Jackson Cionek
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Saúde começa no hospital ou muito antes dele? Eleições 2026 Presidente

Saúde começa no hospital ou muito antes dele? Eleições 2026 Presidente

Quando alguém pesquisa o plano de governo de um candidato à Presidência nas Eleições 2026, a Saúde costuma significar perguntas muito concretas.

Quanto tempo vou esperar por uma consulta?

Vou conseguir fazer meu exame?

Haverá especialista?

O medicamento estará disponível?

O SUS conseguirá realizar minha cirurgia?

A saúde mental será atendida?

A tecnologia poderá diminuir as filas?

São perguntas fundamentais.

Mas Corpo-Território acrescenta outra:

O que aconteceu antes de esse corpo precisar chegar ao hospital?

Água, alimentação, moradia, violência, trabalho, renda, clima, saneamento, mobilidade, território e relações sociais também participam das condições que produzem saúde e adoecimento.

Este artigo não classifica candidatos, não recomenda voto e não determina qual plano é melhor. As sínteses abaixo registram propostas presentes em planos e fontes públicas. A discussão sobre Corpo-Território, Neurociência Decolonial e SUS VIP é uma elaboração da BrainLatam e não pertence aos candidatos, salvo quando indicado.

O que os candidatos à Presidência propõem para a Saúde nas Eleições 2026

Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência pelo PT

Lula propõe fortalecer o SUS, ampliar a vacinação, a digitalização e políticas já existentes de acesso a médicos, medicamentos e especialistas. Um documento setorial de saúde que subsidia o programa também prevê fortalecimento da Atenção Primária, Estratégia Saúde da Família, telessaúde, equipes ribeirinhas, ampliação de água potável e saneamento e maior conexão dos territórios indígenas e comunidades tradicionais à rede especializada. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: essa aproximação entre saúde e território pode avançar até que água, saneamento, alimentação, clima e condições sociais sejam tratados como parte da própria infraestrutura preventiva do SUS.

Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL

Flávio Bolsonaro propõe telessaúde, atendimento domiciliar, produção nacional de vacinas, correção da tabela SUS e maior interoperabilidade entre o sistema público e a rede privada. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: integrar redes pode aumentar a capacidade assistencial. Corpo-Território acrescentaria critérios para verificar se essa capacidade realmente chega aos lugares de maior dificuldade de acesso.

Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Novo

Romeu Zema propõe maior integração do SUS com a rede privada, dentro de uma concepção mais ampla de redução da participação direta do Estado e aproveitamento da capacidade privada. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: disponibilidade de um procedimento não significa necessariamente acesso. Distância, transporte, renda e necessidade de abandonar temporariamente o trabalho também determinam se uma pessoa consegue chegar ao atendimento.

Ronaldo Caiado, candidato a Presidência pelo PSD

Ronaldo Caiado propõe reduzir filas do SUS, priorizar pacientes por gravidade, ampliar prevenção, digitalizar o prontuário, utilizar inteligência artificial, reforçar pré-natal, saúde psicológica e vacinação e criar indicadores nacionais de eficiência. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: além de classificar o risco de quem já entrou na fila, seria possível identificar territórios que estão acumulando risco antes que seus moradores precisem entrar nela.

Renan Santos, candidato à Presidência pelo Missão

Renan Santos propõe reorganizar as filas do SUS de acordo com o risco clínico, dentro de uma reforma mais ampla da administração pública. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: Corpo-Território distinguiria dois riscos. O risco clínico presente e a vulnerabilidade territorial que aumenta a probabilidade de adoecimento futuro.

Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante

Augusto Cury coloca medicina preventiva, saúde emocional e educação socioemocional entre os elementos centrais de seu programa. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: saúde emocional não depende apenas da capacidade individual de administrar sentimentos. Violência, desemprego, insegurança alimentar, jornadas exaustivas, isolamento e território também participam da experiência emocional.

Clariana Barão, candidata à Presidência pela DC

Clariana Barão propõe integração da saúde com inteligência artificial e telemedicina e uma gestão pública orientada por metas e evidências. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: a mesma evidência não precisa produzir a mesma intervenção em uma aldeia indígena, comunidade ribeirinha, periferia urbana ou grande centro. Evidência também precisa encontrar território.

Edmilson Costa, candidato à Presidência pelo PCB

Edmilson Costa propõe a estatização da saúde dentro de uma transformação socialista mais ampla da economia e dos serviços públicos. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: independentemente de o prestador ser público ou privado, o Corpo-Território perguntaria se o sistema consegue conhecer as condições que produzem adoecimento antes da chegada do paciente.

Hertz Dias, candidato à Presidência pelo PSTU

Hertz Dias insere a saúde em um programa socialista de ampliação dos serviços públicos e transformação estrutural do Estado. Entre as propostas específicas citadas em seu programa está a legalização do aborto pelo SUS. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: decisões de saúde não acontecem isoladas de renda, cultura, religião, relações familiares, violência, acesso e território. É justamente nessa interseção entre percepção, política, ciência e cultura que situamos a Neurociência Decolonial.

Rui Costa Pimenta, candidato à Presidência pelo PCO

Rui Costa Pimenta propõe estatização integral da saúde, além de outras transformações profundas na estrutura econômica e institucional. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: um sistema integralmente estatal ainda precisaria responder por que determinados territórios produzem muito mais adoecimento do que outros.

Samara Martins, candidata à Presidência pela Unidade Popular

Samara Martins é cirurgiã-dentista e trabalha no SUS na Estratégia Saúde da Família. A UP divulgou uma versão ampliada de seu programa após a primeira versão registrada no TSE, passando a incluir um eixo específico de saúde dentro de sua defesa de ampliação dos direitos e serviços públicos. (Folha de S.Paulo)

Nossa ampliação: a própria Estratégia Saúde da Família oferece uma ponte importante para o Corpo-Território porque aproxima o Estado da vida cotidiana, da família e da comunidade.

Wilson Grassi, candidato à Presidência pelo Democrata

Wilson Grassi propõe a chamada Saúde Única, integrando saúde humana e animal ao SUS. (Folha de S.Paulo)

A proposta dialoga com o conceito internacional de One Health, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal, vegetal e ecossistemas. (World Health Organization)

Nossa ampliação: Corpo-Território acrescentaria cultura, relações sociais, história, condições econômicas e percepção a essa integração.

Pablo Marçal, candidato à Presidência pelo PRTB

Até a consulta publicada em 18 de agosto, Pablo Marçal possuía pedido de registro de candidatura, mas o PRTB ainda não havia apresentado plano de governo na plataforma oficial do TSE. Por isso, não atribuímos a ele uma proposta específica de saúde. (Folha de S.Paulo)

Saúde não começa quando aparece a doença

O SUS já nasce juridicamente de uma compreensão ampliada.

A Constituição estabelece que saúde é direito de todos e dever do Estado e vincula esse direito a políticas sociais e econômicas capazes de reduzir riscos. O Ministério da Saúde também relaciona equidade a habitação, trabalho, renda, educação e outras condições de vida. (Serviços e Informações do Brasil)

Portanto, Corpo-Território não precisa negar o SUS para ampliá-lo.

Pode aprofundar algo que já existe em seus princípios.

Um corpo bebe água produzida fora dele.

Respira ar produzido fora dele.

Come alimentos que dependem de solo, clima, logística e renda.

Dormir depende do território.

Mover-se depende do território.

Sofrer violência depende de relações.

Adoecer no trabalho depende de como o trabalho foi organizado.

O corpo possui limites biológicos, mas as condições que mantêm seu funcionamento ultrapassam a pele.

A Saúde Coletiva latino-americana já pensa nessa direção

A América Latina desenvolveu uma tradição própria de pensamento sobre saúde.

Em 2024, Gil Sevalho, da Fiocruz, retomou contribuições do brasileiro Naomar de Almeida Filho e do epidemiologista equatoriano Jaime Breilh para discutir determinação social da saúde, complexidade e colonialidade.

Essa tradição questiona a redução da doença a uma soma de fatores individuais e propõe observar processos econômicos, sociais, ambientais e territoriais que produzem diferentes possibilidades de adoecimento. (Cadernos de Saúde Pública)

A perspectiva indígena amplia ainda mais essa questão.

Em 2023, Adriana Rosa Cruz Santos discutiu as contribuições reunidas em Vozes Indígenas na Saúde, obra produzida com lideranças como Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Célia Xakriabá, Luiz Eloy Terena e representantes de diversos povos.

O texto mostra que, para diferentes cosmologias originárias, saúde pode envolver corpo, território, relações comunitárias, espiritualidade, rios, terra e outros seres, desafiando a ideia de que o modelo biomédico individual seja a única maneira possível de compreender cuidado. (Cadernos de Saúde Pública)

Isso não significa substituir medicina científica por tradição.

Significa construir um Estado capaz de utilizar tecnologia e evidência sem apagar o conhecimento de quem vive no território.

E onde entram EEG e NIRS?

A Neurociência Decolonial não abandona o cérebro.

Ela questiona a ideia de que o cérebro, sozinho, explique toda a experiência de saúde.

Pesquisadores brasileiros do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da UFRGS publicaram em 2022 um estudo utilizando fNIRS em mulheres com fibromialgia. O trabalho observou padrões de conectividade cortical associados à resposta à dor. (PubMed)

Também em 2022, pesquisadores com participação da UFRJ publicaram um protocolo combinando fNIRS e EEG para estudar mecanismos cerebrais relacionados à modulação da dor em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. (PubMed)

Essas tecnologias permitem observar partes importantes do processo.

Mas um sinal cortical não informa sozinho se a pessoa possui comida, moradia, segurança, dinheiro para transporte ou apoio familiar.

O cérebro mostra parte da experiência. O Corpo-Território tenta não perder aquilo que aconteceu ao redor dele.

SUS VIP: uma possível expansão do SUS

A partir desse cenário, propomos estudar uma nova possibilidade.

SUS VIP

O nome é provocativo, mas a ideia não seria criar um SUS melhor apenas para quem paga.

O SUS universal continuaria sendo direito de todos, gratuito no acesso e financiado pelo Estado. Hoje o Ministério da Saúde define o SUS exatamente nesses termos. (Serviços e Informações do Brasil)

O SUS VIP seria uma modalidade complementar e voluntária.

A pessoa poderia escolher contribuir diretamente ao sistema público com um valor equivalente, por exemplo, a 60 por cento do preço de um plano de saúde privado comparável.

Em contrapartida, entraria em uma rede complementar administrada ou contratada pelo SUS.

Quando houvesse necessidade clínica de consulta, exame, procedimento, cirurgia, medicamento ou intervenção de alta complexidade, o fundo SUS VIP pagaria a diferença necessária para garantir o atendimento.

Esse atendimento poderia ocorrer:

na rede pública,

na rede filantrópica,

na rede privada credenciada,

em centros especializados nacionais,

e, em situações excepcionais e clinicamente justificadas, fora do país, caso determinado tratamento necessário não tivesse alternativa equivalente disponível no Brasil.

A proposta não existe hoje nesses termos e não pertence a nenhum dos candidatos analisados.

É uma hipótese BrainLatam que precisaria de modelagem atuarial, constitucional, regulatória e econômica antes de qualquer implementação.

O SUS já conversa com a rede privada

A ideia de utilizar capacidade privada em benefício do SUS não começa do zero.

Atualmente, quando uma pessoa que possui plano privado é atendida pelo SUS em situações cobertas por seu contrato, existe mecanismo de ressarcimento das operadoras ao sistema público. (Serviços e Informações do Brasil)

Além disso, o programa Agora Tem Especialistas permite que operadoras convertam determinadas dívidas de ressarcimento em consultas, exames, cirurgias e outros serviços prestados diretamente a pacientes do SUS. (Serviços e Informações do Brasil)

O SUS VIP faria uma pergunta diferente:

E se uma parte das pessoas que hoje financia exclusivamente planos privados pudesse escolher financiar diretamente uma camada complementar do próprio sistema público?

O que seria necessário proteger

Para ser compatível com a lógica universal do SUS, o SUS VIP precisaria ser desenhado de modo a não retirar recursos nem criar uma fila privilegiada dentro da estrutura universal existente.

A contribuição adicional precisaria gerar capacidade adicional.

Isso poderia significar:

contratar capacidade ociosa,

financiar novos equipamentos,

ampliar hospitais universitários,

contratar procedimentos,

financiar centros de alta complexidade,

negociar medicamentos,

financiar atendimento internacional excepcional,

e utilizar tecnologia para organizar a rede nacional de cuidado.

Também seriam necessários controles claros sobre indicação médica, auditoria, custos, fraude, proteção de dados e tratamentos experimentais.

O objetivo seria fazer o dinheiro adicional aumentar a capacidade geral do sistema, e não simplesmente disputar a capacidade já existente.

Do SUS VIP ao Corpo-Território

Mesmo um SUS VIP extremamente eficiente continuaria enfrentando uma pergunta.

Depois do tratamento, a pessoa volta para onde?

Volta para a mesma água?

Para o mesmo alimento?

Para o mesmo trabalho?

Para a mesma violência?

Para a mesma poluição?

Para a mesma temperatura?

Para a mesma ausência de saneamento?

Por isso, ampliar acesso a procedimentos é apenas uma parte da proposta.

A outra é fazer o Estado reconhecer que prevenir adoecimento também significa proteger territórios.

Do prontuário da pessoa ao estado de saúde do território

Talvez o futuro do SUS possa combinar dois níveis.

O prontuário individual continua registrando a história clínica.

Paralelamente, o Estado poderia acompanhar indicadores públicos e anonimizados da saúde territorial:

água,

saneamento,

temperatura,

poluição,

violência,

alimentação,

doenças,

saúde mental,

tempo de deslocamento,

cobertura vegetal,

vetores,

vulnerabilidade climática.

A pergunta seria:

Este território está se tornando mais ou menos capaz de sustentar saúde?

Uma pergunta para todos os candidatos a Presidência

Lula propõe fortalecer e digitalizar o SUS.

Flávio Bolsonaro propõe telessaúde, atendimento domiciliar e maior integração com a capacidade privada.

Zema propõe ampliar a integração entre SUS e rede privada.

Caiado prioriza filas, prevenção, tecnologia e gestão.

Renan Santos propõe classificação por risco.

Augusto Cury enfatiza prevenção e saúde emocional.

Clariana Barão apresenta IA e telemedicina.

Edmilson Costa e Rui Costa Pimenta propõem estatização da saúde dentro de transformações socialistas mais amplas.

Hertz Dias propõe mudanças estruturais dentro de um programa socialista.

Samara Martins parte da defesa dos serviços públicos e de sua experiência na Estratégia Saúde da Família.

Wilson Grassi propõe Saúde Única.

Pablo Marçal ainda deverá ser incorporado quando houver plano verificável.

São propostas diferentes.

Não estabelecemos qual é superior.

A Neurociência Decolonial e Corpo-Território acrescentam a mesma pergunta a todas:

Depois de quatro anos, teremos apenas mais capacidade para tratar doenças ou também territórios capazes de produzir menos adoecimento?

Talvez o hospital continue sendo indispensável.

Mas talvez a saúde do século XXI precise aprender a chegar muito antes dele.

Porque quando o corpo finalmente entra no hospital, parte de sua história de saúde já aconteceu.

Na água. Na comida. Na casa. No trabalho. Na comunidade. No clima. Na cultura. No território.

E é justamente essa história que o Corpo-Território propõe que o Estado também aprenda a enxergar.

Referências

Ministério da Saúde. Sistema Único de Saúde e princípios de universalidade, integralidade e acesso gratuito. (Serviços e Informações do Brasil)

Ministério da Saúde. Equidade no SUS e condições sociais de vida. (Serviços e Informações do Brasil)

Agência Nacional de Saúde Suplementar. Ressarcimento ao SUS. (Serviços e Informações do Brasil)

Agência Nacional de Saúde Suplementar. Programa Agora Tem Especialistas e utilização da capacidade da rede suplementar. (Serviços e Informações do Brasil)

Sevalho, Gil. Determinação social da saúde, complexidade, colonialidade e longa duração. Cadernos de Saúde Pública, 2024. (Cadernos de Saúde Pública)

Santos, Adriana Rosa Cruz. Vozes indígenas na saúde: retomando territórios de fala na silenciosa noite colonial. Cadernos de Saúde Pública, 2023. (Cadernos de Saúde Pública)

Franco, Álvaro de Oliveira et al. Functional connectivity response to acute pain assessed by fNIRS is associated with BDNF genotype in fibromyalgia. Scientific Reports, 2022. (PubMed)

Moura, Brenda de Souza et al. Study Protocol of tDCS Based Pain Modulation in Head and Neck Cancer Patients Under Chemoradiation Therapy Condition: An fNIRS-EEG Study. Frontiers in Molecular Neuroscience, 2022. (PubMed)










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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States