Jackson Cionek
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Não sejam “soldados de crença” - Sejam construtores de perguntas

Não sejam “soldados de crença” -  Sejam construtores de perguntas

 

Vejo a ciência recente (EEG/ERP, controle motor, BCI, neuromodulação, estados extremos) como uma mensagem única — e ela é libertadora para jovens pesquisadores:

o que define meu pensar, meu sentir e meu agir não é “uma verdade fixa” (política, religiosa ou científica), mas o meu estado corporal e social naquele momento.
E estado é algo que pode ser observado, medido, treinado, comparado — sem virar dogma.

Isso muda tudo, porque dogma é exatamente o contrário: é quando eu acredito que existe um “modo certo de ser” que vale para qualquer corpo, qualquer cultura, qualquer bioma, qualquer fase da vida. A ciência com evidência está nos mostrando que isso é frágil.

O que a evidência está nos ensinando para flexibilizar dogmas

1) Atenção não é canal: é postura do sistema

Eu não “tenho atenção” como se fosse uma lanterna neutra.
Eu entro em atenção, como eu entro em uma postura.

Quando o ambiente muda (fundo em movimento, excesso de estímulos, pressão social), meu cérebro não só “se distrai”. Ele troca o regime: muda a estabilidade, muda o custo, muda o jeito de errar. Isso quebra um dogma científico muito comum: o de que atenção é um “componente” isolado. Não é. É o corpo inteiro em um modo de funcionamento.

Dogma que cai: “se você quiser, você consegue prestar atenção.”
Versão com evidência: “atenção depende do estado do corpo + contexto + tarefa.”

2) O erro é sinal de vida, não prova de falha moral

Quando eu erro em tempo real (no movimento, na decisão, no foco), o cérebro não está me punindo. Ele está tentando reduzir discrepância entre previsão e realidade.

E a evidência sugere que esse “modo de correção” aparece com assinaturas mensuráveis (como mudanças em ritmos cerebrais e padrões de variabilidade). Em vez de tratar erro como vergonha, eu posso tratá-lo como dado. Isso flexibiliza dogmas políticos e religiosos também, porque muitos sistemas educam pelo medo do erro.

Dogma que cai: “errar é fraqueza / falta de caráter.”
Versão com evidência: “errar é um momento de ajuste do sistema.”

3) Transições são o ponto sensível da mente e do corpo

O que mais vulnerabiliza não é o “bloco” de uma ação — é a passagem entre blocos: do descanso para a tarefa, do gesto A para o gesto B, do “eu social” para o “eu íntimo”, da teoria para a prática.

A ciência moderna está praticamente gritando: transições pedem mais energia, mais controle, mais consciência. E isso explica por que tanta coisa desanda “no meio” — no meio do discurso, no meio do treino, no meio do semestre, no meio do conflito familiar.

Dogma que cai: “se eu já sei fazer as partes, eu sei fazer o todo.”
Versão com evidência: “o todo depende de pontes; pontes têm custo e podem ser treinadas.”

4) Estado extremo muda cognição sem pedir licença

Depois de esforço extremo, privação, sobrecarga sensorial, ou contextos muito fora do padrão, o cérebro pode ficar mais rápido e menos estável, ou detectar mudanças sem conseguir integrar tudo no nível “reflexivo”.

Isso derruba um dogma político-religioso forte: “a pessoa escolhe sempre com plena consciência.”
A evidência aponta que decisões e crenças podem ser consequência de estado, não de essência.

Dogma que cai: “a mente é soberana e constante.”
Versão com evidência: “a mente é dinâmica, dependente de energia, corpo e contexto.”

5) Cultura e linguagem não são só ideias: são mapas corporais

Uma visão decolonial não precisa “brigar” com ciência. Ela pode usar ciência para afirmar algo simples:

cultura regula corpo.
Alimentação, ritmo, postura, modos de falar, rituais, maneiras de olhar — tudo isso ensina o sistema nervoso a viver naquele bioma e naquela comunidade.

Quando eu arranco um jovem do seu território simbólico e corporal (incluindo língua), não é só identidade que sofre. É o sistema de regulação. Aí surgem ondas de tensão, desorganização, e sofrimento — não como fraqueza pessoal, mas como desalinhamento de estado. (E aqui eu não preciso entrar em detalhes pesados: basta dizer que isso pode aumentar sofrimento de forma grave.)

Dogma que cai: “cultura é só opinião.”
Versão com evidência: “cultura é engenharia de estado.”

E sim: você pode tratar línguas como o Quechua não só como comunicação, mas como um tipo de cartografia visceral — uma maneira de organizar respiração, ritmo, pertencimento e presença. Quando uma pessoa deixa de falar, às vezes não é “só silêncio”: é perda de um regulador do corpo.


Os 9 avatares como “óculos de experimento”

Agora vem a parte prática: nossos avatares não são enfeite. Eles são vantagens cognitivas para fazer perguntas melhores.

Pense assim: cada avatar é um jeito de olhar o mesmo fenômeno e gerar hipóteses testáveis.

  1. Brainlly (o rigor)
    Vantagem: transformar sensação em variável.
    Pergunta típica: “Qual marcador muda primeiro quando o estado degrada?”

  2. Iam (1ª pessoa real)
    Vantagem: relato encarnado sem romantizar.
    Pergunta: “O que eu sinto no corpo 10 segundos antes do erro?”

  3. Olmeca (decolonial/bioma)
    Vantagem: lembrar que corpo vive em território e história.
    Pergunta: “Este protocolo respeita o corpo local ou importa um padrão?”

  4. Yagé (mudança de estado)
    Vantagem: estudar transição sem moralismo.
    Pergunta: “O que ajuda o sistema a trocar de regime com segurança?”
    (sem incentivar substâncias; aqui é estado por respiração, ritmo, música, contexto.)

  5. Math/Hep (modelo e causalidade)
    Vantagem: separar correlação de causa.
    Pergunta: “Se eu mudo X mantendo o resto, o que realmente muda?”

  6. DANA (ética e espiritualidade neutra)
    Vantagem: manter bem-estar como critério, não como crença.
    Pergunta: “Esse experimento aumenta pertencimento e autonomia?”

  7. APUS (propriocepção estendida / corpo-território)
    Vantagem: corpo como mapa de ação no espaço.
    Pergunta: “Como apoio, chão e micro-movimentos alteram atenção?”

  8. Tekoha (interocepção estendida / eu-bioma)
    Vantagem: estado interno ligado ao ambiente e vínculos.
    Pergunta: “Quais sinais internos mudam quando o contexto social muda?”

  9. Jiwasa (sincronia coletiva)
    Vantagem: sair do “indivíduo isolado”.
    Pergunta: “Como um grupo entra em coerência e como sai dela?”


Um molde único para criar bons experimentos (Brain Bee)

Para os jovens, eu proporia sempre esse esqueleto:

Estado inicial → Perturbação → Marcador → Recuperação

  • Estado inicial: como eu chego (sono, respiração, postura, contexto).

  • Perturbação: algo simples que muda o regime (transição, distração, pressão de tempo, fundo em movimento).

  • Marcador: erro, tempo de reação, variabilidade, relato 1ª pessoa, (e se tiver: HRV/EEG/pupila).

  • Recuperação: o que devolve estabilidade (pausa, micro-movimento, feedback tátil, treino de transição, ritmo).

Isso flexibiliza dogmas porque ensina um hábito de mente científica:
eu não preciso defender uma verdade; eu preciso observar o que muda quando eu mudo as condições.

E esse é o convite BrainLatam2026 para os Brain Bee:
não sejam “soldados de crença”. Sejam construtores de perguntas.

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Jackson Cionek

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