Jackson Cionek
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Um modelo do cérebro pode substituir a experiência de estar vivo?

Um modelo do cérebro pode substituir a experiência de estar vivo?

Quando as palavras começam a prender

Série Especial BrainLatam — SBNeC 2026

Em 1946, o argentino Jorge Luis Borges imaginou um império cujos cartógrafos alcançaram tamanha precisão que construíram um mapa do mesmo tamanho do território.

O mapa coincidia com o Império ponto por ponto.

E justamente por isso se tornou inútil.

Talvez exista aqui uma pergunta importante para a Neurociência:

Quanto um modelo precisa deixar de fora para continuar sendo um modelo?

Uma palavra reduz.

Um EEG reduz.

Uma imagem cerebral reduz.

Uma equação reduz.

Uma inteligência artificial reduz.

Isso não é necessariamente uma falha.

É o que permite representar.

O problema começa quando esquecemos que:

representação e experiência não são a mesma coisa.

A palavra “dor” não dói

Podemos descrever uma dor.

Dar uma nota de 0 a 10.

Medir atividade cerebral, frequência cardíaca e respostas autonômicas.

Podemos até construir modelos capazes de reconhecer padrões relacionados a estados dolorosos.

Mas onde, exatamente, está o sentir da dor?

A palavra não dói.

O número não dói.

A imagem cerebral não dói.

E uma IA capaz de escrever uma descrição perfeita de sofrimento não demonstra, apenas por isso, que sofreu.

A questão não é diminuir o valor dos modelos.

É perguntar:

o que conseguimos explicar sobre uma experiência sem confundir a explicação com aquilo que foi vivido?

Estamos construindo mapas cada vez melhores da consciência

Pesquisadores latino-americanos como Enzo Tagliazucchi, ligado à Argentina, e Rodrigo Cofré, no Chile, vêm utilizando matemática e modelagem computacional para investigar propriedades associadas a diferentes níveis de consciência.

Estudos recentes analisam irreversibilidade temporal, entropia, dinâmica cerebral e modelos personalizados em transtornos da consciência.

Esses trabalhos mostram o enorme poder da Neurociência Computacional.

Podemos comparar estados.

Encontrar regularidades.

Produzir biomarcadores.

Talvez até prever características de determinadas experiências.

Mas continuamos fazendo uma operação:

modelando.

Então podemos voltar a Borges:

Se conseguíssemos representar cada neurônio, cada sinapse, cada memória, cada estado corporal e cada relação com o ambiente, teríamos reproduzido uma experiência — ou apenas construído um mapa extraordinariamente detalhado dela?

Hoje não temos uma resposta científica definitiva.

E talvez seja importante não fingir que temos.

O cérebro não chega sozinho

O pesquisador argentino Ezequiel Di Paolo, a partir das abordagens enativas, ajuda a ampliar a questão.

Cognição e experiência não precisam ser compreendidas apenas como processamento interno de representações.

Corpo, ação, ambiente e relações também participam da produção de significado.

Isso dialoga diretamente com Corpo-Território.

Se retiramos:

corpo;

história;

relações;

território;

e conservamos apenas um modelo cerebral,

quanto da experiência que queríamos explicar ainda permaneceu?

O recorte pode ser necessário para estudar.

Mas não significa que aquilo que recortamos exista isolado enquanto vivemos.

A arqueologia conhece esse problema há muito tempo

Arqueólogos trabalham com fragmentos.

Cerâmicas.

Carvão.

Sementes.

Solos modificados.

Marcas na paisagem.

A partir deles constroem modelos sobre mundos que já não podem observar diretamente.

O arqueólogo brasileiro Eduardo Góes Neves, em Sob os tempos do equinócio (2022), reuniu décadas de evidências que ajudam a revisar antigas representações de uma Amazônia pouco ocupada e pouco transformada por sociedades indígenas.

Miguel Aparício, Claide Moraes, Anne Rapp Py-Daniel e Neves também vêm mostrando como arqueologia, etnologia e ecologia revelam histórias muito mais complexas de interação entre sociedades e floresta.

A Amazônia não mudou quando esses trabalhos foram publicados.

O nosso mapa dela mudou.

Essa é uma lição importante.

Um modelo pode produzir conhecimento verdadeiro sem se tornar aquilo que representa.

A arqueologia consegue conhecer muito sobre uma sociedade passada.

Mas não volta a sentir como era acordar naquela aldeia.

A Neurociência talvez precise conservar a mesma humildade.

E se o mapa começar a modificar o território?

Aqui aparece uma segunda questão.

Jean Baudrillard retomou a imagem de Borges para pensar situações nas quais representações deixam de apenas descrever o real e começam a participar daquilo que passa a ser vivido como realidade.

Não precisamos aceitar toda sua teoria para reconhecer um fenômeno simples.

Um diagnóstico é uma representação.

Mas pode modificar como alguém passa a se perceber.

Um score financeiro é um modelo.

Mas pode definir acesso a crédito.

Um algoritmo constrói uma representação probabilística de uma pessoa.

Depois utiliza essa representação para decidir o que ela verá.

Assim:

Corpo-Território
→ dados
→ modelo
→ seleção
→ nova experiência
→ novos dados.

O mapa voltou ao território.

A antropóloga brasileira Letícia Cesarino ajuda a perceber essas relações recursivas entre pessoas, algoritmos e ambientes digitais.

Isso permite uma formulação importante:

Uma IA não precisa sentir aquilo que representa para que sua representação participe daquilo que nós sentiremos.

Quando as palavras começam a prender

Talvez agora possamos voltar ao nome desta série.

Primeiro existe uma experiência.

Depois damos um nome.

Depois criamos uma categoria.

Depois um modelo.

E, quando o modelo funciona muito bem, podemos começar a enxergar a experiência apenas através dele.

Danilo Silva Guimarães nos ajuda a lembrar que categorias podem ser úteis sem coincidir completamente com os mundos de experiência que procuram representar.

Ailton Krenak também oferece uma janela interessante.

Compare:

recurso hídrico

com:

rio que participa da continuidade da vida.

Podem apontar para a mesma água.

Mas produzem representações diferentes da relação que temos com ela.

Nenhuma palavra contém o rio inteiro.

Talvez nenhuma precise conter.

Neurociência Decolonial não é abandonar modelos

Precisamos de EEG.

fNIRS.

ressonância.

equações.

IA.

categorias.

Modelos.

Neurociência Decolonial não propõe destruí-los.

Propõe continuar perguntando:

O que este modelo consegue enxergar?

O que precisou deixar de fora?

E o que acontece quando devolvemos essa representação ao Corpo-Território?

Porque existe uma diferença fundamental entre:

usar um modelo para compreender a vida

e

exigir que a vida caiba no modelo.

Pergunta BrainLatam

Se construirmos um modelo capaz de prever tudo o que diremos, faremos e mostraremos em nosso cérebro enquanto sentimos alguma coisa, teremos reproduzido a experiência de estar vivo — ou apenas chegado ao mapa perfeito de Borges?


Referências

Borges, J. L. (1946). Del rigor en la ciencia.

Neves, E. G. (2022). Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história da Amazônia Central.

Krenak, A. (2022). Futuro ancestral.

Cesarino, L. (2022). O mundo do avesso: Verdade e política na era digital.

Guimarães, D. S. (2022). A Tarefa Histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da Regulamentação da Psicologia no Brasil.

Gilson, M.; Tagliazucchi, E.; Cofré, R. (2023). Entropy production of multivariate Ornstein-Uhlenbeck processes correlates with consciousness levels in the human brain. Physical Review E, 107, 024121.

Di Paolo, E. A.; Lawler, D.; Vaccari, A. P. (2023). Toward an Enactive Conception of Productive Practices: Beyond Material Agency. Philosophy & Technology, 36, 31.

Luppi, A. I.; Cofré, R.; Tagliazucchi, E.; Raimondo, F.; Orio, P.; Sanz Perl, Y.; Sitt, J. D. et al. (2023). Computational modelling in disorders of consciousness. NeuroImage, 275, 120162.

Aparício, M.; Moraes, C. de P.; Py-Daniel, A. R.; Neves, E. G. (2024). Amazônia em simbiose: marcas de humanidades que enfrentam o Antropoceno.

Referência filosófica complementar

Baudrillard, J. (1981). Simulacres et Simulation.

Essa versão fica bem mais próxima do ritmo dos Blogs 5 e 6: menos repetições e uma linha única de raciocínio — Borges → cérebro → arqueologia → algoritmo → palavra → Neurociência Decolonial.





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States