publicado em 2024 reforça que línguas usadas na vida desperta aparecem também na vida onírica, apoiando a hipótese de continuidade entre vigília e sonho. (heiJOURNALS)
Para a BrainLatam2026, isso é precioso: se a língua do território entra no sonho, então o sonho também é corpo-território. A mente sonha com os materiais que a vida oferece. Quando uma língua originária é enfraquecida, não se perde apenas vocabulário. Perde-se uma forma de sonhar o mundo.
A espiritualidade DANA pode entrar justamente aqui, como uma espiritualidade laica, neutra e de cuidado. Não para substituir as espiritualidades originárias, nem para se apropriar delas, mas para reconhecer que o Estado Laico deve proteger as condições para que cada povo mantenha sua relação com língua, território, sonho, corpo e pertencimento.
A Neurociência Decolonial precisa aprender a perguntar melhor. Em vez de perguntar apenas “qual área cerebral ativa quando alguém vê uma paisagem?”, podemos perguntar:
que território ensinou esse corpo a sentir?
que língua organiza essa memória?
que sonho mantém esse povo em continuidade?
que APUS foi ferido pela colonização, pela escola linear, pela tela ou pela perda da terra?
A pesquisa experimental pode ajudar, desde que não colonize a pergunta. EEG, fNIRS, hyperscanning, ECG, respiração, GSR e medidas de sono podem investigar como o corpo muda diante de narrativas territoriais, línguas maternas, cantos, imagens de território, rodas de conversa e práticas coletivas. Mas a interpretação precisa sair do individualismo.
Se um adolescente escuta uma história em sua língua ancestral e seu corpo muda, não estamos vendo apenas “processamento auditivo”. Podemos estar vendo APUS. Podemos estar vendo memória territorial. Podemos estar vendo Jiwasa. Podemos estar vendo o corpo reconhecer o lugar de onde veio.
A crítica decolonial é esta: a ciência muitas vezes mede o corpo como se ele fosse universal, mas os corpos são formados por mundos diferentes. Um cérebro urbano hiperestimulado por tela não é formado pelo mesmo APUS de um adolescente que cresce em relação com rio, mata, roça, língua comunitária e sonho coletivo. Não se trata de dizer que um é melhor que outro. Trata-se de reconhecer que são ecologias de formação diferentes.
Fábio Meireles, em trabalho recente sobre corpo-território, práticas artísticas e ativismo indígena, mostra como a disputa por território é também uma disputa ontológica e epistêmica, isto é, uma disputa sobre modos de existir e modos de conhecer. (Mecila)
Essa frase precisa entrar no centro do blog: território não é só onde se vive; é como se conhece.
Por isso, ver o território como corpo também muda a educação. Uma escola de Neurociência Decolonial para adolescentes não deveria ensinar apenas cérebro, neurônio e função executiva. Deveria ensinar que atenção depende de território, memória depende de língua, sonho depende de mundo vivido, criatividade depende de APUS, e inteligência coletiva depende de Jiwasa.
Nesse sentido, povos originários não entram como “tema cultural” para uma semana comemorativa. Entram como referência epistemológica. Eles ajudam a ciência a perceber o que a modernidade tentou esquecer: o corpo pensa com o território.
A espiritualidade DANA, nesse contexto, pode funcionar como ponte laica: não impõe crença, não transforma povos originários em ornamento e não reduz espiritualidade a religião institucional. Ela afirma que o DNA, o corpo, a terra, os sonhos, a língua e os vínculos fazem parte de uma mesma continuidade de cuidado.
No modo BrainLatam2026, poderíamos propor um estudo com adolescentes latino-americanos comparando diferentes condições de pertencimento: escuta de narrativas territoriais, uso de língua materna ou ancestral, contato com imagens do território, roda presencial, sonho relatado, respiração e sensação de pertencimento. Poderíamos medir EEG em tarefas de atenção, fNIRS em interações cooperativas, HRV/RMSSD, respiração, GSR e relatos de sonho. A hipótese não seria “provar” uma cultura, mas investigar como território, língua e vínculo modulam atenção, memória e regulação corporal.
A pergunta científica seria:
quando o adolescente reconhece seu território como corpo, o cérebro entra mais facilmente em Zona 2?
Essa é uma pergunta potente para o Brain Bee, porque ensina ciência sem arrancar o jovem do mundo. Mostra que EEG e fNIRS não precisam servir apenas para medir performance individual. Podem servir para investigar pertencimento, linguagem, sonho, APUS e agência compartilhada.
No fechamento político, isso se conecta diretamente ao DREX Cidadão e à IA como bem comum. Se território é corpo, então dados, dinheiro, escola e tecnologia precisam devolver vida ao território. Não basta proteger terras no papel enquanto algoritmos capturam a atenção, línguas desaparecem, jovens perdem pertencimento e comunidades são tratadas como banco de dados.
Ver o território como corpo é recusar a separação colonial entre natureza, cultura, cérebro e política. É afirmar que a mente humana não nasce apenas no crânio. Ela nasce em um mundo.
E talvez seja isso que os povos originários vêm ensinando há séculos:
o território sonha no corpo,
a língua respira na memória,
a montanha orienta a postura,
a água regula a vida,
e o “a gente” só existe quando o APUS não foi esquartejado.
A Neurociência Decolonial começa quando a ciência aprende a perguntar com mais humildade:
que corpo este território está formando?
Referências
Krenak, Ailton. Futuro Ancestral. Companhia das Letras, 2022.
Referência latino-americana para pensar território, ancestralidade, rios, montanhas e continuidade da vida.
Chaves, Kena Azevedo. “Corpo-território, reprodução social e cosmopolítica: reflexões a partir das lutas das mulheres indígenas no Brasil.” Scripta Nova, 2021.
Trata corpo-território como categoria cosmopolítica ligada às lutas indígenas e à relação inseparável entre povo e território. (Revistes de la Universitat de Barcelona)
Meireles, Fábio. Corpo-território: práticas artísticas e ativismo indígena. Mecila Working Paper, 2025.
Discute território indígena como disputa política, jurídica, ontológica e epistêmica. (Mecila)
Neurath, Johannes. “Cataloguing the Untranslatable.” Anthropology in Action, 2024.
Aborda desafios de linguagem, oralidade e tradução em relação aos Wixárika e povos vizinhos. (Berghahn Journals)
Trabalho colaborativo com Lacandon Maya em Mensabak, Chiapas, México, 2020.
Exemplo de pesquisa construída com comunidade, práticas culturais, paisagem ritual e desenvolvimento comunitário. (ResearchGate)
Dollnick, Daniela. “Languages in Dreams: A Diary Study.” International Journal of Dream Research, 2024.
Mostra relação entre exposição linguística na vigília e presença de línguas nos sonhos. (heiJOURNALS)
“Tupinambá: The Territory Dreams.” Piseagrama.
Mostra a relação entre sonho, autogoverno e território em perspectiva Tupinambá. (Piseagrama)
D’Arcangelis, Carol Lynne; Quiroga, Lorna. “Cuerpo-Territorio: Towards Feminist Solidarities in the Americas.” Revista Eletrônica da ANPHLAC, 2023.
Relaciona corpo-território, feminismos indígenas, colonialismo e resistência ao extrativismo.
Zaragocin, Sofia. “Agua-cuerpo-territorio / Water-body-territory.” Political Geography, 2024.
Conecta corpo, água, território e feminismos decoloniais nas Américas.
Damasio, Antonio. Feeling & Knowing: Making Minds Conscious. Pantheon, 2021.
Base para compreender consciência como corpo, sentimento, regulação e mundo vivido.
De Felice, Silvia et al. “Relational Neuroscience: Insights from Hyperscanning Research.” Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2025.
Apoia a leitura de cognição como relação entre cérebros, corpos e contexto social.
Grasso-Cladera, Aitana et al. “Embodied Hyperscanning for Studying Social Interaction.” Social Neuroscience, 2024.
Integra EEG/fNIRS, corpo, fisiologia e interação social em estudos de pertencimento e cooperação.