Jackson Cionek
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O cérebro não cresce sozinho - condições biopsicossociais aparecem na atividade cerebral infantil

O cérebro não cresce sozinho - condições biopsicossociais aparecem na atividade cerebral infantil

Quando falamos em desenvolvimento cerebral infantil, ainda é comum imaginar o cérebro como um órgão que amadurece principalmente a partir de um programa biológico interno.

Genes, neurônios, sinapses, mielinização.

Tudo isso importa.

Mas uma criança não desenvolve seu cérebro dentro de um laboratório vazio.

Ela cresce dentro de uma casa.

Dentro de uma família.

Dentro de determinadas condições de alimentação, cuidado, segurança, linguagem, estímulo, renda e território.

E uma publicação de 2026 oferece uma oportunidade especialmente importante para observar essas relações diretamente na atividade elétrica cerebral.

Referência principal

O ponto de partida deste texto é o trabalho de Leila M. Larson, Daniel Feuerriegel, Gitanjali Lall, Mohammed Imrul Hasan, Sabine Braat, Jerry Jin, Beverley-Ann Biggs, Stefan Bode, Sant-Rayn Pasricha, Katherine A. Johnson e Jena D. Hamadani, publicado em 2026 na revista Infancy:

“Brain Activity of Young Children in Bangladesh Is Associated With Biopsychosocial Conditions at the Individual-, Family-, and Household-Level.”

A iniciativa dos autores merece destaque.

Grande parte das pesquisas sobre atividade cerebral infantil ainda é realizada em populações de países de alta renda. Larson e colaboradores fizeram o movimento inverso: levaram EEG para uma população de crianças vivendo em uma região rural de Bangladesh, onde nutrição inadequada, insegurança alimentar e limitações de estimulação psicossocial podem coexistir. (PubMed Central (PMC))

Isso importa porque uma neurociência que pretende compreender o desenvolvimento humano precisa investigar seres humanos que vivem em diferentes condições sociais e ambientais.

Caso contrário, podemos acabar descrevendo como “desenvolvimento cerebral humano” aquilo que, na verdade, corresponde ao desenvolvimento de grupos muito específicos.

EEG fora do laboratório tradicional

O estudo faz parte de uma subanálise do projeto BRISC — Benefits and Risks of Iron Supplementation in Children, realizado em Bangladesh.

Os pesquisadores registraram atividade cerebral em repouso em grandes amostras de crianças pequenas: houve registros em centenas de crianças aos aproximadamente 11 e 20 meses de idade. Após os procedimentos de qualidade e remoção de artefatos, foram obtidos dados utilizáveis de 412 crianças aos 11 meses e 374 aos 20 meses. Para EEG pediátrico em contexto de campo, trata-se de uma amostra particularmente expressiva. (PubMed Central (PMC))

As crianças permaneciam no colo de seus cuidadores enquanto assistiam a um estímulo visual simples destinado a manter sua atenção durante o registro, sem executar uma tarefa cognitiva propriamente dita.

A atividade elétrica cerebral foi registrada com 32 eletrodos ativos no sistema internacional 10–20 e um sistema LiveAmp, tecnologia da Brain Products, e os pesquisadores analisaram potência nas bandas delta, theta, alfa e beta. (PubMed Central (PMC))

É um excelente exemplo da possibilidade de utilizar EEG não apenas em laboratórios altamente controlados, mas também em pesquisas voltadas a populações e contextos tradicionalmente menos representados na neurociência.

A pergunta não era apenas “como está o cérebro?”

O aspecto mais interessante do trabalho talvez esteja nas variáveis colocadas ao redor do EEG.

Os pesquisadores não observaram apenas a atividade cerebral.

Também consideraram:

crescimento infantil;

concentrações de hemoglobina e ferritina;

marcadores de inflamação;

estimulação psicossocial;

insegurança alimentar domiciliar;

depressão materna;

e outras condições individuais, familiares e domésticas.

Ou seja, a pergunta deixa de ser simplesmente:

“Como está funcionando o cérebro desta criança?”

e passa a ser:

“Com quais condições de vida essa atividade cerebral está associada?”

Essa mudança parece simples, mas altera profundamente a investigação.

Crescimento, nutrição, estimulação e segurança alimentar

Larson e colaboradores encontraram associações entre diferentes características biopsicossociais e a atividade EEG, tanto contemporaneamente quanto em medidas realizadas meses antes.

Entre os fatores associados estavam crescimento linear, estado nutricional, estimulação psicossocial e segurança alimentar doméstica. Em geral, muitas dessas condições apresentaram relações positivas com atividade em bandas de frequência mais altas e negativas com frequências mais baixas, embora a direção e magnitude variassem de acordo com a banda analisada e o momento da avaliação. (PubMed Central (PMC))

Por exemplo, maior crescimento linear contemporâneo esteve associado a menor potência em delta e theta e maior potência em alfa e beta — um padrão que os autores discutem em relação a mudanças conhecidas na atividade EEG durante o amadurecimento cerebral. (PubMed Central (PMC))

Mas é fundamental preservar a cautela científica.

Este é um estudo predominantemente associativo.

Ele não permite afirmar que um fator isolado — como insegurança alimentar ou estimulação doméstica — “causou” determinado padrão cerebral.

Além disso, os próprios autores destacam que várias associações deixaram de permanecer significativas depois de correções para múltiplas comparações. (PubMed Central (PMC))

Esse cuidado não enfraquece o trabalho.

Ao contrário.

Mostra por que ele é importante como estudo exploratório: abre um espaço experimental para investigar, com medidas neurofisiológicas, condições que durante muito tempo foram analisadas quase exclusivamente por testes comportamentais, questionários ou indicadores socioeconômicos.

A criança não recebe apenas nutrientes

Um dos resultados conceitualmente mais importantes é que o ambiente infantil não pode ser reduzido a uma única variável.

Nutrição importa.

Mas estimulação também.

Segurança alimentar importa.

Mas o cuidado responsivo também.

Crescimento físico importa.

Mas a qualidade das interações cotidianas também pode participar do desenvolvimento.

Essa perspectiva encontra forte apoio em pesquisas latino-americanas recentes.

No Brasil, Tiago Munhoz, Iná Santos, Cauane Blumenberg, Alicia Matijasevich, Cesar Victora e colaboradores analisaram mais de três mil crianças com menos de um ano de idade em famílias socialmente vulneráveis, distribuídas por 30 municípios brasileiros. O estudo mostrou que fatores socioeconômicos, familiares e individuais estão associados ao desenvolvimento infantil desde o primeiro ano de vida. (Cadernos)

Embora esse trabalho brasileiro não tenha utilizado EEG, ele reforça o mesmo princípio: desenvolvimento infantil não emerge de uma única dimensão.

O território também participa

No México, Edson Serván-Mori e colaboradores avaliaram mais de mil crianças pequenas vivendo em localidades altamente marginalizadas de Oaxaca.

O estudo encontrou simultaneamente problemas nutricionais e percentuais importantes de crianças com risco ou atraso em diferentes domínios do desenvolvimento, especialmente linguagem e habilidades motoras. Os autores defendem a necessidade de estratégias específicas para reduzir desigualdades no início da vida. (PubMed)

Novamente, não podemos transformar associação social em destino biológico.

Pobreza não é um diagnóstico cerebral.

Uma criança em situação socioeconômica desfavorável não possui um “cérebro pobre”.

Essa linguagem seria biologicamente simplista e socialmente perigosa.

O que a literatura mostra é diferente:

certas condições associadas à pobreza modificam as experiências disponíveis para o desenvolvimento.

Alimentação.

Estresse.

Poluição.

Violência.

Segurança.

Tempo dos cuidadores.

Materiais para brincar e aprender.

Oportunidades linguísticas.

Acesso à saúde.

Esses fatores podem se combinar de maneiras diferentes ao longo da infância.

Uma revisão brasileira publicada em 2023 por Diogo Macedo Feijó, Jackson Frederico Pires, Regiane Maria Ribeiro Gomes e colaboradores destacou justamente a relação entre status socioeconômico, condições ambientais, neuroplasticidade e desenvolvimento cerebral. (DOI)

Uma neurociência latino-americana da condição de vida

Essa discussão tornou-se ainda mais explícita em 2024.

Joaquín Migeot, Carolina Panesso, Claudia Duran-Aniotz, Cristian Ávila-Rincón, David Huepe, Hernando Santamaría-García, J. Jaime Miranda, Agustín Ibáñez, Sebastián Lipina e colaboradores publicaram uma revisão intitulada Allostasis, health, and development in Latin America.

Os autores propõem que experiências adversas na infância precisam ser entendidas dentro de sistemas que incluem poluição, violência, desigualdade, deficiência nutricional, estresse ambiental e condições socioeconômicas, observando seus efeitos de maneira integrada sobre cognição, cérebro e diferentes sistemas fisiológicos. (PubMed)

Essa abordagem é particularmente relevante para a América Latina.

Nossas crianças não crescem apenas dentro de famílias.

Crescem também dentro de cidades, bairros, biomas, sistemas educacionais, políticas públicas e diferentes estruturas de desigualdade.

A neurociência começa a encontrar esses territórios.

O ambiente de aprendizagem doméstico também precisa ser culturalmente compreendido

Em 2025, a pesquisadora argentina Ana Clara Ventura, junto com Diana Leyva, revisou estudos sobre ambientes domésticos de aprendizagem na América Latina e no Caribe.

As autoras chamam atenção para um problema recorrente: grande parte dos modelos sobre desenvolvimento inicial ainda deriva de populações norte-americanas e europeias.

Elas defendem que precisamos de medidas mais culturalmente relevantes e de estudos que considerem não apenas a frequência de atividades educativas em casa, mas a qualidade da interação, o comportamento dos cuidadores e a relação bidirecional entre criança e ambiente. (PubMed)

Isso conversa diretamente com o mérito de Larson et al.

Medir crianças em diferentes territórios não significa apenas “replicar um experimento ocidental em outro país”.

Significa permitir que o próprio contexto revele relações que talvez não fossem visíveis em outra população.

O cérebro não cresce sozinho

Talvez essa seja a mensagem mais importante da publicação de Larson e colaboradores.

Um cérebro infantil não se desenvolve isoladamente enquanto o ambiente apenas observa.

A atividade cerebral emerge dentro de um organismo que está crescendo e sendo continuamente atravessado por alimentação, cuidado, estimulação, segurança, saúde e relações humanas.

Isso não significa que o ambiente determine o cérebro de maneira linear.

Também não significa que exista uma assinatura EEG simples de “pobreza”, “boa família” ou “má nutrição”.

O que o estudo mostra é mais cuidadoso e, justamente por isso, mais interessante:

diferentes condições biopsicossociais aparecem associadas a diferentes aspectos da atividade cerebral infantil.

E talvez esse seja um dos caminhos mais importantes para uma neurociência verdadeiramente global.

Não perguntar apenas:

“Como amadurece o cérebro?”

Mas também:

“Dentro de quais condições esse cérebro está conseguindo amadurecer?”

Essa mudança de pergunta desloca nossa atenção do cérebro isolado para a criança inteira.

Da criança isolada para sua família.

Da família isolada para sua casa.

Da casa isolada para seu território.

E prepara uma pergunta que desenvolveremos no próximo texto:

quanto daquilo que chamamos de indivíduo depende das condições do lugar onde esse indivíduo conseguiu existir?

Referência principal

Larson, L. M., Feuerriegel, D., Lall, G., Imrul Hasan, M., Braat, S., Jin, J., Biggs, B.-A., Bode, S., Pasricha, S.-R., Johnson, K. A., & Hamadani, J. D. (2026). Brain Activity of Young Children in Bangladesh Is Associated With Biopsychosocial Conditions at the Individual-, Family-, and Household-Level. Infancy, 31(4), e70108. DOI: 10.1111/infa.70108.

Referências complementares

Feijó, D. M., Pires, J. F., Gomes, R. M. R., et al. (2023). The impact of child poverty on brain development: does money matter? Dementia & Neuropsychologia, 17. DOI: 10.1590/1980-5764-DN-2022-0105.

Migeot, J., Panesso, C., Duran-Aniotz, C., Ávila-Rincón, C., Ochoa, C., Huepe, D., Santamaría-García, H., Miranda, J. J., Escobar, M. J., Pina-Escudero, S., Ibáñez, A., Lipina, S., et al. (2024). Allostasis, health, and development in Latin America. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 162, 105697. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2024.105697.

Munhoz, T. N., Santos, I. S., Blumenberg, C., Barcelos, R. S., Bortolotto, C. C., Matijasevich, A., et al. (2022). Fatores associados ao desenvolvimento infantil em crianças brasileiras: linha de base da avaliação do impacto do Programa Criança Feliz. Cadernos de Saúde Pública, 38(2), e00316920. DOI: 10.1590/0102-311X00316920.

Serván-Mori, E., Fuentes-Rivera, E., Quezada, A. D., Pineda-Antunez, C., Hernández-Chávez, M. C., García-Martínez, A., et al. (2022). Early neurological development and nutritional status in Mexican socially deprived contexts. PLOS ONE, 17(6), e0270085. DOI: 10.1371/journal.pone.0270085.

Ventura, A. C., & Leyva, D. (2025). Home learning environment in Latin America and the Caribbean: Associations with young children's cognitive and socioemotional development. Infant Behavior and Development, 80, 102126. DOI: 10.1016/j.infbeh.2025.102126.









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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States