Jackson Cionek
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IA, hábitos e autonomia

IA, hábitos e autonomia

Seu algoritmo conhece você - ou está ensinando você a continuar sendo quem já era?

Você desbloqueia o celular.

Não havia planejado abrir uma rede social.

Mesmo assim, alguns segundos depois, o dedo já encontrou o aplicativo. Você rola a tela. Para diante de um vídeo. Depois outro. Curte um. Ignora outro. Permanece alguns segundos a mais em um terceiro.

Nenhuma dessas ações parece extraordinária.

Mas cada uma deixa um rastro.

E o sistema aprende.

Na próxima vez, a plataforma talvez não mostre simplesmente aquilo de que você gosta. Ela poderá mostrar aquilo diante do qual você já aprendeu a parar.

Surge então uma pergunta importante:

Seu algoritmo conhece seus hábitos ou participa da construção dos hábitos que depois utiliza para conhecê-lo?

É nesse circuito que autonomia, Inteligência Artificial e Semiótica começam a se encontrar.

Hábito não significa ausência de autonomia

Maria Eunice Quilici Gonzalez e colaboradores oferecem uma entrada particularmente importante para esse problema. Ao investigar hábitos e racionalidade na era dos Big Data, os autores evitam dois extremos: nem somos absolutamente livres de nossas histórias e disposições, nem somos simplesmente marionetes das tecnologias digitais.

A hipótese proposta é mais interessante: pessoas podem agir racionalmente em muitas situações e, ao mesmo tempo, ter opiniões influenciadas por informações insuficientes ou distorcidas, hábitos anteriores e disposições emocionais previamente adquiridas. (SciELO Brazil)

Isso significa que autonomia não exige viver sem hábitos.

Seria impossível.

Hábitos economizam tempo e permitem repetir ações que não precisam ser reconstruídas a cada instante.

O problema aparece quando determinado caminho se torna tão disponível que outras possibilidades quase deixam de competir por atenção.

Na BrainLatam temos usado uma imagem simples:

Um galho conhecido foi encontrado.

Diante de um novo acontecimento, o Corpo-Território pode encontrar rapidamente uma maneira já construída de perceber, sentir, interpretar e agir.

A novidade chegou.

Mas encontrou um caminho antigo.

A rede pode aprender qual galho você costuma escolher

Aqui aparece algo novo em relação aos hábitos anteriores às plataformas digitais.

O ambiente também está aprendendo conosco.

O algoritmo observa:

onde paramos;
o que repetimos;
o que ignoramos;
com quem interagimos;
quanto tempo permanecemos;
que tipo de expressão provoca resposta.

Depois reorganiza o ambiente que veremos novamente.

Surge um circuito:

hábito → ação → dado → algoritmo → recomendação → nova ação → fortalecimento ou alteração do hábito.

Anderson Vinícius Romanini e Marcelo Hamdan Alvim analisam justamente essa relação entre mediação algorítmica, cognição, semiótica e Inferência Ativa. Para os autores, algoritmos podem participar dos processos inferenciais dos usuários, direcionando padrões de resposta e interação. (Portal Revistas UCB)

Isso não significa que um algoritmo determine inevitavelmente aquilo que alguém pensará.

O pesquisador costarriquenho Ignacio Siles, ao estudar usuários de Netflix, Spotify e TikTok na Costa Rica, chega justamente a uma conclusão mais equilibrada: pessoas incorporam algoritmos à vida cotidiana, seguem recomendações, resistem a elas, modificam práticas e às vezes fazem as duas coisas simultaneamente. A agência aparece nesse espaço intermediário entre usuário e sistema. (MIT Press)

Talvez, portanto, o algoritmo não esteja fora de nós nem seja simplesmente nosso controlador.

Ele entra na relação.

E a relação muda ambos os lados.

Nem todo uso repetido é “vício”

Essa distinção é importante.

Em 2025, Ian Anderson e Wendy Wood, pesquisadora de referência em hábitos, mostraram que usuários podem superestimar quanto seu uso de redes sociais corresponde a uma dependência clínica. Em uma amostra de usuários ativos do Instagram, o comportamento habitual foi muito mais comum do que os indicadores utilizados para identificar risco de adição. Os autores destacam que hábitos podem ser ativados automaticamente por pistas de contexto — abrir, rolar, postar e reagir — sem que isso seja equivalente a dependência clínica. (Nature)

Essa diferença interessa diretamente à autonomia.

Se toda repetição for descrita como algo irresistível, podemos acabar reduzindo a própria percepção de capacidade de mudança.

O hábito, ao contrário, permite outra pergunta:

Qual pista está ativando essa resposta - e podemos reorganizar a relação com ela?

É uma pergunta muito próxima daquilo que queremos testar com a Consciência 5D.

Conectoma-Pedra: quando o conhecido chega antes

Na cartografia operacional da BrainLatam, usamos Pedra–Papel–Tesoura como metáfora para diferentes modos funcionais.

Pedra representa respostas rápidas, automatismos, hábitos e reprodução de caminhos conhecidos.

Tesoura representa maior análise, classificação e planejamento deliberado.

Papel representa abertura, fruição e metacognição.

Não tratamos esses nomes como três redes anatômicas independentes nem como diagnóstico neurocientífico. São uma metáfora operacional para formular perguntas experimentais. A própria BrainLatam vem descrevendo Pedra como condição em que uma resposta já disponível pode ser rapidamente replicada, com risco de piloto automático. (brainlatam)

Na hipótese 5D, quando determinados espaços representacionais são muito recrutados, eles podem aumentar a probabilidade de voltar a participar da experiência e dificultar temporariamente o recrutamento de alternativas menos disponíveis.

Podemos resumir assim:

Quanto mais conhecido o caminho, menos esforço ele precisa para ser encontrado novamente.

E formular uma hipótese ainda mais forte:

Quanto mais rígido o caminho já recrutado, menos possibilidades o novo signo pode encontrar antes da ação.

É justamente isso que EEG e fNIRS podem nos ajudar a transformar de metáfora em pergunta científica.

Uma notificação já pode modificar o próximo instante

Um estudo eletrofisiológico publicado online em 2023 e na edição de 2024 da Biological Psychology investigou o efeito de notificações de smartphone durante uma tarefa de atenção.

Com EEG, os pesquisadores observaram que tentativas precedidas por notificações apresentaram menor potência theta e maior potência alpha e beta, além de alterações em indicadores relacionados ao deslocamento da atenção e ao controle cognitivo. Uma breve intervenção de mindfulness também modulou alguns desses efeitos. (PubMed)

O estudo não demonstra que “notificações destroem a atenção”.

Mostra algo mais útil:

Um pequeno signo digital pode alterar mensuravelmente o estado neural no qual o próximo estímulo será processado.

Isso conversa diretamente com nossa ideia de encontro.

O estímulo anterior participa das condições de processamento do próximo.

E o fNIRS começa a acompanhar o comportamento fora de tarefas tão artificiais

Em 2025, um estudo publicado na Scientific Reports utilizou fNIRS vestível para investigar os efeitos imediatos do consumo de redes sociais em 20 universitários.

Após uma breve exposição, os participantes apresentaram menor acurácia em tarefas de função executiva, acompanhada por alterações na atividade pré-frontal, incluindo regiões relacionadas a memória de trabalho, monitoramento e controle inibitório. Pelo tamanho reduzido da amostra, o trabalho deve ser considerado evidência inicial, não conclusão definitiva sobre usuários de redes sociais em geral. (PubMed Central (PMC))

Mas metodologicamente ele é muito interessante para nós.

Mostra que o NIRS pode acompanhar perguntas sobre hábitos digitais em condições progressivamente mais próximas da vida real.

O algoritmo também pode ajudar a flexibilizar o hábito

Seria um erro concluir que personalização algorítmica só consegue estreitar escolhas.

Em um experimento pré-registrado com 6.488 participantes, sistemas de recomendação que aprenderam as preferências que as pessoas diziam desejar ter, em vez de apenas suas preferências atuais, geraram um pouco menos de cliques, mas fizeram os participantes avaliar melhor o tempo gasto e perceber maior alinhamento do sistema com seus interesses de longo prazo. (Nature)

Isso abre uma possibilidade importante para nossa futura IA do Corpo-Território.

Em vez de perguntar apenas:

“O que fará esta pessoa clicar novamente?”

ela poderia perguntar:

“Isso que estou oferecendo reforça somente o caminho mais recrutado ou ajuda o indivíduo a acessar outras possibilidades que ele próprio considera importantes?”

Nesse caso, a IA deixaria de ser apenas uma máquina de reconhecer hábitos.

Poderia tornar-se uma ferramenta para percebê-los e flexibilizá-los.

Neurociência Decolonial: hábito também tem território

Não devemos assumir que um hábito digital observado em estudantes norte-americanos, chineses ou europeus terá exatamente a mesma dinâmica na América Latina.

Ignacio Siles e colaboradores alertam para a tendência de simplesmente importar teorias construídas no Norte Global e aplicá-las às plataformas latino-americanas — processo que chamam criticamente de “tropicalização”. (Sage Journals)

O Corpo-Território que usa TikTok em San José, São Paulo, Bogotá, uma comunidade amazônica ou Goioerê não chega à tela com a mesma história.

Mudam língua, infraestrutura, trabalho, pertencimento, desigualdade, acesso à informação e relações comunitárias.

Uma Neurociência Decolonial dos hábitos digitais precisa, portanto, relacionar EEG ou fNIRS não apenas ao número de cliques, mas também ao território no qual aquele hábito ganhou sentido.

Pergunta NeuroDesafio LATAM

Como patrocinadora do NeuroDesafio LATAM, a BrainLatam propõe:

Algoritmos que repetem conteúdos congruentes com hábitos prévios alteram progressivamente theta, alpha ou medidas de controle atencional e pré-frontal registradas por EEG e fNIRS?

Um estudo longitudinal latino-americano poderia comparar pessoas expostas a três tipos de feed:

conteúdo congruente com hábitos anteriores;
conteúdo deliberadamente diversificado;
conteúdo alinhado às preferências que o próprio indivíduo deseja desenvolver.

EEG poderia acompanhar theta, alpha, ERPs e controle atencional. fNIRS poderia acompanhar alterações pré-frontais durante tarefas de inibição e decisão. Relatos em primeira pessoa permitiriam observar se o participante percebe maior ou menor disponibilidade de alternativas.

A questão não seria provar que “o algoritmo controla o cérebro”.

Seria muito mais interessante:

Quando um ambiente digital encontra repetidamente o mesmo galho, ele torna esse caminho progressivamente mais fácil de recrutar — e mais difícil perceber os outros?

Autonomia talvez não seja viver sem hábitos.

Talvez seja conseguir perceber quando um hábito começou a escolher antes de nós.

A IA não precisa apenas aprender qual caminho seguimos. Ela pode ser desenhada para nos ajudar a perceber que existem outros.


Referências comentadas — uma segunda leitura do Blog 03

  1. Gonzalez, M. E. Q.; Broens, M. C.; Quilici-Gonzalez, J. A.; Kobayashi, G. (2023). “Hábitos e racionalidade: um estudo filosófico-interdisciplinar sobre autonomia na era dos Big Data”. Trans/Form/Ação, 46, 367–386. — A referência central do blog porque evita o falso dilema entre liberdade total e manipulação completa: hábitos e informações anteriores influenciam decisões sem necessariamente eliminar a capacidade de ação relativamente autônoma. (SciELO Brazil)

  2. Alvim, M. H.; Romanini, A. V. (2025). “Mediações algorítmicas e cognição: conexões entre a semiótica e a inferência ativa”. Esferas, 32. — Mostra que algoritmos não apenas observam comportamentos; podem participar do próprio circuito inferencial que produz respostas futuras. Sustenta nossa cadeia hábito → dado → algoritmo → novo estímulo → novo hábito. (Portal Revistas UCB)

  3. Siles, I. (2023). Living with Algorithms: Agency and User Culture in Costa Rica. MIT Press. — Pesquisa particularmente importante para uma abordagem latino-americana porque mostra usuários da Costa Rica seguindo, negociando e resistindo às recomendações de plataformas. Ajuda a preservar nossa ideia de agência: pessoas não são receptores passivos dos algoritmos. (MIT Press)

  4. Siles, I.; Valiati, V.; Valerio-Alfaro, L.; Ferreira, A. (2025). “Tropicalizing platformization? Tensions in research on algorithms and platforms in Latin America”. International Journal of Cultural Studies. — Adverte contra a importação automática de conceitos do Norte Global para explicar experiências latino-americanas. Para a Neurociência Decolonial, isso significa que hábitos digitais precisam ser investigados dentro das condições sociais e territoriais em que surgem. (Sage Journals)

  5. Anderson, I. A.; Wood, W. (2025). “Overestimates of social media addiction are common but costly”. Scientific Reports, 15, 39388. — Distingue hábito de dependência clínica e mostra que rotular automaticamente o uso frequente como “vício” pode diminuir a percepção de controle. Reforça uma tese central deste blog: automatismo não significa necessariamente ausência absoluta de autonomia. (Nature)

  6. Upshaw, J. D.; Shields, G. S.; Judah, M. R.; Zabelina, D. L. (2024). “Electrophysiological effects of smartphone notifications on cognitive control following a brief mindfulness induction”. Biological Psychology, 185, 108725. — Utilizando EEG, mostrou alterações em theta, alpha e beta após notificações de smartphone. Oferece evidência mensurável de que um sinal digital anterior pode alterar as condições neurais nas quais o próximo estímulo será processado. (PubMed)

  7. Aitken, A. et al. (2025). “Naturalistic fNIRS assessment reveals decline in executive function and altered prefrontal activation following social media use in college students”. Scientific Reports, 15, 36960. — Pequeno estudo com fNIRS vestível que encontrou alterações de desempenho e atividade pré-frontal após exposição a redes sociais. É relevante porque mostra como NIRS pode levar o estudo dos hábitos digitais para condições mais naturalísticas, embora a amostra pequena exija cautela na generalização. (DOI)

  8. Kang, J. et al. (2023). “Tailoring recommendation algorithms to ideal preferences makes users better off”. Scientific Reports. — Demonstrou experimentalmente que algoritmos não precisam otimizar somente preferências atuais e cliques: recomendações orientadas às preferências ideais declaradas pelos próprios participantes produziram avaliações melhores sobre o tempo gasto. Abre caminho para imaginar IA como instrumento de autonomia, e não apenas de repetição. (Nature)

  9. BrainLatam — “Neuroscience Perception Avatars” e “Qual é sua Pergunta? — Avatares Neurocientíficos Referenciais” (2026). — Esses textos consolidam Pedra–Papel–Tesoura como metáfora operacional, e não anatomia literal: Pedra representa reprodução rápida do conhecido; Tesoura, análise deliberada; Papel, abertura e metacognição. O Blog 03 transforma essa cartografia em uma pergunta testável: a repetição algorítmica torna alguns caminhos progressivamente mais disponíveis que outros? (brainlatam)

  10. BrainLatam (2026). “O que não entra na atenção também pode limitar o futuro que conseguimos imaginar”. — Desenvolve a hipótese de que estímulos sucessivamente confirmatórios podem encontrar respostas já disponíveis e reduzir temporariamente a disponibilidade de alternativas. Esse texto fornece a continuidade conceitual para a frase central deste blog: “um galho conhecido foi encontrado” — mas autonomia depende também de perceber que outros galhos continuam possíveis. (brainlatam)








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States