Jackson Cionek
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Em que Brasil as mulheres vão viver? Eleições 2026 Presidente

Em que Brasil as mulheres vão viver? Eleições 2026 Presidente

Corpo-Território, renda, cuidado e a possibilidade concreta de escolher a própria vida

Talvez a pergunta não seja apenas se uma mulher é livre.

Talvez seja:

ela consegue usar essa liberdade?

Imagine uma mulher pensando em sair de uma relação violenta.

Ela pode saber que precisa sair.

Pode ter amigos dizendo para sair.

Pode existir uma medida protetiva.

Mas então aparecem outras perguntas.

Para onde ela vai?

Quem paga o aluguel?

Quem fica com as crianças enquanto trabalha?

Como chega ao emprego?

Há creche?

Ela possui dinheiro em uma conta que só ela controla?

Existe uma rede de proteção perto de onde vive?

Talvez seja aí que percebemos que liberdade não existe apenas dentro da consciência.

Ela precisa encontrar possibilidades no território.

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número da série histórica iniciada em 2015. Samira Bueno, pesquisadora e diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, chama atenção justamente para um problema territorial: parte importante da estrutura de proteção está concentrada em cidades maiores, enquanto muitas mulheres vivem onde essa rede praticamente não chega. (Forum Segurança)

Podemos então fazer uma pergunta desconfortável:

de que adianta reconhecer uma liberdade se as condições materiais para exercê-la não existem?

O corpo pode querer ir. Mas consegue?

É aqui que o conceito de Corpo-Território muda nossa forma de olhar.

Márcia Tait, Alcides Peron e Marcela Suárez retomam o corpo-território a partir de tradições feministas latino-americanas para tornar visíveis relações de poder que atravessam simultaneamente corpos, territórios e tecnologias. Em vez de imaginar um indivíduo isolado, podemos observar como aquilo que acontece com o território também reorganiza possibilidades corporais. (Taylor & Francis Online)

Talvez possamos trazer isso para algo muito cotidiano.

Uma mulher pode ter qualificação, mas morar longe do trabalho.

Pode conseguir emprego, mas não encontrar creche.

Pode receber salário, mas dedicar uma quantidade muito maior de tempo ao cuidado.

Pode possuir direitos políticos, mas chegar ao fim do dia sem tempo para participar da vida pública.

No Brasil, mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais ao cuidado de pessoas e aos afazeres domésticos em 2022; entre os homens eram 11,7 horas. As desigualdades também existem entre as próprias mulheres: renda, raça e território modificam profundamente essa carga. (Educa)

E a creche nos mostra como uma estrutura aparentemente externa modifica possibilidades individuais.

O RASEAM 2026 encontrou nível de ocupação de 68% entre mulheres com filhos de zero a três anos quando todos frequentavam creche. Entre aquelas com algum filho, mas não todos, frequentando creche, o indicador era 36,5%. (Serviços e Informações do Brasil)

A escolha não acontece apenas “dentro da pessoa”.

Ela encontra portas abertas ou fechadas no território.

Quem cuida também entrega tempo de vida

Pesquisadoras latino-americanas vêm insistindo nesse ponto.

A uruguaia Karina Batthyány, com Sharon Katzkowicz, mostrou como diferentes políticas de cuidado se relacionam com a participação laboral das mulheres e com a distribuição das responsabilidades familiares. (Revista Mexicana de Sociología)

A costa-riquenha Juliana Martínez Franzoni argumenta que reorganizar o cuidado com igualdade exige tanto maior participação masculina quanto serviços públicos adequados. Caso contrário, aquilo que chamamos de “escolha familiar” pode continuar depositando sobre as mulheres uma responsabilidade estrutural. (Kérwá)

No Brasil, Nadya Araujo Guimarães chama atenção para a especificidade latino-americana da chamada crise do cuidado: não estamos apenas diante de uma questão privada entre pessoas de uma família, mas de infraestruturas, desigualdades e formas sociais de organizar quem cuida de quem. (SciELO)

Podemos então ampliar nossa pergunta.

Talvez autonomia feminina não seja apenas ter emprego.

É possuir renda, tempo, segurança, cuidado e possibilidade de movimento.

E se o Estado começasse pela pessoa?

Aqui chegamos à proposta que estamos desenvolvendo na BrainLatam.

Hoje, grande parte das políticas econômicas ainda enxerga primeiro a família, o emprego, a empresa, a renda domiciliar ou determinada condição de vulnerabilidade.

Mas e se a Constituição reconhecesse o Corpo-Território como unidade mínima do Estado?

Não significaria negar famílias ou comunidades.

Significaria reconhecer que, antes de pertencer a uma família, empresa ou relação conjugal, cada pessoa é titular de sua cidadania econômica.

E isso muda especialmente a pergunta sobre as mulheres.

Porque um benefício entregue à família pode chegar a uma mulher.

Mas um direito pertencente ao Corpo-Território já nasce dela.

Rendimento País: um mínimo econômico que pertence à pessoa

Propomos então discutir o Rendimento País.

Seria um rendimento público básico distribuído universalmente a cada Corpo-Território, individualmente, por meio de uma infraestrutura digital pública capaz de conversar com o Pix e, no desenho que chamamos de Drex Cidadão, com uma camada de moeda digital de varejo.

Não seria empréstimo.

Não seria financiamento.

Não produziria dívida pessoal.

Seria aquilo que, em nosso modelo, chamamos de crédito de cidadania sem débito para o cidadão: um piso econômico pertencente à pessoa porque ela integra o país.

É importante separar nossa proposta da infraestrutura que existe hoje.

O Drex atualmente desenvolvido pelo Banco Central ainda está em fase de construção e testes. No desenho oficial presente, o acesso dos usuários passa por intermediários financeiros autorizados; no Piloto Drex, usuários finais sequer participam diretamente, tendo suas operações simuladas. Portanto, Drex Cidadão e Rendimento País são propostas BrainLatam para uma arquitetura futura, não características do Drex atual. (Banco Central do Brasil)

A própria agenda de pesquisa do Banco Central reconhece que CBDCs podem assumir arquiteturas diferentes no mundo, inclusive modelos de distribuição direta ou intermediada. (Banco Central do Brasil)

Nossa pergunta é política:

e se parte dessa infraestrutura fosse desenhada a partir da cidadania individual?

O dinheiro não resolveria tudo. Mas mudaria uma escolha

Não queremos transformar renda em explicação única para a violência.

Uma mulher com dinheiro ainda pode precisar de polícia.

Justiça.

Moradia.

Saúde.

Transporte.

Creche.

Rede comunitária.

Proteção contra um agressor.

Mas existe uma diferença entre dizer:

“você é livre para sair”

e conseguir dizer:

“existe um mínimo econômico que continuará sendo seu depois que você sair.”

As pesquisadoras Cristina Vega Solís e Ailynn Torres Santana, vinculadas ao debate feminista latino-americano, analisaram em 2022 justamente as possibilidades e tensões entre renda básica e renda de cuidado. Elas mostram que a discussão não pode ser separada da divisão sexual e racial do trabalho e da maneira como a riqueza social é distribuída. (Revistas UCM)

É nesse ponto que nossa proposta se diferencia de simplesmente criar mais uma linha de crédito.

Uma mulher não deveria precisar se endividar para conseguir deixar de depender economicamente de alguém.

O piso econômico precisa anteceder a emergência.

Pertencer à pessoa antes do casamento.

Durante o casamento.

Depois dele.

Com emprego ou sem emprego.

Com filhos ou sem filhos.

E o mesmo direito seria distribuído a homens e mulheres porque sua origem não seria o gênero, mas o reconhecimento constitucional de cada Corpo-Território como unidade de cidadania econômica.

Sua consequência, porém, pode ser diferente para quem historicamente teve menos possibilidades materiais de escolha.

O que os candidatos a Presidente enxergam?

Quando lemos os planos para as Eleições 2026 Presidente, encontramos diferentes partes desse problema.

Lula propõe ampliar proteção contra feminicídio, promover autonomia econômica e igualdade de oportunidades, além de fortalecer estruturas como Casas da Mulher e políticas de igualdade salarial.

Flávio Bolsonaro criou o eixo Brasil por Elas, reunindo proteção, qualificação, renda, empreendedorismo, Central da Mulher e expansão de creches, inclusive com proposta de voucher quando faltar vaga pública. (Tribunal Superior Eleitoral)

Augusto Cury, no programa Mulheres Vivas, conecta prevenção do feminicídio, tecnologia, geolocalização, monitoramento de agressores e autonomia econômica. Seu próprio plano reconhece que dependência financeira pode impedir mulheres de romper relações violentas.

Ronaldo Caiado organiza propostas sobre violência, renda, moradia, trabalho e participação política sem violência, incluindo acompanhamento de indicadores de creche e tempo de cuidado não remunerado. (Tribunal Superior Eleitoral)

Clariana Barão coloca “mulheres e crianças em primeiro lugar”, articulando proteção contra violência, creches, reinserção profissional, cuidado e autonomia econômica. (Tribunal Superior Eleitoral)

Samara Martins propõe combate ao feminicídio, igualdade salarial, creche no local de trabalho e redução da jornada.

Edmilson Costa inclui combate ao machismo e à violência, expansão de abrigos e socialização de estruturas de cuidado. Hertz Dias apresenta um eixo amplo sobre mulheres, relacionando violência a renda, moradia e cuidado e propondo creches integrais, serviços públicos de cuidado e redução da jornada.

No plano de Romeu Zema, feminicídio e violência doméstica aparecem dentro da proteção social; sua estratégia enfatiza inclusão produtiva, trabalho, abrigos e reconstrução da autonomia.

Nos planos consultados de Renan Santos, Rui Costa Pimenta e Wilson Grassi, não localizamos um eixo feminino tão desenvolvido quanto nos programas acima; no caso de Rui, há proposta específica de aposentadoria diferenciada para mulheres. Para Pablo Marçal, continuamos aguardando documentação programática registrada que permita atribuir uma posição específica com segurança. (Tribunal Superior Eleitoral)

E se autonomia fosse uma infraestrutura?

Mulheres já são 52,84% do eleitorado brasileiro em 2026: mais de 83 milhões de eleitoras. Mesmo assim, continuam sub-representadas nos espaços de poder. (Tribunal Superior Eleitoral)

Talvez, então, a pergunta deste blog não seja qual candidato “fala mais sobre mulheres”.

Podemos perguntar algo maior.

Que condições cada proposta cria para que uma mulher consiga escolher a própria vida?

Porque segurança amplia possibilidades.

Creche amplia possibilidades.

Tempo amplia possibilidades.

Renda amplia possibilidades.

Participação política amplia possibilidades.

E território organiza todas elas.

É aqui que uma Neurociência Decolonial também precisa ampliar aquilo que chamamos de agência.

Não perguntar apenas o que uma mulher “decidiu”.

Perguntar também:

quais movimentos estavam realmente disponíveis para aquele Corpo-Território?

Talvez liberdade não seja simplesmente poder desejar outra vida.

Talvez liberdade comece quando existir um caminho material para chegar até ela.

E se reconhecermos cada Corpo-Território como unidade mínima do Estado, talvez possamos construir algo que ainda falta ao debate eleitoral:

um mínimo econômico que não pertença ao marido, à família, ao emprego ou ao banco.

Que pertença à pessoa.

Então uma mulher poderá continuar escolhendo ficar.

Mas poderá também escolher partir.

Não porque o Estado decidiu por ela.

Justamente porque ajudou a garantir as condições mínimas para que a decisão possa finalmente ser dela.

Referências

BUENO, Samira. Feminicídio recorde e o desafio de fazer a proteção chegar a todas as mulheres. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026. (Fonte Segura)

TAIT, Márcia M.; PERON, Alcides Eduardo dos Reis; SUÁREZ, Marcela. Terrestrial politics and body-territory: two concepts to make sense of digital colonialism in Latin America. Tapuya: Latin American Science, Technology and Society, 2022. (Taylor & Francis Online)

VEGA SOLÍS, Cristina; TORRES SANTANA, Ailynn. Renta básica universal y renta de cuidados en los debates feministas. La perspectiva de la reapropiación de la riqueza. Política y Sociedad, 2022. (Revistas UCM)

BATTHYÁNY DIGHIERO, Karina; KATZKOWICZ JUNIO, Sharon. Percepciones sobre las políticas de cuidado infantil en Uruguay. Revista Mexicana de Sociología, 2022. (Revista Mexicana de Sociología)

MARTÍNEZ FRANZONI, Juliana. Cuidados: Entre la ola feminista y la austeridad. Nueva Sociedad, 2022. (Kérwá)

GUIMARÃES, Nadya Araujo. A “crise do cuidado” e os cuidados na crise: refletindo a partir da experiência brasileira. Sociologia & Antropologia, 2024. (SciELO)

IBGE. Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil. Dados sobre uso do tempo e trabalho de cuidado, 2024. (Educa)

MINISTÉRIO DAS MULHERES. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher — RASEAM 2026. Brasília, 2026. (Serviços e Informações do Brasil)

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Piloto Drex; Drex – Real Digital; Agenda de Pesquisa 2026–2029. Referências utilizadas para diferenciar o desenho atual do Drex da proposta BrainLatam de Drex Cidadão. (Banco Central do Brasil)

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Propostas de Governo — Eleições 2026. Planos oficiais utilizados na análise comparativa das candidaturas. (Tribunal Superior Eleitoral)








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Jackson Cionek

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