Jackson Cionek
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DNA, território e NeuroDesenvolvimento - da gestação à morte

DNA, território e NeuroDesenvolvimento -  da gestação à morte

Quais condições permitem que uma vida expresse suas possibilidades?

Antes da primeira palavra, da primeira aula e até do primeiro movimento percebido pela família, uma vida já está em relação.

Há um DNA, mas também há um útero, uma alimentação, uma temperatura, substâncias presentes no ambiente, afetos, medos, sons, condições econômicas e expectativas sobre quem está chegando. Vamos começar, então, por uma pergunta construída em conjunto:

O DNA contém uma pessoa pronta ou oferece possibilidades que somente poderão se expressar no encontro com um território?

A ciência contemporânea permite abandonar a ideia de DNA como destino. Genes participam do desenvolvimento, mas não trabalham isolados. Sua atividade relaciona-se com processos celulares, exposições ambientais, nutrição, estresse, vínculos e diferentes momentos da vida. A epigenética investiga alguns mecanismos envolvidos nessa regulação, como a metilação do DNA. Isso não significa que toda experiência “reescreva os genes”, nem que uma marca epigenética determine inevitavelmente o futuro. Significa que a biologia é relacional.

Especialistas latino-americanos reunidos por Roberto Debbag e colegas destacaram, em 2023, os primeiros mil dias — da gestação aos dois anos — como uma janela especialmente relevante para crescimento, aprendizagem e saúde. Mas será que uma janela sensível precisa ser entendida como uma porta que depois se fecha? Ou podemos reconhecer sua importância sem decretar que tudo já foi decidido na primeira infância? (Frontiers)

O DNA encontra um mundo

Talvez possamos imaginar o DNA não como um roteiro, mas como um conjunto de possibilidades de resposta.

O que acontece quando essas possibilidades encontram disponibilidade de alimentos, contato corporal, segurança e linguagem? E quando encontram contaminação, violência contínua, fome ou abandono?

Pesquisadores brasileiros como Maria Clara de Magalhães-Barbosa, Arnaldo Prata-Barbosa e Antonio José Ledo Alves da Cunha revisaram, em 2022, as relações entre estresse tóxico, desenvolvimento infantil e mecanismos epigenéticos. O conceito de estresse tóxico não descreve qualquer frustração: refere-se à ativação intensa ou prolongada dos sistemas de estresse sem suporte protetor suficiente de adultos e relações estáveis. Os autores destacam que algumas consequências podem envolver alterações biológicas temporárias ou duradouras, mas não propõem um destino irreversível. (CoLab)

Aqui, nós podemos construir uma primeira hipótese da NeuroEducação do Weichö:

A liberdade de uma vida não consiste em escapar de sua biologia, mas em encontrar condições para que suas possibilidades biológicas, afetivas, culturais e criativas não sejam prematuramente reduzidas.

“Liberdade de expressão do DNA”, portanto, é uma interpretação BrainLatam. Não significa que o DNA possua vontade ou uma mensagem individual escondida. Significa perguntar quais possibilidades deixam de aparecer quando um Corpo-Território cresce sob privações evitáveis.

Nem genética sozinha, nem ambiente sozinho

Um estudo publicado em 2024 por Karen Sánchez-Luquez, Marina Carpena, Luciana Tovo-Rodrigues e outros pesquisadores das coortes de Pelotas analisou fatores genômicos, estimulação infantil e desempenho cognitivo aos seis anos em mais de quatro mil crianças. O trabalho encontrou contribuições independentes de fatores genéticos e da estimulação inicial, sem sustentar uma explicação simples na qual apenas um lado determina a criança. (PubMed)

Essa descoberta nos convida a desconfiar da pergunta colonial:

“Quanto dessa criança veio dos genes e quanto veio do ambiente?”

Ela separa previamente aquilo que, na vida, nunca esteve separado.

Talvez uma pergunta mais fértil seja:

Como as possibilidades desse DNA estão encontrando este território específico?

No Chile, Alejandra Abufhele, Dante Contreras, Esteban Puentes, Amanda Telias e Natalia Valdebenito acompanharam desigualdades no desenvolvimento infantil ao longo de sete anos. Escolarização materna, livros disponíveis, frequência à educação infantil e violência doméstica ajudaram a explicar parte das diferenças, mas uma importante desigualdade socioeconômica permaneceu. O resultado mostra que oferecer uma atividade isolada não necessariamente compensa estruturas persistentes de desigualdade. (Universidad Adolfo Ibáñez)

O desenvolvimento não termina na infância

NeuroDesenvolvimento não deveria nomear apenas aquilo que acontece até a adolescência.

Continuamos aprendendo, reorganizando estratégias, construindo vínculos, perdendo capacidades e encontrando outras formas de participação. Uma revisão publicada em 2024 sobre envelhecimento saudável na América Latina concluiu que os resultados regionais ainda são muito heterogêneos e que modelos produzidos principalmente nos Estados Unidos e na Europa não descrevem adequadamente todas as populações latino-americanas. (Nature)

A pessoa idosa não é apenas o resultado final do que aconteceu na infância. Ela continua sendo um Corpo-Território aberto à atividade física, linguagem, cuidado, comunidade, tecnologia, memória, arte e aprendizagem.

As coortes de Pelotas também mostram por que precisamos acompanhar o percurso inteiro. Um estudo de 2024, com participantes seguidos desde o nascimento até a vida adulta, encontrou forte associação entre pobreza acumulada e violência, com peso especialmente relevante da pobreza na juventude adulta. Isso impede que transformemos violência em simples defeito moral ou genético do indivíduo. (OUP Academic)

Um futuro que também é ancestral

Em Futuro Ancestral, publicado em 2022, Ailton Krenak desorganiza a ideia de que avançar significa abandonar aquilo que veio antes. O futuro pode depender da capacidade de restabelecer relações que a modernidade rompeu entre gerações, rios, territórios e diferentes formas de vida. (Companhia das Letras)

Podemos, então, completar juntos a ideia central deste primeiro blog:

O DNA oferece possibilidades. O território participa de quais possibilidades encontram condições para aparecer. O NeuroDesenvolvimento é o movimento contínuo dessa relação, da gestação à morte.

Um Estado Responsável não promete fabricar pessoas perfeitas. Também não culpa genes, famílias ou indivíduos por efeitos produzidos por fome, violência, poluição e abandono.

Ele pergunta:

Que condições estamos oferecendo para que cada Corpo-Território continue aprendendo, pertencendo e criando durante toda a existência?

E nós deixamos a pergunta aberta:

Quantas capacidades consideradas ausentes nunca receberam um território no qual pudessem se expressar?

Referências recentes comentadas

Debbag, R. et al. (2023). Are the first 1,000 days of life a neglected vital period…?
O estudo destaca os primeiros mil dias, da gestação aos dois anos, como uma janela decisiva para crescimento, saúde e desenvolvimento, sem afirmar que o restante da vida esteja previamente determinado.

Magalhães-Barbosa, M. C.; Prata-Barbosa, A.; Cunha, A. J. L. A. (2022). Toxic stress, epigenetics and child development.
Os pesquisadores brasileiros mostram como adversidades prolongadas, quando não existem relações protetoras suficientes, podem influenciar o desenvolvimento infantil por vias fisiológicas e epigenéticas.

Sánchez-Luquez, K. Y. et al. (2024). Evaluation of genomic factors and early childhood stimulation…
A pesquisa realizada com dados das coortes de Pelotas indica que fatores genômicos e estímulos recebidos na infância contribuem para o desenvolvimento cognitivo, sem que um deles determine sozinho o percurso da criança.

Abufhele, A. et al. (2022). Socioeconomic gradients in child development: evidence from a Chilean longitudinal study.
O estudo chileno revela que livros, educação infantil, escolarização familiar e ausência de violência ajudam no desenvolvimento, mas não eliminam sozinhos as desigualdades sociais persistentes.

Murray, J. et al. (2024). Life-course influences of poverty on violence and homicide.
Ao acompanhar participantes brasileiros desde o nascimento, o trabalho mostra que pobreza acumulada e exposição à violência ao longo da vida estão associadas, enfraquecendo explicações que atribuem a violência apenas à moral ou à biologia individual.

Krenak, A. (2022). Futuro Ancestral.
Ailton Krenak propõe que o futuro não depende de romper com o passado, mas de recuperar relações de cuidado entre pessoas, gerações, territórios, rios e outras formas de vida.

Revisão sobre envelhecimento saudável na América Latina (2024).
A revisão aponta que os modelos de envelhecimento criados no Norte Global não explicam integralmente as trajetórias latino-americanas, marcadas por desigualdades, culturas, territórios e redes comunitárias próprias.






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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States