Quando o ambiente aprende o estado do grupo
Quando o ambiente aprende o estado do grupo
VR neuroadaptativa, medo em tempo real e o passo seguinte: tarefas que respondem à fisiologia coletiva
Tem uma virada importante que a gente começa a sentir quando entra de verdade na neurociência dos coletivos: o ambiente não precisa ficar parado, como simples cenário onde os corpos agem. Ele também pode começar a perceber, responder, modular e devolver alguma coisa para a própria dinâmica da relação. Quando isso acontece, o experimento deixa de ser só uma tarefa aplicada sobre indivíduos e começa a virar um campo vivo, em que cérebro, corpo e contexto se reorganizam juntos.
É exatamente por isso que o trabalho de Wriessnegger e colegas entra com tanta força neste bloco. No artigo sobre o VRSpi, a proposta é clara: construir um sistema de realidade virtual neuroadaptativa para exposição à fobia de aranhas, usando EEG e frequência cardíaca em tempo real para ajustar a intensidade do estímulo de medo. O artigo apresenta isso como uma prova de conceito para um sistema individualizado, em que o ambiente virtual deixa de ser fixo e passa a responder ao estado neurofisiológico do participante. (Frontiers)
Esse ponto é grande demais para ficar restrito ao campo terapêutico. Quando a gente lê esse trabalho com a lente BrainLatam2026, ele abre uma pergunta muito mais ampla: e se o ambiente não se adaptasse apenas ao estado de um indivíduo, mas ao estado de uma díade, de um pequeno grupo, de um “a gente” em formação? Aí a realidade virtual, ou qualquer outro ambiente responsivo, deixa de ser apenas tecnologia de exposição e começa a virar tecnologia de investigação do próprio vínculo. Isso é uma extensão conceitual nossa a partir do artigo, não uma conclusão direta dos autores. (Frontiers)
É aqui que a conversa com I-mode e We-mode fica especialmente fértil. Na formulação que a gente vem construindo, a estrutura temporal da tarefa permanece a mesma entre condições; o que muda é a organização da ação. No We-mode, a meta e o êxito são compartilhados; no I-mode, a interdependência continua, mas a lógica da recompensa permanece individualizada, produzindo coordenação sem um “nós” genuinamente assumido. E a própria discussão do paradigma já reconhece algo decisivo: mesmo quando a meta comum é explicitada, podem persistir estratégias egocêntricas residuais, que deveriam aparecer em autorrelatos e em medidas de acoplamento interbral.
Quando esse raciocínio encontra o VRSpi, a virada editorial fica muito bonita. Em vez de perguntar apenas se duas pessoas coordenaram melhor ou pior, a gente pode começar a imaginar ambientes adaptativos que respondam ao estado fisiológico do vínculo. Não apenas ao medo de um participante, mas ao padrão emergente da díade: respiração mais rígida, frequência cardíaca mais instável, acoplamento mais cooperativo, tensão muscular crescente, ou sinais de uma coordenação que parece boa por fora, mas continua organizada por vigilância competitiva. O ambiente, então, deixaria de ser fundo e passaria a participar do próprio diagnóstico do tipo de agência que está surgindo. Essa também é uma proposta nossa inspirada pelo princípio neuroadaptativo do VRSpi. (Frontiers)
Aqui entra muito bem o insight que a gente quis acrescentar, mas com um cuidado científico importante. Em vez de dizer que “os DNAs se comunicam diretamente”, fica mais rigoroso dizer que organismos portadores de genomas distintos entram em campos de regulação mútua por pistas sensoriais, autonômicas, hormonais, comportamentais e ambientais, enquanto genes e ambiente, inclusive por vias epigenéticas, moldam a sensibilidade e a plasticidade dessas respostas. A literatura recente sobre comportamento deixa isso muito claro ao tratar genes e ambiente como profundamente entrelaçados, e não como camadas separadas. (ScienceDirect)
Nessa chave, o medo pode ser tratado como um modulador relacional entre organismos, dentro da mesma espécie e também entre espécies. A chamada “ecologia do medo” mostra que o risco percebido altera aproximação, distância, vigilância, deslocamento e uso do ambiente. E trabalhos recentes sobre aprendizagem social do medo propõem que sinais sociais observados em outros podem funcionar como gatilhos que reorganizam respostas adaptativas no observador. Em linguagem BrainLatam2026: o medo não é apenas emoção individual; ele também regula o encontro entre corpos. (BES Journals)
Isso deixa o texto ainda mais forte. Porque, se o ambiente pode aprender o estado do corpo, a pergunta já não é só “qual estímulo ele deve aumentar ou diminuir?”. A pergunta passa a ser: o que exatamente o ambiente está detectando e modulando? Apenas desempenho individual? Ou também estados corporais de ameaça, confiança, retração e abertura que reorganizam a possibilidade de um nós? Quando a gente pensa assim, o ambiente deixa de ser apenas tecnologia e vira parte da ecologia relacional do experimento. (Frontiers)
É por isso que esse blog quer propor uma imagem simples: até aqui, muitos experimentos trataram o ambiente como palco. Mas talvez o próximo passo seja fazer do ambiente um terceiro elemento ativo da relação. Nem só sujeito, nem só parceiro, nem só máquina. Um ambiente capaz de aprender algo sobre o estado coletivo e modular o desafio em função disso. Nesse cenário, o “nós” deixa de ser apenas um objetivo abstrato e começa a ser tensionado, testado e talvez até cultivado em tempo real.
O trabalho de Wriessnegger e colegas ajuda a legitimar esse movimento porque mostra, na prática, que ambientes interativos podem ser ajustados em função de sinais neurofisiológicos online. O foco do artigo é a fobia de aranhas, e o sistema foi concebido como passo em direção a uma terapia mais personalizada. Mas, para a gente, o mais provocador é o princípio: o ambiente pode aprender o estado do corpo e responder a ele. Se isso vale para medo individual, a gente ganha base para imaginar estudos futuros em que também valha para formas emergentes de regulação compartilhada. (Frontiers)
Aqui o texto precisa dar mais um passo. Porque, na nossa lente, a questão nunca é só tecnológica. O que interessa de verdade é o que isso muda na forma de pensar a mente e o coletivo. Se a Mente Damasiana nos ajuda a lembrar que consciência é corpo vivo em situação, então um ambiente responsivo não está apenas “aplicando estímulos”: ele está entrando na própria ecologia da consciência. E, se a gente leva a sério o Monismo de Triplo Aspecto, fica ainda mais claro que o fisiológico, o subjetivo e o informacional-social não podem ser separados de maneira rígida. Um ambiente que responde em tempo real ao corpo já está participando da arquitetura da experiência. Essa é uma leitura teórica nossa, apoiada pelo princípio de monitoramento e adaptação em tempo real do VRSpi. (Frontiers)
É por isso que o atravessamento com Jiwasa aqui fica tão forte. Jiwasa, neste blog, não aparece apenas como nome para um nós já formado. Ele aparece como pergunta experimental: em que condições um ambiente ajuda a gente a sair de uma coordenação instrumental e entrar numa regulação mais compartilhada? Em outras palavras, quando o contexto deixa de empurrar dois indivíduos a disputarem um limiar e começa a sustentar um campo onde o êxito realmente depende de um compromisso mútuo sentido no corpo?
A partir daí, o experimento I-mode / We-mode ganha uma camada nova. A estrutura temporal pode continuar idêntica entre as condições, como já está muito bem desenhada. Mas agora a gente pode imaginar thresholds dinâmicos, modulados não só pela performance objetiva, como a diferença temporal entre respostas, mas também por índices fisiológicos do estado da díade. Um ambiente adaptativo poderia, por exemplo, aumentar ou diminuir a exigência da tarefa conforme o grupo entra em rigidez competitiva, estabilidade cooperativa ou oscilação entre ambas. O que hoje aparece como “condição experimental” poderia virar também campo regulatório do nós. Isso decorre da combinação entre o paradigma I-mode/We-mode descrito no material compartilhado e o princípio neuroadaptativo do VRSpi. (Frontiers)
Essa hipótese não é conclusão do artigo do VRSpi; é o passo que a gente está propondo dar a partir dele. E esse passo é importante porque ajuda a romper uma divisão antiga entre tarefa e contexto. Durante muito tempo, o experimento foi pensado como algo que mede o sujeito dentro de um cenário controlado. Mas, se o ambiente começa a aprender o estado do grupo, então ele passa a integrar o próprio fenômeno. O coletivo já não está apenas dentro do ambiente; ele está sendo parcialmente moldado com ele.
Isso também ajuda a evitar um erro comum: achar que adaptação do ambiente é sempre boa em si. Não é. Um ambiente adaptativo pode tanto cultivar formas mais compartilhadas de regulação quanto reforçar captura, dependência e automatismos. É por isso que a neurociência decolonial dos coletivos precisa ser cuidadosa: não basta celebrar que a tecnologia “responde ao usuário”. A pergunta mais séria é: responde para quê, em direção a que forma de estar junto? Esse é o ponto em que a crítica política encontra a metodologia experimental.
Aqui, APUS também entra com naturalidade. Porque um ambiente que aprende o estado do grupo não está lidando apenas com cérebros; está lidando com corpo-território, com orientação no espaço, com sensação de proximidade, com distribuição de presença. O ambiente deixa de ser mero contêiner e vira parte da propriocepção estendida da relação. A gente não está apenas agindo dentro de um espaço; a gente está começando a construir um espaço que responde ao modo como a gente age junto.
No fundo, esse blog quer fazer a gente sentir uma virada simples e profunda: o ambiente deixa de ser cenário e vira parte do experimento do “nós”. O trabalho de Wriessnegger e colegas mostra que isso já é tecnicamente pensável no plano individual. O desafio que se abre para a gente agora é outro: imaginar como essa lógica pode ser expandida para díades e grupos, sem perder rigor, sem romantizar o coletivo e sem confundir adaptação com agência compartilhada. (Frontiers)
Talvez seja exatamente aí que a neurociência dos coletivos comece a mudar de patamar: quando a gente deixa de perguntar apenas como o corpo responde ao ambiente e passa a perguntar como o ambiente pode começar a responder ao corpo coletivo — e que tipo de “a gente” emerge dessa troca.
Referências
Wriessnegger, S. C., Kiatthaveephong, S., Leitner, M., & Kostoglou, K. (2026). VRSPi: towards a neuroadaptive VR exposure therapy system for spider phobia. Frontiers in Human Neuroscience, 20. https://doi.org/10.3389/fnhum.2026.1717588
Jensen, P. (2025). From nature to nurture – How genes and environment interact to shape behaviour. Applied Animal Behaviour Science, 285, 106582. https://doi.org/10.1016/j.applanim.2025.106582
Ramirez, J. I., Hofmeester, T. R., de Boer, W. F., Gehr, B., Kimuyu, D., Jansen, P. A., Prins, H. H. T., Schmitz, O. J., Smit, C., Snijders, L., Takemoto, H., van Beest, F. M., van Ginkel, H. A. L., Wam, H. K., de Bie, K., Palmer, M. S., & Cromsigt, J. P. G. M. (2024). Applied ecology of fear: A meta-analysis on the potential of fear-based tools for wildlife management. Ecological Solutions and Evidence, 5(2). https://doi.org/10.1002/2688-8319.12322
Lanzilotto, M., Dal Monte, O., Diano, M., Panormita, M., Battaglia, S., Celeghin, A., Bonini, L., & Tamietto, M. (2025). Learning to fear novel stimuli by observing others in the social affordance framework. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 169, 106006. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2025.106006