Jackson Cionek
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Jiwasa Verdadeiro

Jiwasa Verdadeiro

O todo que protege a expressão do Weichö

As luzes se apagam.

No palco, um gesto é oferecido a todos. No entanto, ele não chega da mesma maneira a cada pessoa.

Alguém percebe beleza.

Outra pessoa sente desconforto.

Um espectador recorda a infância.

Outro acompanha a técnica.

Alguém deseja aplaudir, enquanto outra pessoa ainda não sabe o que sentiu.

A obra aconteceu no palco, mas também passou a acontecer dentro de muitos Corpos-Territórios.

O mesmo gesto pode entrar em muitos mundos sem produzir uma única experiência.

O coletivo começa justamente nesse ponto: não quando todos sentem o mesmo, mas quando diferentes maneiras de sentir podem permanecer juntas sem serem apagadas.

Dentro de cada pessoa, um universo em ação

Podemos dizer, de maneira filosófica e poética, que dentro de cada pessoa existe um universo em ação.

Isso não significa que carregamos fisicamente o cosmos dentro de nós. Significa que matéria, informação, memória, movimento, relações e sentimentos estão continuamente se reorganizando em cada Corpo-Território.

O filósofo brasileiro Alfredo Pereira Jr. propõe o Monismo de Triplo Aspecto, segundo o qual a experiência consciente envolve três aspectos inseparáveis: a materialidade do corpo vivo, os padrões dinâmicos de informação e a sentiência, ou capacidade de sentir.

Não seriam três realidades independentes. O corpo acontece, as informações organizam relações e tudo isso é vivido em primeira pessoa.

Quando assistimos a uma dança, a luz chega aos olhos, o som encontra o corpo, a respiração pode mudar e memórias podem ser ativadas. Ao mesmo tempo, essas transformações produzem relações, significados e qualias: beleza, medo, alegria, tensão, estranhamento ou pertencimento.

O universo não está apenas diante de nós.
Ele também acontece como experiência situada em nós.

Essa formulação dialoga com o Monismo de Triplo Aspecto, mas o modelo específico do Corpo-Território 5D permanece uma hipótese conceitual BrainLatam.

Tudo o que percebemos também se organiza dentro de nós

Qualquer percepção do outro ou de alguma coisa precisa ser transformada pelo Corpo-Território para tornar-se experiência.

Um rosto.

Uma voz.

Uma palavra.

Um corpo atravessando o palco.

Uma ausência.

Na hipótese BrainLatam da Consciência 5D, aquilo que percebemos passa a participar de uma organização interna formada por espacialidade, movimento e qualia.

A pessoa percebida pode parecer próxima ou distante.

Seu gesto pode ameaçar, acolher ou interromper.

Uma palavra pode movimentar uma lembrança.

Uma ausência pode ocupar um espaço vivido.

Essas organizações não são cópias físicas em miniatura dentro do cérebro. Também não são irreais. São abstrações reais enquanto experiência vivida, pois possuem posição, relação, movimento e significado para quem as sente.

Aquilo que percebemos do outro passa a participar do universo relacional que se organiza dentro de nós.

A fala de um pai pode reaparecer durante uma escolha.

O olhar de uma professora pode acompanhar uma tentativa.

Uma regra social pode continuar agindo mesmo quando ninguém está presente para exigi-la.

Uma pessoa amada pode permanecer como memória, orientação, saudade ou conflito.

Por isso, antes de participarmos de um coletivo externo, já carregamos um coletivo de relações dentro de nós.

Percepção como coautoria

A realidade exterior existe.

O gesto aconteceu.

O artista se deslocou.

A música foi tocada.

Mas nenhuma pessoa recebe essa realidade de maneira completamente neutra.

Percebemos por meio do encontro entre aquilo que acontece no mundo, o estado atual do corpo, nossas memórias, atenção, linguagem, cultura e relações.

A percepção pode, portanto, ser compreendida como coautoria.

Não inventamos livremente tudo o que existe, mas também não funcionamos como câmeras passivas.

A obra oferece condições.
O Corpo-Território participa da criação da experiência.

Duas pessoas podem discordar sobre uma apresentação sem que uma delas esteja necessariamente mentindo.

Coautoria, porém, não significa que toda afirmação seja igualmente sustentada. Podemos comparar percepções, rever evidências, escutar outras pessoas e transformar nossas interpretações.

A percepção é situada, mas pode continuar aberta.

O coletivo interior e os Eus Tensionais

Dentro de uma única pessoa não existe sempre um “eu” perfeitamente estável.

Um eu deseja aproximar-se.

Outro quer se afastar.

Um percebe beleza.

Outro recorda uma ameaça.

Um deseja participar.

Outro prefere observar.

A BrainLatam chama essas configurações provisórias de Eus Tensionais.

Eles não são pessoas ou consciências separadas dentro do corpo. São organizações temporárias de memória, sensação, atenção, postura, intenção e relação.

Essa variabilidade nos permite aprender e adaptar-nos. Mas também pode produzir medo.

Quando não compreendemos nossa própria capacidade de mudar, podemos tentar impedir a mudança dos outros. Quando acreditamos que existe apenas uma maneira correta de ser, a diferença alheia pode ameaçar nossa estabilidade.

Às vezes tentamos silenciar o outro porque ainda não aprendemos a organizar a diversidade que existe dentro de nós.

A metacognição ajuda a reconhecer esse coletivo interior:

De onde veio esta regra?

Qual memória organiza minha reação?

Este medo pertence ao presente?

Que relação desejo continuar reproduzindo?

A metacognição não elimina nossos Eus Tensionais. Ela impede que uma única tensão assuma automaticamente o controle.

Executivo, Legislativo e Judiciário interiores

Podemos utilizar os três poderes como uma metáfora para essa organização interna.

Não existem literalmente um parlamento, um governo e um tribunal em partes separadas do cérebro. Trata-se de uma imagem metacognitiva.

O Legislativo interno formula valores, regras e possibilidades:

O que considero importante?
Quais limites precisam existir?

O Executivo interno transforma intenção em ação:

falar, silenciar, aproximar-se, afastar-se, dançar, pedir ajuda ou estabelecer um limite.

O Judiciário interno observa as consequências:

Minha ação protegeu ou feriu?
Esta regra ainda produz valor?
Preciso continuar, reparar ou mudar?

Uma intenção não precisa transformar-se imediatamente em ação.

Uma regra aprendida não precisa permanecer eterna.

Uma ação não precisa ser defendida apenas porque foi nossa.

Liberdade não é executar tudo o que aparece dentro de nós.
É organizar tensões e intenções para escolher gestos que produzam valor pessoal e social.

O Jiwasa começa também dentro de nós, quando diferentes Eus Tensionais podem participar de uma escolha sem que um deles precise destruir todos os outros.

Weichö: um modo próprio de mundo

O conceito Weichö pertence ao povo Ye’kwana.

Marciane Rocha, artesã e pesquisadora Ye’kwana, apresenta o Weichö como um modo próprio de existência e relação, envolvendo pessoas, território, narrativas, cantos, conhecimentos, objetos e outros seres.

Por isso, Weichö não deve ser reduzido a personalidade, estilo individual ou mecanismo cerebral.

Ao aproximá-lo deste texto, a BrainLatam realiza uma extensão intercultural limitada e reconhecida.

Cada pessoa traz um modo situado de perceber e compor mundo:

uma história;

uma língua;

um ritmo;

uma forma de mover-se;

memórias;

relações;

e maneiras de aprender e expressar-se.

Essa extensão não substitui o significado Ye’kwana nem transforma o conceito em propriedade da neurociência.

Ela abre uma pergunta:

O coletivo consegue proteger o modo próprio de mundo que cada pessoa traz?

Jiwasa não é uma mente única

O Jiwasa Verdadeiro não é uma consciência coletiva única pairando sobre as pessoas.

Também não é a obrigação de todos perceberem, sentirem ou desejarem a mesma coisa.

É um estado relacional no qual muitos Corpos-Territórios participam de um todo comum sem perder a liberdade de perceber, discordar e expressar seus mundos.

Jiwasa Verdadeiro é emergência coletiva com liberdade individual viva.

Um grupo pode coordenar movimentos sem transformar coordenação em obediência.

Pode compartilhar uma intenção sem exigir sentimentos idênticos.

Pode oferecer proteção sem produzir silêncio forçado.

Pode criar pertencimento sem impedir a saída.

O todo verdadeiro não fala no lugar das partes.

Cria condições para que as partes possam falar e continuar pertencendo.

A diferença do outro também nos movimenta

Um grupo pode afirmar que valoriza a diversidade e, ainda assim, aceitar apenas diferenças que não alterem suas regras.

Pode permitir que alguém participe desde que fale da mesma maneira, acompanhe o mesmo ritmo, aceite a mesma interpretação e não questione a liderança.

Nesse caso, o pertencimento possui uma condição escondida:

“Você pode entrar, mas precisa deixar seu Weichö do lado de fora.”

Isso não é Jiwasa Verdadeiro.

É assimilação.

A diferença do outro não permanece somente no espaço exterior. Ela movimenta nosso espaço interior, modifica expectativas, ativa memórias e produz novas qualias.

Por isso, proteger a liberdade do outro também exige aprender a reconhecer aquilo que sua presença provoca em nós.

A diferença não é necessariamente uma ameaça ao coletivo.
Pode ampliar a realidade disponível para ele.

Proteger o Weichö não significa impedir críticas nem aceitar violência em nome da expressão individual.

O coletivo precisa proteger simultaneamente a liberdade, o consentimento, a integridade dos participantes, o direito de discordar e a responsabilidade pelas consequências.

O grupo cria regras, age, observa os efeitos e revisa suas decisões.

A liderança pode circular conforme o conhecimento necessário. Quem percebe um risco pode orientar. Quem conhece o espaço pode conduzir. Quem sofreu os efeitos de uma decisão precisa participar de sua avaliação.

Quando a dança cria um todo

No palco, um artista oferece um movimento.

Outro responde.

O público percebe.

Uma pessoa ri.

Outra permanece em silêncio.

Alguém modifica sua respiração.

Outra pessoa recorda uma ausência.

O coletivo não nasce porque essas experiências se tornam iguais.

Nasce porque podem compartilhar um espaço sem que uma precise destruir as outras.

O artista participa da autoria.

O público também.

O território participa.

A história participa.

A tradição participa.

A discordância pode participar.

Um Jiwasa Verdadeiro não transforma muitos corpos em uma única voz.
Transforma muitas vozes em um campo capaz de escutar.

As luzes retornam.

O público começa a sair.

Cada pessoa leva uma obra diferente dentro de si.

Você talvez tenha percebido beleza.

Outra pessoa percebeu violência.

Alguém encontrou pertencimento.

Outra pessoa encontrou uma pergunta.

O coletivo não precisa decidir qual dessas experiências possui o direito exclusivo de existir.

Precisa criar condições para que possam ser expressas, examinadas e relacionadas sem que uma única percepção capture o espaço das demais.

Jiwasa Verdadeiro não é sentir igual.
É proteger o espaço no qual podemos sentir, discordar e ainda criar juntos.

Dentro de cada pessoa existe um universo em ação.

Dentro de cada pessoa existe também um coletivo de relações, memórias e possibilidades de ser.

Dentro de cada coletivo externo existem muitos universos em relação.

O desafio não é reduzi-los a um único mundo.

É construir um todo capaz de proteger a passagem entre eles.

Eu percebo.
Você percebe.
Aquilo que percebo de você também movimenta algo em mim.
Ainda assim, não precisamos perceber da mesma maneira para proteger o mundo que podemos criar juntos.


Referências e contribuições

PEREIRA JR., Alfredo. Introdução à Metafísica do Monismo de Triplo Aspecto. ANPOF, 2023.
Contribuição: apresenta materialidade, informação dinâmica e sentiência como aspectos relacionados da experiência consciente.

PEREIRA JR., Alfredo; AGUIAR, Vinícius Jonas de. Fundamentos e aplicações da Sentiômica: a ciência da capacidade de sentir. Trans/Form/Ação, 2023.
Contribuição: distingue os padrões empiricamente investigáveis da capacidade de sentir das qualidades descritas em primeira pessoa.

ROCHA, Marciane. Perspectivas indígenas sobre museus. Espaço do Conhecimento UFMG, 2023.
Contribuição: apresenta o Weichö a partir da autoria Ye’kwana e reforça que conhecimentos indígenas devem permanecer ligados às comunidades que os produzem.

MAZO-MEJÍA, Olga Lucía; CARDONA-QUITÍAN, Herwin Eduardo. Cultural Leadership and Modes of Collective Agency in Comuna 1 in Medellín, Colombia. Prospectiva, 2022.
Contribuição: mostra como grupos artísticos territoriais podem construir agência coletiva, autonomia e convivência.

LÓPEZ GALLUCCI, Natacha Muriel. Aquilomba FiloMove. Revista Brasileira de Estudos em Dança, 2022.
Contribuição: relaciona dança, território, memória e autoria coletiva em uma pesquisa construída com a comunidade.

BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Consciência 5D, Eus Tensionais, Jiwasa Verdadeiro e os três poderes internos.
Contribuição: propõe investigar como espaços representados, movimento, qualia, metacognição e governança interna participam da experiência individual e coletiva.

Nota científica: Consciência 5D, Eus Tensionais, coletivo interior, Jiwasa Verdadeiro e os três poderes internos são formulações conceituais BrainLatam em desenvolvimento. Não devem ser apresentados como estruturas neuroanatômicas ou mecanismos neurocientíficos já validados.

A formulação central permanece:

Cada percepção do outro reorganiza espaços, movimentos e qualias dentro de nós. O Jiwasa Verdadeiro começa quando conseguimos receber essa transformação sem apagar o outro nem perder a autoria do próximo gesto.







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States