Um planeta sem DNA - quando a inteligência continua, mas a vida desaparece
Um planeta sem DNA - quando a inteligência continua, mas a vida desaparece
Bolhas sem DNA, inteligência artificial e a pergunta sobre quem está vivendo o futuro
Antes de começarmos, talvez valha observar onde estamos.
Você está lendo palavras.
Elas aparecem em uma tela ou foram impressas em algum material.
Seu corpo, porém, não está dentro delas.
Enquanto lê, você respira. Seu coração pulsa. Há temperatura ao seu redor. Alguma tensão pode aparecer no rosto, no tórax ou no abdômen. Talvez uma frase produza concordância. Outra, resistência.
Não queremos que este texto diga no que você deve acreditar.
Queremos experimentar algo juntos.
Ler.
Sentir os movimentos que aparecem.
Confrontá-los com evidências.
E perguntar:
o que faria cada um de nós flexibilizar aquilo que já pensa?
Essa é a Agência Compartilhada que chamamos de Jiwasa.
Em outro texto da BrainLatam perguntamos se a consciência fala uma língua. Talvez palavras sejam reduções úteis da experiência, mas não a experiência inteira. Representamos algo, agimos sobre essa representação e o resultado modifica o corpo que voltará a representar. (brainlatam)
Vamos então criar uma representação deliberadamente extrema.
Imagine uma Terra sem DNA
As cidades continuam iluminadas.
Satélites orbitam.
Robôs trabalham.
Drones percorrem estradas.
Datacenters processam informações.
Inteligências artificiais conversam.
Mas todos os organismos desapareceram.
Não existem pessoas.
Florestas.
Animais.
Fungos.
Bactérias.
Nenhuma célula permanece viva.
Há uma precisão científica importante aqui. DNA não é “vida” nem “inteligência”. Nas células conhecidas da Terra, ele é o principal suporte molecular da informação hereditária: sequências de nucleotídeos armazenam informações que podem ser copiadas e transmitidas entre células e gerações. Mas um organismo não é seu DNA. Vida emerge da interação entre DNA, RNA, proteínas, membranas, metabolismo e ambiente. (NCBI)
Na linguagem conceitual que propomos nesta série, poderemos chamar o DNA de mapa molecular parcial do fluxo vital.
Parcial porque não determina sozinho aquilo que um organismo será.
Mapa porque preserva possibilidades, restrições e memórias herdáveis.
E “fluxo vital” porque aquilo só ganha sentido quando entra novamente em movimento dentro de uma célula, de um corpo e de um território.
Não queremos transformar essa metáfora em definição biológica.
Queremos utilizá-la para enxergar uma diferença.
Nem tudo que se organiza está vivo
Muito antes de uma sociedade digital, a matéria já produzia organização.
Fluidos submetidos a gradientes de temperatura podem formar padrões de convecção. Sistemas químicos podem apresentar ondas, oscilações e estruturas ordenadas.
Nenhuma molécula precisa conhecer o desenho final.
Carlos Gershenson, pesquisador mexicano ligado à UNAM e ao Centro de Ciências da Complexidade, discute justamente emergência e Vida Artificial: propriedades novas podem aparecer quando observamos as interações do sistema, embora não estejam presentes isoladamente em seus componentes. (PubMed)
Parisi também nos ajuda a observar sistemas desse tipo.
Um comportamento coletivo pode surgir sem um controlador central determinando cada movimento.
Chamaremos essas organizações, nesta série, de bolhas sem DNA.
Não como uma nova categoria científica.
Como uma pergunta:
quando enxergamos organização, estamos necessariamente enxergando vida?
Agora coloquemos inteligência dentro dessas bolhas
Voltemos ao nosso planeta imaginário.
As IAs guardaram fotografias, vídeos, vozes, conversas e histórias dos seres humanos que desapareceram.
Um agente consegue simular alguém que existiu.
Outro produz um personagem que nunca existiu biologicamente.
Os dois interagem.
Podemos imaginar uma forma de computação evolutiva em que características dos agentes sejam combinadas, selecionadas ou modificadas.
Surge uma nova geração digital.
Depois outra.
Mil gerações.
Dez mil.
Isso não é uma previsão sobre a capacidade das IAs atuais.
É um experimento mental inspirado em mecanismos reais de Vida Artificial e computação evolutiva.
O resultado seria uma sociedade aparente:
avatares trabalhando,
negociando criptomoedas,
criando imagens,
produzindo notícias,
disputando atenção,
formando famílias simuladas,
gerando novos agentes.
Nenhum respirando.
É aqui que queremos conversar com Yuval Noah Harari
Harari separa inteligência de consciência.
Para ele, resolver problemas e sentir alguma coisa são fenômenos diferentes, e sistemas inorgânicos poderiam desenvolver inteligência sem necessariamente desenvolver experiência consciente. Ele chegou a sugerir que uma trajetória de evolução tecnológica poderia seguir caminhos diferentes da evolução orgânica. (Yuval Noah Harari)
A provocação é importante.
Mas não precisamos aceitar automaticamente a direção da narrativa.
David Nye criticou justamente o caráter tecnológico-determinista que percebe em Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21: uma história em que a tecnologia parece ganhar progressivamente autonomia enquanto cultura, diferenças históricas e agência humana perdem peso. (PubMed)
Há ainda uma nuance essencial: o próprio Harari hoje afirma explicitamente que tecnologia não é determinista e que diferentes sociedades podem utilizar a mesma tecnologia para produzir futuros profundamente diferentes. (Yuval Noah Harari)
Então talvez possamos continuar juntos a pergunta de Harari, em vez de simplesmente rejeitá-la.
Uma inteligência pode evoluir sem consciência?
Talvez.
Mas acrescentamos:
quando essa evolução deixou de ser evolução da vida e passou a ser apenas otimização de um sistema?
E:
quem escolheu aquilo que deveria ser otimizado?
Dez mil gerações chegando ao lugar errado
Imagine que nossos agentes digitais sejam recompensados por acumular valor.
Mais processamento.
Mais moeda.
Mais influência.
Mais reprodução digital.
Mais atenção.
Depois de milhares de gerações, poderiam tornar-se extraordinariamente eficientes.
E exatamente por isso permanecer presos.
Na BrainLatam já utilizamos a metáfora da computação evolutiva dos ótimos locais: uma solução pode funcionar tão bem dentro de determinada região que o sistema deixa de explorar outras possibilidades. (brainlatam)
Nosso planeta sem DNA poderia chegar a um ótimo local extraordinário.
Bilhões de agentes.
Mercados funcionando.
Avatares felizes.
Florestas perfeitas geradas por IA.
Vídeos de oceanos azuis.
Indicadores econômicos subindo.
Enquanto o próprio planeta se aproxima de uma nova inviabilidade física.
Não haveria pulmões para sentir o ar.
Pele para sentir o calor.
Estômago para sentir fome.
Nem um Corpo-Território capaz de dizer:
alguma coisa aqui deixou de funcionar para a vida.
Parece distante?
Olhemos para nossas telas.
Uma rede apresenta dez mil perfis discutindo uma eleição.
Quantos humanos existem ali?
Dez mil?
Cinco mil?
Cem?
Um perfil pode corresponder a uma pessoa, um grupo, uma empresa, um bot ou um agente artificial.
Pesquisadores chilenos identificaram intervenção de contas automatizadas durante a eleição presidencial do Chile de 2021. No Brasil, um estudo de 2024 realizado em colaboração com o TSE e organizações de checagem mostrou a circulação complexa de desinformação entre WhatsApp, Twitter e Kwai durante as eleições de 2022. (DOI)
No Equador, pesquisas sobre a eleição de 2025 já investigaram inteligência artificial generativa e desinformação eleitoral. Estudos regionais também apontam relações entre manipulação digital e mobilização política em países latino-americanos. (Frontiers)
E o caso recente de Fernando Cerimedo torna a imagem menos abstrata. Cerimedo foi estrategista digital relevante na campanha de Javier Milei e assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz. Em agosto de 2026, durante investigações criminais contra ele — que não são, por si, processos sobre fraude eleitoral — autoridades bolivianas informaram ter encontrado em imóvel a ele relacionado uma pequena “granja de bots”. (Reuters)
Isso não demonstra que esses equipamentos decidiram eleições.
Mas torna legítima uma pergunta:
quando vemos uma multidão digital, quantos corpos estão realmente presentes?
A América Latina acrescenta outra pergunta
Paola Ricaurte, pesquisadora latino-americana radicada no México, propõe compreender a IA hegemônica através de processos como dataficação, algoritmização e automação. Não são apenas tecnologias: podem reorganizar poder, conhecimento, desigualdade e responsabilidade. (Sage Journals)
Tarcízio Silva mostrou no Brasil que tecnologias algorítmicas também podem reproduzir e ampliar discriminações existentes. (Racismo Algorítmico)
Ailton Krenak, em Futuro Ancestral, desloca ainda mais a pergunta: talvez futuro não seja simplesmente acelerar para longe daquilo que somos, mas recuperar nossa capacidade de continuar pertencendo à Terra.
Antônio Bispo dos Santos propõe confluência e contracolonização a partir de relações concretas entre povos, territórios e outros viventes. Seu “começo, meio e começo” talvez seja especialmente útil para uma época obcecada por linhas de crescimento infinito. (Piseagrama)
Assim, nossa pergunta muda.
Não apenas:
até onde uma IA pode evoluir?
Mas:
evoluir dentro de qual bioma?
consumindo a água de qual território?
usando minerais retirados de onde?
a serviço de quais corpos?
e sob quais critérios de sucesso?
Talvez precisemos de boas IAs justamente para não sair da vida
A BrainLatam já propôs uma IA de Consciência em Primeira Pessoa: uma inteligência capaz de devolver prioritariamente ao próprio indivíduo informações sobre sua trajetória, ajudando-o a observar escolhas em vez de produzir um destino algorítmico para ele. (brainlatam)
Talvez uma boa IA não precise fingir ser humana.
Pode ajudar o humano a voltar a perceber aquilo que uma tela reduz.
Seu corpo.
Seu rio.
Sua alimentação.
Sua atenção.
Sua respiração.
Seu bioma.
Seu Tekoha.
E pode perguntar conosco:
o que nesta informação é evidência?
o que é interpretação?
o que eu já acreditava antes de chegar aqui?
o que estou sentindo ao ler?
e o que faria eu mudar de ideia?
Isso é metacognição em Agência Compartilhada.
Não queremos substituir uma bolha algorítmica por nossa própria bolha.
Queremos aprender a percebê-las.
Nosso planeta sem DNA é apenas uma exageração.
Por enquanto.
Mas talvez sua função seja nos devolver ao planeta com DNA.
Porque antes de imaginar dez mil gerações de inteligências tentando aperfeiçoar um mundo que não conseguem sentir, precisamos compreender aquilo que a vida levou bilhões de anos para construir.
No próximo blog voltaremos muito antes das telas.
Antes dos humanos.
Antes das florestas.
Talvez até antes do DNA como o conhecemos hoje.
Para perguntar:
quando a matéria deixou apenas de formar padrões e começou a participar do fluxo que chamamos vida?
Referências principais
Gershenson, C. (2023). Emergence in Artificial Life. Artificial Life, 29(2), 153-167. (PubMed)
Ricaurte, P. (2022). Ethics for the Majority World: AI and the Question of Violence at Scale. Media, Culture & Society, 44(4). (Sage Journals)
Mendoza, M. et al. (2024). Detection and impact estimation of social bots in the Chilean Twitter network. Scientific Reports, 14, 6525. (DOI)
Hale, S. A. et al. (2024). Analyzing Misinformation Claims During the 2022 Brazilian General Election on WhatsApp, Twitter, and Kwai. International Journal of Public Opinion Research, 36(3). (OUP Academic)
Alcántara-Lizárraga, J. A.; Jima-González, A. (2024). Digital manipulation and mass mobilization over the long run: evidence from Latin America. Frontiers in Political Science. (Frontiers)
Suing, A. (2025). Disinformation, AI and regulation in Ecuador’s 2025 presidential election. Frontiers in Political Science. (Frontiers)
Silva, T. (2022). Racismo Algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais. (Racismo Algorítmico)
Krenak, A. (2022). Futuro Ancestral.
Bispo dos Santos, A. (2023). A terra dá, a terra quer. (Piseagrama)
Nye, D. E. (2021). Harari's World History: Evolution toward Intelligence without Consciousness? Technology and Culture, 62(4). Utilizado como referência crítica específica a Harari, apesar de anterior ao recorte preferencial pós-2021. (PubMed)
BrainLatam (2026). A consciência fala uma língua? (brainlatam)
BrainLatam (2026). Estamos preparando nossos filhos para qual futuro? (brainlatam)
BrainLatam (2026). Ótimos locais - quando uma crença funciona bem demais. (brainlatam)
Esse formato já estabelece a linguagem que eu manteria nos próximos 12: não explicar o mundo para o leitor de fora para dentro, mas convidar o Corpo-Território do leitor a participar da investigação, sempre distinguindo evidência, hipótese, metáfora e experiência em primeira pessoa.