Jackson Cionek
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Jiwasa e Hyperscanner: Quando o coletivo vira dado (sem virar colonização)

Jiwasa e Hyperscanner: Quando o coletivo vira dado (sem virar colonização)

Eu entro na sala, mas hoje não estou sozinho.

Tem três cadeiras em semicírculo. No centro, uma mesa com cabos organizados demais para parecer “vida real”. No canto, um carrinho com dois tipos de sensores: uma touca de EEG e um conjunto de optodos de fNIRS. Acima, uma câmera. Na tela, um jogo cooperativo simples: “façam juntos, sem falar”.

Eu sento. A pesquisadora ajusta a touca.

Antes do primeiro estímulo, eu já mudei.

Meu peito prende, a mandíbula encosta, a respiração fica curta. Eu não “decidi” isso. Aconteceu. E eu reconheço: esse é o meu Eu Tensional — o “eu” que eu viro quando o corpo entra em modo tarefa, modo avaliação, modo esforço. É um estado de SER que me toma antes de qualquer pergunta teórica.

Aí ele aparece.

Math-Hep encosta no meu ombro como quem não quer atrapalhar — mas atrapalha do jeito certo:

Math-Hep (sussurrando): “Anota: o estado mudou antes do estímulo. Se você não mede isso, você vai chamar de ‘ruído’ aquilo que é a variável principal.”

Eu quase rio. Porque é exatamente assim que muitos estudos viram coloniais sem querer: tratam o corpo e o contexto como sujeira estatística, e depois exportam o resultado como se fosse “lei humana”.

A tela começa. Eu e outra pessoa precisamos sincronizar cliques para mover um objeto. Sem fala. Só ritmo. Só microajustes: uma hesitação, uma aceleração, um “eu acho que ele vai agora”.

E então a coisa que eu chamo de Jiwasa acontece: eu sinto uma inteligência entre nós.

Não é metáfora. É uma experiência corporal concreta: eu começo a prever o outro pelo tempo, pelo erro, pelo acerto. O coletivo vira um tipo de organismo provisório.

Math-Hep: “Se é entre nós, então seu desenho experimental tem que medir entre nós. Senão você vai explicar interação social com variáveis individuais — e isso é um erro clássico.”

O Hyperscanner (o arranjo multi-pessoa com EEG + fNIRS + comportamento) não é “tecnologia para impressionar”. Ele é uma tentativa de corrigir um vício antigo: explicar sociedade como soma de indivíduos isolados, usando categorias importadas como padrão universal.

E aqui entra a parte delicada: não basta medir. Medir pode virar outro colonialismo — só que com gráficos bonitos.

O que muda tudo é como se mede, com quem se mede, e para quê.

Eu penso num ponto que a ciência vem reforçando: sincronia entre cérebros aparece associada a cooperação, empatia, coordenação — não como mágica, mas como dinâmica de sistema. Por exemplo, há trabalhos recentes mostrando ganhos de cooperação em tarefas diádicas quando se mexe com estimulação sensorial multi-cérebro, e também estudos indicando alinhamento neural associado a empatia e sincronização em interações sociais. (OUP Academic)

Mas aí eu lembro da pergunta anti-erro colonial:

O que a gente está chamando de “cooperação”?
De quem é esse critério?
E qual corpo foi autorizado a dizer o que é “funcionar bem”?

Math-Hep: “Se o seu rótulo é colonial, sua regressão vai ser colonial. A estatística só amplifica a premissa. Primeiro: epistemologia. Depois: p-valor.”

Eu olho para os sensores e percebo o óbvio que a pressa faz esquecer: EEG e fNIRS não medem “a verdade do humano”. Eles medem marcas de um sistema em estado — e estado inclui história, linguagem, treinamento, ameaça, pertencimento, território.

Quando eu fico tenso, minha coordenação muda. Quando eu relaxo, meu timing abre. O mesmo estímulo social não entra igual. O “eu” que eu sou naquele minuto (Eu Tensional) muda o que eu percebo, o que eu antecipo, o que eu respondo.

E é aqui que o Hyperscanner fica politicamente importante para a América Latina:

Ele permite defender, com medidas quantificáveis, uma ideia que nossos saberes ancestrais já carregam no corpo há séculos:

o social não está “dentro do indivíduo” — está nas relações, nos ritmos, no chão compartilhado.

Só que… se a gente levar o laboratório para o campo sem mudar a postura, a gente só transporta o colonizador com mais bateria.

Um exemplo que eu gosto (porque fala diretamente do método, não só do resultado) vem da discussão sobre experimental fieldwork com populações não-WEIRD: a vida no campo não segue o roteiro do laboratório; ela exige ajustes epistemológicos e metodológicos, improviso, bricolagem — e, principalmente, metodologias ativas decoloniais que tirem participantes indígenas do lugar de “objeto” e coloquem em papéis protagonistas (inclusive como educadores e especialistas).

**O protagonismo muda engajamento. E engajamento muda rede. E rede muda sincronia. E sincronia muda o que você acha que está ‘medindo’.”

Eu volto ao jogo. Eu e o outro erramos duas vezes. Na terceira, acertamos bonito — sem falar, só por ajuste fino. Eu sinto o corpo aquecer, a respiração descer, o Eu Tensional afrouxar. E percebo uma provocação simples:

Se meu estado muda a minha percepção, então meu estado muda o meu “social”.
E se o social muda meu estado, então o social não é tema “da cabeça” — é tema do corpo inteiro.

A saída dos “erros coloniais” nas ciências sociais não é trocar teoria por sensor. É fazer uma ponte:

  1. Jiwasa como hipótese central: o coletivo é uma dinâmica real, mensurável e situada.

  2. Hyperscanner como ferramenta: medir simultaneamente cérebro-corpo-comportamento em interação.

  3. Decolonialidade como condição: co-desenho, critério local, protagonismo, e respeito ao território (o “onde” e o “com quem” fazem parte do dado).

  4. Math-Hep + Eu Tensional como guardiões: lembrar, o tempo todo, que estado não é ruído — é a variável escondida que decide o resultado.

Math-Hep (final): “Se você quer sair do erro colonial, pare de procurar ‘o humano’ como essência. Modele o humano como sistema em estado — em relação. E trate o ‘entre nós’ como dado de primeira classe.”

E eu anoto a última frase, do jeito Brain Bee:

O coletivo não é cenário da mente.
O coletivo é parte da mente — quando a mente é corpo em relação.


Referências (2021+) com comentários

A) Hiperscanning, EEG/fNIRS e comportamento coletivo (foco Hyperscanner)

Leiva-Cisterna, I., Barraza, P., Rodríguez, E., & Dumas, G. (2025). Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience. doi:10.1093/scan/nsaf104.
Comentário: Excelente para sustentar, com dado experimental, a ideia de que intervenções no “entre-dois” (acoplamento diádico) podem amplificar cooperação. Ajuda a defender Jiwasa como dinâmica observável, não metáfora.

Schwartz, L., Levy, J., Shapira, Y., Zagoory-Sharon, O., & Feldman, R. (2025). Empathy aligns brains in synchrony. iScience. doi:10.1016/j.isci.2025.112642.
Comentário: Sustenta a noção de alinhamento neural associado a empatia/sincronia em interação. Bom para argumentar que “social” aparece como assinatura de acoplamento.

Hayati, A. F., Barde, A., Gumilar, I., Momin, A., Lee, G., Chatburn, A., & Billinghurst, M. (2025). Inter-brain synchrony in real-world and virtual reality search tasks using EEG hyperscanning. Frontiers in Virtual Reality, 6. doi:10.3389/frvir.2025.1469105
Comentário: Traz o mundo real/VR para o debate — útil para mostrar que Hyperscanner não precisa ficar preso a tarefas artificiais.

Ciaramidaro, A., Toppi, J., Vogel, P., Freitag, C. M., Siniatchkin, M., & Astolfi, L. (2024). Synergy of the mirror neuron system and the mentalizing system in a single brain and between brains during joint actions. NeuroImage, 299, 120783. doi:10.1016/j.neuroimage.2024.120783
Comentário: Bom para construir a ponte entre mecanismos intra-cérebro (sistemas) e dinâmicas inter-cérebros (acoplamento), sem cair no reducionismo.

Müller, V., & Lindenberger, U. (2024). Hyper-brain hyper-frequency network topology dynamics when playing guitar in quartet. Frontiers in Human Neuroscience, 18, 1416667. doi:10.3389/fnhum.2024.1416667
Comentário: Ótimo para argumento “música/ritmo como laboratório natural” — Jiwasa como coordenação coletiva sustentada.

Balconi, M., & Angioletti, L. (2023). Dyadic inter-brain EEG coherence induced by interoceptive hyperscanning. Scientific Reports, 13, 4344. doi:10.1038/s41598-023-31494-y
Comentário: Conecta interocepção e sincronia diádica — combina diretamente com Eu Tensional como estado que organiza percepção e relação.

Lim, M., Carollo, A., Bizzego, A., Chen, A. S., & Esposito, G. (2024). Culture, sex and social context influence brain-to-brain synchrony: an fNIRS hyperscanning study. BMC Psychology, 12(1), 350. doi:10.1186/s40359-024-01841-3
Comentário: Fundamental para o argumento anti-colonial: mostra que contexto sociocultural não é “ruído”; ele muda o fenômeno.

Liu, S., Han, Z. R., Xu, J., Wang, Q., Gao, M., Weng, X., … & Rubin, K. H. (2024). Parenting links to parent–child interbrain synchrony: a real-time fNIRS hyperscanning study. Cerebral Cortex, 34(2), bhad533. doi:10.1093/cercor/bhad533
Comentário: Excelente para “comportamento coletivo” em vínculo real (pais-filhos), fugindo do laboratório artificial.


B) Bases para “percepção é estado” (interocepção, corpo e processamento dependente de estado)

Chen, W. G., et al. (2021). The emerging science of interoception: sensing, integrating, interpreting, and regulating signals within the self. Nature Neuroscience.
Comentário: Dá linguagem unificadora para tratar estado interno como parte constitutiva da percepção, não apêndice.

Berntson, G. G., & Khalsa, S. S. (2021). Neural circuits of interoception. Trends in Cognitive Sciences, 25(1), 17–32.
Comentário: Mapeia circuitos e reforça que percepção é continuamente moldada por sinais do corpo.

Crucianelli, L., & Ehrsson, H. H. (2023). The role of the skin in interoception: a neglected organ? Perspectives on Psychological Science. doi:10.1177/17456916221094509
Comentário: Ajuda a ampliar “interocepção” para além de vísceras — pele como interface sensível do estado.

Lopez-Martin, G., Caparco, A., van Steenoven, C., Leganes-Fonteneau, M., & Galvez-Pol, A. (2025). Interoceptive rhythms and perceptual experience: mechanisms, contexts, and strategies for real-world research. NeuroImage, 325, 121650. doi:10.1016/j.neuroimage.2025.121650
Comentário: Excelente para conectar ritmos (respiração/coração etc.) com percepção no mundo real — perfeito para fundamentar “estado” como arquitetura.

McCormick, D. A., McGinley, M. J., & Salkoff, D. B. (2021). Brain state dependent processing in the cortex. Annual Review of Neuroscience, 44, 1–25.
Comentário: A ponte clássica entre neurofisiologia e a tese central: não existe resposta “pura” a estímulo sem estado.


C) Referências latino-americanas e decoloniais (argumento anti-“erro colonial”)

Maia, M. (2021). Non-WEIRD experimental field work as bricolage: a discourse on methods in the investigation of deixis and coreference in the Karajá language of Central Brazil. Journal of Cultural Cognitive Science. doi:10.1007/s41809-021-00083-8
Comentário: Sustenta metodologicamente “levar o laboratório ao campo” com ajustes epistemológicos; e defende práticas decoloniais que transformam participantes indígenas em papéis protagonistas.

Escobar, A. (2014). Sentipensar con la tierra: Nuevas lecturas sobre desarrollo, territorio y diferencia.
Comentário: Apoia o argumento de que conhecer é corpo-território-relação; excelente para sustentar “o social como ontologia relacional”, base do seu Jiwasa. 

Fals Borda, O. (séc. XX; legado retomado continuamente). Conceito de sentipensante/sentipensar (pensarrticipativas.
Comentário: É uma âncora histórica latino-americana para dizer que rigor não precisa ser desligamento do corpo; dá base para um Hyperscanner decolonial.

Santos, B. de S. (2014). Epistemologies of the South: Justice Against Epistemicide.
Comentário: Reforça a tese de “justiça cognitiva”: não existe ciência social justa sem reconhecer e proteger modos de conhecer do Sul — útil para enquadrar “erro colonial” como epistemicídio.



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