Jackson Cionek
32 Views

Mind the Cap - quando o limite do experimento estava no pesquisador, não no participante

Mind the Cap -  quando o limite do experimento estava no pesquisador, não no participante 

A eletroencefalografia é frequentemente apresentada como uma técnica relativamente acessível, não invasiva e amplamente aplicável.

Mas acessível para quem?

Essa pergunta se torna especialmente importante quando observamos que participantes negros continuam sub-representados em pesquisas com EEG, enquanto uma justificativa metodológica se repete: determinados tipos, volumes e estilos de cabelo tornariam a colocação da touca mais difícil e comprometeriam a qualidade dos dados.

Durante anos, essa explicação pareceu razoável o suficiente para orientar procedimentos, exclusões e até recomendações aos próprios participantes.

Mas Jen Lewendon, İlayda Özdemir, Anna Binabdullah e Anne Maass fizeram algo cientificamente mais interessante:

decidiram testar a própria justificativa.

Publicado em 2026 na Psychophysiology, o artigo Mind the Cap: Inclusivity Gaps in EEG Research pergunta se raça e gênero realmente produzem diferenças mensuráveis na qualidade do EEG — ou se parte da dificuldade atribuída ao participante estava, na verdade, na experiência do laboratório, no desenho metodológico e nas expectativas de quem coletava os dados.

Essa é uma excelente pergunta científica porque desloca o local do problema.

Quando uma suposição metodológica vira fato sem ter sido suficientemente testada

Revisões anteriores já haviam chamado atenção para a exclusão sistemática de pessoas com cabelos crespos, cacheados, densos ou volumosos em métodos psicofisiológicos que exigem contato direto com o couro cabeludo.

Manuais de equipamentos, imagens de treinamento e protocolos clássicos foram historicamente construídos a partir de uma variedade limitada de fenótipos capilares. Isso pode fazer com que dificuldades operacionais sejam interpretadas como propriedades naturais dos participantes, quando talvez sejam, ao menos em parte, resultado de tecnologias e práticas pouco adaptadas à diversidade humana.

O problema torna-se ainda maior quando essa suposição começa a retroalimentar a própria ciência.

Pesquisadores têm pouca experiência com determinados tipos de cabelo.

Essa pouca experiência é interpretada como dificuldade técnica.

A dificuldade técnica reduz o recrutamento.

O menor recrutamento reduz ainda mais a experiência do laboratório.

E então a ausência de participantes passa a parecer uma confirmação de que aquele método “não funciona bem” nesses corpos.

O mérito de Lewendon e colegas foi interromper esse ciclo com uma pergunta muito simples:

os dados realmente são piores?

A elegância do desenho está em comparar sistemas diferentes

Os autores analisaram dados obtidos com dois tipos de EEG.

No sistema seco, foram incluídos 60 participantes: 30 mulheres, 30 homens, 30 participantes negros e 30 participantes brancos.

No sistema úmido, foram analisados dados anteriormente coletados de 53 participantes: 27 negros e 26 brancos, com 36 mulheres e 17 homens.

Essa combinação é particularmente importante.

Se o resultado aparecesse apenas em um tipo específico de eletrodo, seria possível argumentar que a conclusão dependia fortemente daquela tecnologia.

Mas os pesquisadores avaliaram a questão em sistemas diferentes e utilizaram cinco métricas de qualidade:

  • número de eletrodos ruins;

  • qualidade da decomposição por ICA;

  • taxa de rejeição de artefatos;

  • desvio-padrão da linha de base;

  • erro padronizado de medida.

A pergunta deixou então de depender da impressão subjetiva do pesquisador.

“Foi difícil colocar a touca” não seria equivalente a “os dados foram ruins”.

Essa distinção é central.

O resultado foi desconfortavelmente simples

Os autores não encontraram evidência de pior qualidade de dados nos participantes negros, em nenhuma das cinco métricas avaliadas e em nenhum dos dois sistemas.

Isso não significa que a colocação da touca tenha sido sempre igualmente fácil.

As notas qualitativas dos pesquisadores, disponíveis para o sistema seco, sugeriram que a preparação podia exigir maior esforço em alguns participantes negros.

Mas essa dificuldade operacional não se traduziu em redução mensurável da qualidade final dos dados.

Essa diferença entre “foi mais difícil para mim fazer” e “o dado ficou pior” talvez seja a contribuição mais importante do artigo.

Porque os dois enunciados não são equivalentes.

E uma ciência que confunde os dois corre o risco de transformar a inexperiência do pesquisador em característica do participante.

Quando o método produz a exclusão que depois atribui ao Corpo

Aqui começamos a nos aproximar do conceito de Corpo-Território.

Não porque o estudo tenha sido construído para investigá-lo.

Mas porque ele mostra de maneira muito concreta que aquilo que chamamos de “limitação do corpo” pode ser produzido na relação entre corpo, equipamento, protocolo, experiência técnica e expectativas.

A pessoa chega ao laboratório com determinado cabelo.

A touca possui determinada arquitetura.

O eletrodo possui determinado formato.

O pesquisador possui determinada formação.

O protocolo estabelece determinada sequência.

A instituição acumulou determinada experiência.

E o resultado que emerge pertence à relação entre todos esses elementos.

Se o sistema encontra dificuldades, é precipitado concluir que o problema “está no participante”.

Talvez esteja na relação.

O Corpo não chega errado ao experimento

Essa frase merece ser colocada de maneira clara:

o Corpo não chega errado ao experimento.

O experimento é que pode ter sido construído para uma variação corporal mais estreita do que aquela existente no mundo.

Essa inversão parece pequena, mas modifica profundamente a responsabilidade científica.

Em vez de perguntar:

“como fazemos esse participante caber no nosso método?”

podemos perguntar:

“o nosso método consegue encontrar adequadamente a diversidade dos Corpos que pretende representar?”

O próprio impacto statement do artigo é particularmente direto: os autores argumentam que a responsabilidade pela maior diversidade em EEG está com os pesquisadores e que inexperiência com tipos de cabelo de participantes negros não deveria ser automaticamente tratada como barreira à inclusão.

E apareceu outro resultado que também exige pergunta

Curiosamente, embora não tenham encontrado pior qualidade associada à raça, os autores observaram métricas de qualidade inferiores em mulheres quando comparadas aos homens em medidas provenientes dos dois sistemas.

Esse achado não deveria ser transformado rapidamente em uma explicação biológica sobre “diferenças femininas”.

Ele deveria produzir outra pergunta.

O que, exatamente, está gerando essa diferença?

Comprimento do cabelo?

Volume?

Produtos capilares?

Contato dos eletrodos?

Arquitetura da touca?

Diferenças de preparação?

Alguma outra variável não medida?

O próprio estudo mostra por que precisamos ter cuidado antes de transformar uma associação metodológica em propriedade do Corpo.

A resposta correta pode estar em uma interação ainda não descrita.

Inclusão não é apenas uma questão moral — é também validade científica

A sub-representação de determinados grupos não produz apenas uma questão de justiça.

Produz um problema epistemológico.

Se construímos modelos de atividade neural, respostas ERP, biomarcadores ou normas de EEG utilizando amostras sistematicamente restritas, até que ponto podemos depois chamar essas conclusões de “humanas”?

Pesquisas recentes têm reforçado que EEG de qualidade equivalente pode ser obtido em amostras racialmente diversas quando são adotadas preparação adequada, comunicação aberta e procedimentos inclusivos. Em 2026, Farkas e colaboradores mostraram qualidade equivalente em mulheres negras utilizando práticas contemporâneas de recrutamento e preparação. Outro trabalho com EEG móvel e eletrodos secos também encontrou perdas de dados comparáveis entre grupos raciais durante tarefas realizadas sentadas e em pé.

O problema, portanto, talvez seja menos inevitável do que parecia.

Consciência 5D: aquilo que medimos depende também de como conseguimos encontrar

Na nossa proposta de Consciência 5D, aquilo que está materialmente acontecendo no Corpo-Território não depende de o instrumento conseguir medi-lo.

O EEG não cria a atividade cerebral.

Ele transduz parte dela.

Mas aquilo que conseguimos transduzir depende da relação entre sistema biológico e sistema de medida.

E essa distinção é fundamental.

Quando um eletrodo registra mal, não significa que a atividade neural deixou de existir.

Significa que nossa interface com aquela atividade está limitada.

Portanto, antes de atribuir uma diferença ao Corpo, precisamos perguntar:

estamos observando uma diferença no fenômeno ou uma diferença na nossa capacidade de medi-lo?

Essa pergunta ultrapassa o EEG.

Ela vale para fNIRS.

Para neuroimagem.

Para sensores vestíveis.

Para algoritmos.

Para bancos de dados.

E também para inteligência artificial.

Quem ficou fora dos dados também fica fora dos modelos

Existe ainda uma consequência contemporânea.

Os dados neurofisiológicos de hoje podem alimentar modelos estatísticos e, cada vez mais, sistemas de inteligência artificial.

Se determinados Corpos aparecem menos na coleta, aparecem menos no treinamento.

Se aparecem menos no treinamento, o sistema aprende uma representação menos completa da diversidade humana.

E quando esse modelo retorna ao mundo, pode ser menos preciso justamente para aqueles que foram pouco representados no início.

O problema deixa então de ser apenas:

“quem conseguiu usar uma touca de EEG?”

Passa a ser:

“quem participou da definição computacional daquilo que chamaremos de normal?”

Talvez o limite não estivesse no Corpo

Lewendon e colegas merecem elogio porque não aceitaram uma explicação metodológica apenas porque ela parecia plausível.

Transformaram-na em hipótese.

Mediram.

Compararam.

E encontraram algo que desloca a responsabilidade.

A coleta pode ser mais trabalhosa em alguns casos.

Mas isso não significa necessariamente pior dado.

O esforço do pesquisador não é uma medida da qualidade neural do participante.

Essa distinção parece óbvia depois de formulada.

Mas talvez muitas mudanças científicas aconteçam exatamente assim: quando alguém resolve testar aquilo que todos já haviam começado a tratar como sabido.

O estudo permite então uma pergunta que ultrapassa a própria touca de EEG:

quantas diferenças que atribuímos ao Corpo foram produzidas, amplificadas ou simplesmente tornadas invisíveis pelo modo como decidimos medi-lo?

No Corpo-Território, o instrumento também entra no território do encontro.

Ele não é neutro.

Possui arquitetura.

Possui limites.

Possui história.

E possui usuários com diferentes experiências.

Talvez, portanto, antes de perguntar por que determinado Corpo “não funciona” em nosso experimento, a ciência precise aprender a perguntar:

que Corpo imaginamos quando construímos o experimento?

E, talvez ainda mais importante:

quantos outros Corpos ficaram de fora porque confundimos os limites do nosso método com os limites deles?

Referências

Lewendon, J., Özdemir, İ., Binabdullah, A., & Maass, A. (2026). Mind the Cap: Inclusivity Gaps in EEG Research. Psychophysiology, 63(8), e70371. https://doi.org/10.1111/psyp.70371

Farkas, A. H., et al. (2026). Open Communication Can Lead to Equivalent EEG Data Quality for Black Women: Multilevel Modeling Interindividual Differences on Emotional Scene and Face Perception. Psychophysiology. https://doi.org/10.1111/psyp.70343

Webb, E. K., Etter, J. A., & Kwasa, J. A. (2022). Addressing racial and phenotypic bias in human neuroscience methods. Nature Neuroscience, 25, 410–414.

Etter, J. A., et al. (2022). Hair me out: Highlighting systematic exclusion in psychophysiological methods and recommendations to increase inclusion. Frontiers in Human Neuroscience, 16, 1051400.

Inclusive mobile brain-body imaging achieves equivalent EEG data quality across racial groups. (2026). Study using inclusive dry-electrode Mobile Brain/Body Imaging procedures in racially and ethnically diverse older adults.







#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States