Jackson Cionek
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Eu-Avatar vs Eu-Bioma

Eu-Avatar vs Eu-Bioma

Subtítulo: quando o personagem governa e o corpo vira “bateria” — a metáfora Matrix sem misticismo

1) Abertura sensorial

Você já viveu um dia em que parecia estar “funcionando”, mas não estava presente? Você responde mensagens, cumpre tarefas, sorri na hora certa, fala o que precisa ser dito — e mesmo assim existe uma sensação silenciosa: “tem algo em mim que ficou para trás.”
O corpo dá sinais: respiração curta, ombros travados, fome confusa, sono que não chega, irritação sem motivo. Mas o roteiro continua. O personagem continua.

Essa é a diferença que muda tudo nesta série: Eu-Bioma é a vida acontecendo; Eu-Avatar é o personagem que você aprendeu a operar.
O problema não é ter avatar. O problema é quando o avatar vira governo.


2) Tese do texto

Tese 1: Eu-Bioma é o conjunto vivo sustentado por fluxos (energia, água, nutrientes) + limpeza/saída de dejetos + coordenação.
Tese 2: Eu-Avatar é uma interface social/cognitiva/digital: um “eu” treinado para pertencer, performar, defender e vencer.
Tese 3: A colonização da percepção acontece quando o Eu-Avatar toma a primeira pessoa e rebaixa o Eu-Bioma a suporte. A metáfora Matrix é útil aqui: “viver o avatar” enquanto o corpo sustenta tudo.


3) Três seções principais (com exemplos concretos)

Seção A — Para que o Eu-Avatar serve (e por que ele existe)

O Eu-Avatar não é inimigo. Ele é uma ferramenta evolutiva e cultural:

  • te ajuda a se adaptar a regras,

  • a negociar com grupos,

  • a aprender linguagem, papéis, profissões,

  • a prever riscos sociais.

Sem avatar, você não atravessa escola, família, trabalho, ciência. O avatar é útil porque reduz complexidade: ele cria um “modo de operar”.

O erro começa quando você confunde:

“meu modo de operar” com “o que eu sou”.

O que você é, no fundamento, é Eu-Bioma. O avatar é só uma roupa funcional.


Seção B — O momento em que o avatar vira governo (e o bioma vira bateria)

Como o avatar toma o poder? Normalmente por três portas:

  1. Pressa crônica
    Pressa impede fruição e metacognição. Sem pausa, você não lê sinal; você só executa.

  2. Comparação e pertencimento
    O avatar vive de “posição”: acima/abaixo, aceito/rejeitado. Ele prefere aprovação a verdade interna.

  3. Recompensa rápida
    Notificação, polêmica, validação, dopamina. O avatar aprende: “isso é vida”.
    E o bioma vira o preço: sono, fome real, estabilidade.

Quando isso se estabiliza, acontece um fenômeno prático:

  • você passa a se perceber pelo painel de métricas (nota, seguidores, desempenho, status),

  • e passa a ignorar o painel do bioma (sede, respiração, tensão, cansaço, digestão).

A metáfora Matrix entra aqui: o avatar tem um mundo com regras próprias. Nele, “ser” vira “parecer”. O corpo, que é a origem da primeira pessoa, vira bateria: só precisa aguentar.


Seção C — Tesoura–Pedra–Papel: como o avatar mantém o controle

O Eu-Avatar governa usando um circuito simples:

  • Pedra (reação): responde rápido ao estímulo: clica, discute, foge, consome, repete.

  • Tesoura (narrativa): justifica: “é assim mesmo”, “eu tenho que”, “eu sou assim”, “não dá para parar”.

  • Papel (fruição + metacognição): seria a única força capaz de reintegrar o Eu-Bioma, mas ela é bloqueada por pressa e ruído.

O avatar ama Tesoura e Pedra porque eles produzem identidade e ação.
Ele teme o Papel porque o Papel devolve uma pergunta perigosa:

“isso que eu estou fazendo está sustentando meu Eu-Bioma ou drenando ele?”

Essa pergunta desarma colonização.


4) Pergunta de Pesquisador Adolescente (testável)

Pergunta: Quais são meus 3 sinais mais precoces de que o Eu-Avatar tomou o volante?

Exemplos de sinais precoces (escolha os seus):

  • respiração curta,

  • mandíbula rígida,

  • pressa mental,

  • fome confusa (vontade de açúcar, não fome real),

  • irritação com silêncio,

  • necessidade de checar algo.


5) Mini-protocolo seguro e barato (7 dias)

Objetivo: medir “quem governa” antes que vire crise.

Regra: 1 vez por dia, você vai fazer um “check-in de governo” (2 minutos):

  1. Sinal do bioma (30s):

  • respiração: curta ou longa?

  • corpo: leve ou pesado?

  • olhar: aberto ou estreito?

  1. Sinal do avatar (30s):

  • urgência por validação?

  • medo de perder algo?

  • comparação ativa?

  1. Ato de soberania (60s): escolha só um:

  • 5 expirações longas,

  • beber água devagar,

  • caminhar 1 minuto,

  • olhar para longe 20 segundos.

Registro (10s):

“Hoje o governo ficou mais tempo com: Bioma / Avatar”

No final de 7 dias, você descobre seu padrão.


6) Corpo-Território (APUS) em 3–5 minutos

Quando perceber o avatar dominando:

  1. Rebaixar o personagem (10s):

“Avatar é ferramenta, não rei.”

  1. Abrir o bioma (90s):

  • soltar mandíbula 10%

  • baixar ombros 10%

  • 6 expirações longas

  1. Abrir o território (60s):
    olhar distante + sentir pés no chão.

  2. Uma frase de reintegração (10s):

“Eu volto ao bioma antes de voltar ao mundo.”


7) Fechamento + chamada para ação

A metáfora Matrix é útil porque nos lembra de algo simples: dá para viver dentro de um “mundo” de regras e recompensas e esquecer a origem da primeira pessoa. Mas aqui não existe misticismo: existe fisiologia e atenção.

O Eu-Avatar pode ser brilhante — desde que ele sirva ao Eu-Bioma.
Quando o avatar governa, você não fica “mais forte”. Você fica mais drenado.

Chamada para ação (1 minuto):
Escreva duas frases e guarde:

  • “Meu avatar aparece quando ______.”

  • “Meu bioma pede ______ para voltar.”

 

Referências (pós-2020) que sustentam as ideias deste blog

  • Berntson, G. G., & Khalsa, S. S. (2021). Neural Circuits of Interoception. Trends in Neurosciences. Mostra como os circuitos interoceptivos sustentam reconhecimento e regulação de estados internos (base do “Eu-Bioma” e da governança sentida).

  • Candia-Rivera, D. et al. (2024). Interoception, network physiology and the emergence of bodily self-awareness. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. Reforça interocepção como mediadora da auto-consciência corporal e discute visão em rede (o “eu” como sistema integrado).

  • Ibáñez, A. et al. (2023). Intrinsic timescales and predictive allostatic interoception… (perspectiva). Relaciona “sobrecarga interoceptiva” e predição/alostase a estados de saúde mental e regulação (quando o sistema fica em modo reativo).

  • Damodar, S. et al. (2022). A Systematic Review of Social Media Use’s Influence on Adolescent Anxiety and Depression. Adolescent Psychiatry. Revisão indicando associação entre uso de redes sociais e ansiedade/depressão em adolescentes (ponte para “avatar” e captura de atenção).

  • Cal-Herrera, A. et al. (2025). The Impact of Social Media on Adolescents’… (revisão sistemática, PMC). Sintetiza evidências ligando uso excessivo de redes a piores desfechos de sono (e outros hábitos), alinhado ao custo biológico do “governo do avatar”

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Jackson Cionek

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