Jackson Cionek
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O SISTEMA NERVOSO DA DEMOCRACIA FOI PRIVATIZADO?

O SISTEMA NERVOSO DA DEMOCRACIA FOI PRIVATIZADO?

Quando os sinais do território deixam de chegar à criação das regras

Um rio muda de cor.

Quem mora perto percebe primeiro.

A água ganha outro cheiro. Os peixes aparecem na superfície. Alguém grava um vídeo. Outra pessoa envia uma mensagem. A comunidade tenta avisar que alguma coisa está acontecendo.

Mas o sinal não encontra passagem.

Não alcança os grandes meios. Não atravessa o algoritmo. Não chega com força suficiente aos gabinetes onde as decisões são tomadas.

Na mesma manhã, uma pequena oscilação do mercado percorre o país em segundos.

Especialistas comentam. Alertas são emitidos. Autoridades respondem. O acontecimento recebe nome, números e urgência.

Os dois sinais circulam pela mesma sociedade.

A diferença está na velocidade com que são reconhecidos.

Talvez a comunicação seja mais do que aquilo que utilizamos para contar o mundo.

Talvez ela funcione como um sistema nervoso público.

É por meio dela que uma sociedade percebe ameaças, reconhece necessidades, compartilha memórias e decide para onde dirigir sua atenção.

Quando esse sistema funciona, o que acontece em uma parte do território pode ser sentido pelo conjunto.

Quando ele é capturado, alguns sinais atravessam imediatamente. Outros permanecem presos no local onde nasceram.

É dessa percepção que surge a pergunta:

O que acontece com a democracia quando seu sistema nervoso passa a responder melhor ao capital do que aos Corpos-Territórios e aos Biomas?

Quem decide o que merece ser visto?

Uma plataforma não precisa ordenar em quem devemos acreditar.

Ela pode simplesmente decidir o que aparecerá primeiro.

Pode repetir uma mensagem até que ela pareça familiar.

Pode ocultar outra antes que tenhamos a oportunidade de conhecê-la.

Pode transformar medo, raiva, surpresa e indignação em permanência na tela.

Nos ambientes digitais, visibilidade não é apenas reconhecimento.

É valor econômico.

Nosso tempo produz dados. Os dados ajudam a prever comportamentos. As previsões orientam anúncios, campanhas e decisões comerciais.

Aquilo que captura nossa atenção também pode ser monetizado.

A comunicação deixa de ser apenas uma ponte entre pessoas.

Torna-se parte de uma infraestrutura de extração.

Pesquisas conduzidas no Chile por Marcelo Mendoza, Sebastián Valenzuela e colaboradores analisaram desinformação durante o levante social chileno e a pandemia. Em plataformas como Twitter e Facebook, conteúdos falsos e imprecisos circularam mais rapidamente e alcançaram mais pessoas do que informações verdadeiras no conjunto estudado. (MDPI)

No Brasil, Patrícia Rossini e Camila Mont’Alverne mostraram que crenças em desinformação eleitoral se relacionavam não apenas ao conteúdo recebido, mas também à confiança política e aos hábitos de informação. A participação em grupos políticos de aplicativos de mensagens apareceu associada a maior probabilidade de acreditar em determinadas falsidades eleitorais. (Misinformation Review)

A mentira não viaja sozinha.

Ela encontra desconfianças, medos, vínculos e experiências anteriores.

Encontra também sistemas desenhados para recompensar aquilo que provoca reação.

É assim que o sistema nervoso público pode começar a se afastar das necessidades do território.

O acontecimento mais urgente deixa de ser aquilo que ameaça a vida.

Passa a ser aquilo que consegue capturar mais atenção.

Quando a regra chega de fora

Em uma ordem colonial-extrativista, a comunicação também prepara o terreno para a criação das normas.

Primeiro, um território é descrito como vazio, atrasado ou improdutivo.

Depois, sua água, seus minerais, suas florestas, seu trabalho e seus dados aparecem como recursos disponíveis.

Por fim, regras criadas longe dali chegam como se fossem a única forma possível de desenvolvimento.

A República permanece formalmente presente.

Há leis, autorizações, instituições e procedimentos.

Mas as pessoas que habitam a região podem participar apenas depois que as principais decisões já foram organizadas.

A norma chega pronta.

O território recebe a tarefa de adaptar-se.

Nesse movimento, seres humanos e Biomas passam a ser observados principalmente por sua capacidade de gerar rendimento.

O trabalhador torna-se custo ou produtividade.

A atenção torna-se engajamento.

A floresta torna-se crédito.

A água torna-se concessão.

O mineral torna-se exportação.

A vida continua existindo, mas sua linguagem perde espaço diante da linguagem da monetização.

A comunicação cumpre um papel decisivo nessa transformação.

Ela pode apresentar a extração como progresso inevitável.

Pode transformar oposição territorial em atraso.

Pode fazer uma decisão distante parecer técnica e neutra.

Pode repetir os benefícios e reduzir os impactos a detalhes administrativos.

O interesse externo começa, então, a falar como se fosse uma necessidade regional.

Pesquisadores latino-americanos vêm mostrando que a concentração dos meios limita a diversidade das vozes capazes de circular. No Chile, um processo de diálogo entre universidades, poder público e sociedade civil recomendou ampliar o pluralismo e fortalecer meios públicos, comunitários e indígenas. (UNESCO)

A UNESCO também vem destacando que meios indígenas e comunitários ampliam o pluralismo justamente porque permitem que povos e territórios contem suas próprias experiências, em suas línguas e a partir de seus conhecimentos. (UNESCO)

Talvez isso revele algo simples:

Quem pode narrar um território também participa daquilo que poderá ser decidido sobre ele.

O algoritmo aprendeu a falar conosco

A inteligência artificial amplia essa disputa.

Ela pode facilitar traduções, organizar grandes volumes de informação e ampliar o acesso ao conhecimento.

Também pode produzir imagens, vozes e acontecimentos que nunca existiram.

Um relatório de 2025 da International IDEA analisou experiências eleitorais no Brasil e no México e identificou o uso crescente da IA na criação, seleção, moderação e publicidade de conteúdos. O estudo também chamou atenção para a amplificação algorítmica de danos e para a monetização da desinformação. (International IDEA)

O risco não está apenas em acreditarmos em uma imagem falsa.

Está também em começarmos a desconfiar de todas as imagens.

Quando tudo pode ser fabricado, até o acontecimento verdadeiro pode ser descartado como manipulação.

O sistema nervoso público entra em um estado de incerteza permanente.

Nesse ambiente, a atenção se cansa.

Verificar exige tempo.

Comparar fontes exige energia.

Ler além do título exige uma disponibilidade que nem todos possuem.

Enquanto isso, conteúdos emocionalmente intensos continuam chegando.

Talvez o sequestro atencional não aconteça porque perdemos completamente nossa liberdade.

Acontece porque algumas estruturas possuem muito mais capacidade de escolher onde nossa liberdade será exercida.

Uma Democracia Jiwasa começa pelo sinal do território

Uma Democracia Jiwasa inverteria esse fluxo.

Em vez de normas produzidas longe da região e aplicadas sobre seus habitantes, as necessidades dos Corpos-Territórios e do Bioma participariam desde o início da criação das regras.

A água seria uma fonte de informação política.

O solo enviaria sinais.

As comunidades indicariam mudanças antes que elas se tornassem emergências.

A experiência de quem cuida, planta, pesca, caminha e vive no território teria valor na definição do problema.

Isso não significaria que apenas quem mora em determinada região poderia falar sobre ela.

Significaria que nenhuma decisão poderia ser considerada completa sem a participação real de quem receberá seus efeitos.

Jiwasa não é uma voz única.

É a possibilidade de formar um “nós” no qual diferentes sinais conseguem circular sem que uma pequena parte do sistema decida antecipadamente quais vidas merecem visibilidade.

Podemos imaginar redes públicas e comunitárias conectando:

  • alertas ambientais;

  • conhecimentos indígenas;

  • universidades;

  • serviços de saúde;

  • escolas;

  • associações locais;

  • dados produzidos pelo Estado;

  • experiências narradas pelos habitantes.

A comunicação deixaria de funcionar apenas como divulgação posterior.

Passaria a integrar a própria criação das normas.

O território não seria informado sobre a decisão.

Participaria da inteligência que a tornou possível.

O Neuro Desafio Latam

Pesquisadores da atenção, da emoção e da tomada de decisão conhecem mecanismos capazes de aumentar saliência, memória e resposta emocional.

O Neuro Desafio Latam propõe uma pergunta:

O que acontece quando o conhecimento criado para compreender a atenção passa a ser utilizado para capturá-la política e comercialmente?

Podemos imaginar pesquisas comparando:

  • notícias verdadeiras e falsas;

  • conteúdos humanos e sintéticos;

  • mensagens informativas e ameaçadoras;

  • fontes claramente identificadas e fontes ocultas;

  • conteúdos apresentados com ou sem contexto;

  • informação escolhida pela pessoa e informação selecionada por algoritmos.

O EEG poderia acompanhar momentos rápidos de captura da atenção, surpresa, conflito e avaliação da fonte.

Estudos recentes mostram que sinais eletrofisiológicos podem variar enquanto participantes avaliam a credibilidade de mensagens e de suas fontes. (PubMed)

A NIRS poderia acompanhar atividade pré-frontal quando a pessoa precisa decidir se confia em uma informação, especialmente quando o sistema oferece pouca transparência. Pesquisas com agentes artificiais já observaram maior demanda de processamento em situações de baixa transparência e confiabilidade. (Frontiers)

Essas medidas seriam combinadas com:

  • capacidade de lembrar a fonte;

  • tempo utilizado na verificação;

  • compreensão da mensagem;

  • confiança declarada;

  • mudança de opinião;

  • percepção de manipulação;

  • relatos em primeira pessoa.

O objetivo não seria descobrir quem é vulnerável ou classificar cidadãos politicamente.

Seria compreender quais ambientes ampliam a autonomia e quais transformam atenção em resposta automática.

Talvez a pergunta mais importante não seja se o cérebro consegue distinguir uma notícia falsa.

Talvez seja:

Que sistema de comunicação oferece ao Corpo-Território tempo, contexto e diversidade suficientes para formar sua própria compreensão?

Devolver os sinais à democracia

Podemos retornar ao rio.

A água mudou de cor.

Desta vez, o sinal não permanece preso.

A comunidade possui meios para narrar o que está acontecendo. Universidades ajudam a medir. Dados públicos confirmam a mudança. Outros territórios reconhecem o padrão. O Estado responde antes que o dano se torne irreversível.

A comunicação volta a cumprir uma função vital.

Ela conecta percepção e cuidado.

Em uma Democracia Jiwasa, o sistema nervoso público não serviria apenas para fazer ordens chegarem rapidamente às regiões.

Serviria para fazer os sinais das regiões participarem da criação das ordens.

O conhecimento científico encontraria a experiência local.

A tecnologia ampliaria a percepção sem substituir a comunidade.

A visibilidade deixaria de ser apenas um prêmio distribuído por algoritmos.

Tornar-se-ia uma condição para o pertencimento político.

Talvez o sistema nervoso da democracia tenha sido parcialmente privatizado.

Mas os sinais continuam vivos.

Continuam nas águas, nas línguas, nos corpos e nas comunidades.

Quando eles voltam a circular, uma nova pergunta começa a surgir:

O que acontece quando um território deixa de ser apenas informado sobre seu futuro e passa a participar da inteligência que o cria?

Essa pergunta nos leva ao próximo blog:

Produzir excesso, exportar território.

Referências essenciais

Mendoza, M. et al. A Study on Information Disorders on Social Networks during the Chilean Social Outbreak and COVID-19 Pandemic. Applied Sciences, 2023.

Rossini, P.; Mont’Alverne, C.; Kalogeropoulos, A. Explaining beliefs in electoral misinformation in the 2022 Brazilian election. HKS Misinformation Review, 2023.

Medeiros, M. Scientific Dissemination, Misinformation, and Human Rights. Latin American Human Rights Studies, 2023.

Becerra, M.; Mastrini, G. Concentración y convergencia de medios en América Latina. Ensambles, edição digital de 2023.

International IDEA. Artificial Intelligence and Information Integrity: Latin American Experiences. 2025.

UNESCO. Strengthening Media with Indigenous Voices. 2025.

Novelo Montejo, G.; Castells-Talens, A. Indigenizando los medios de comunicación: redes interculturales y comunicación indígena en América Latina. UNAM, 2024.








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States