Jackson Cionek
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A decisão começa antes da resposta - familiaridade musical e acumulação de evidências

A decisão começa antes da resposta - familiaridade musical e acumulação de evidências

Uma música começa.

Uma nota.

Outra.

Mais uma.

Você ainda não sabe o nome.

Não lembra o artista.

Mas alguma coisa já mudou.

Talvez a primeira experiência nem seja:

“eu conheço esta música.”

Talvez seja algo mais próximo de:

“Isso eu já vivi.”

Então chega outra nota.

E surge uma sensação curiosa:

“acho que sei o que vem agora.”

A próxima nota toca.

Era aquela.

Nesse pequeno intervalo existe uma pergunta enorme:

quando começou a decisão?

Quando ouvimos a primeira nota?

Quando surgiu a familiaridade?

Quando o futuro começou a parecer previsível?

Ou apenas quando conseguimos apertar um botão e dizer:

“sim, conheço”?

O trabalho de Jared R. Girard, Aaron Bishop e Cameron D. Hassall, publicado em 2026 na Psychophysiology, oferece uma janela fascinante para essa pergunta.

Em Song Familiarity Relies on Evidence Accumulation, os autores registraram EEG enquanto participantes ouviam melodias e respondiam assim que alguma delas começasse a parecer familiar. Encontraram uma central-parietal positivity — CPP ligada à decisão e mudanças nas respostas cerebrais às notas à medida que o julgamento de familiaridade se aproximava.

A proposta é que a decisão possa ser construída gradualmente.

Mas talvez não seja apenas a evidência que muda.

A cada nota, muda também aquele que percebe.

Cada nota encontra um Corpo-Território diferente

Na hipótese da Consciência 5D da BrainLatam:

Consciência é o movimento que se percebe Ser dentro do metabolismo produzido.

Nesse modelo, Perceber não significa apenas registrar informação.

Uma nota conscientemente Percebida participa materialmente da configuração do Corpo-Território.

Pode alterar atenção.

Recrutar memórias.

Produzir expectativa.

Preparar movimentos.

Modificar estados afetivos ou autonômicos.

A segunda nota, portanto, já não encontra exatamente o mesmo organismo que recebeu a primeira.

Podemos pensar:

nota → transformação → nova nota → nova transformação → expectativa → familiaridade.

Daí surge uma hipótese importante:

as evidências não apenas se acumulam; elas transformam sucessivamente aquele que as recebe.

Talvez a familiaridade não seja simplesmente abrir um arquivo armazenado.

Talvez seja:

voltar a tornar possível um movimento do Corpo-Território que já foi vivido antes.

“Isso eu já vivi” não é o mesmo que lembrar

Girard trabalha com uma distinção importante: familiaridade não é recordação completa.

Podemos sentir que alguma coisa já foi encontrada antes sem recuperar:

onde;

quando;

com quem;

qual era o nome.

No experimento, os participantes deveriam responder assim que a música parecesse familiar, mesmo sem conseguir identificá-la.

Isso aproxima o estudo de uma experiência bastante comum:

“isso eu já vivi, mas ainda não sei dizer onde.”

O passado, portanto, talvez não precise aparecer como narrativa.

Pode participar do estado atual sem que consigamos verbalizar sua origem.

O vivido precisa conseguir ser recrutado

Essa ideia pode ser aprofundada.

Em 2024, Freek van Ede e Anna Nobre mostraram uma CPP também durante a amostragem interna de conteúdos da memória de trabalho.

Ou seja, a CPP não acompanha apenas evidências chegando do mundo externo.

Pode acompanhar a seleção de conteúdos que já estão internamente disponíveis.

Isso permite uma pergunta 5D:

e se determinadas decisões dependerem não apenas do que chega agora, mas de qual configuração anteriormente vivida consegue ser recrutada?

Não basta algo ter acontecido.

O vivido precisa conseguir participar funcionalmente do presente.

O goleiro e o passado que precisa continuar disponível

O Jogo do Goleiro, desenvolvido no contexto do NeuroMat, ajuda a visualizar isso.

O participante precisa prever se o próximo chute irá para esquerda, centro ou direita.

A sequência é produzida por uma cadeia estocástica com memória de comprimento variável.

Dependendo do contexto, diferentes partes do histórico recente ajudam a prever o próximo evento.

O jogador não conhece a regra.

Precisa inferi-la enquanto joga.

Assim, prever depende não apenas de possuir passado, mas de recrutar o passado relevante.

Isso se conecta diretamente à atenção.

Atenção muda a velocidade da acumulação

Em 2024, Morrow e colaboradores mostraram que, quando a atenção estava corretamente direcionada, a CPP apresentava maior velocidade de crescimento.

Isso sugere que atenção pode alterar como rapidamente a evidência relevante participa da construção da decisão.

Na hipótese 5D:

um desvio atencional pode não apagar o vivido; pode apenas reduzir sua participação na decisão atual.

Isso cria uma diferença importante entre:

não saber

e

não conseguir recrutar, naquele momento, o que já sabemos.

E se a decisão não for apenas “qual resposta?”

Aqui surge uma possibilidade mais ousada.

Imagine um atleta experiente.

Uma situação começa.

Postura do adversário.

Velocidade.

Posição corporal.

Histórico recente.

Talvez essas pistas não estejam apenas ajudando a selecionar uma resposta.

Talvez estejam tornando disponível uma configuração funcional inteira que já viveu situações semelhantes.

Não apenas uma memória.

Mas:

atenção;

predições;

programas motores;

propriocepção;

tônus;

possibilidades de ação.

Dentro do modelo BrainLatam, poderíamos chamar essa configuração de um Eu Tensional.

Então a pergunta deixa de ser somente:

“qual resposta devo dar?”

e passa a incluir:

“qual Eu já sabe responder?”

Pedra: “já sei”

No modelo Pedra–Papel–Tesoura da BrainLatam, Pedra representa uma configuração com forte participação sensório-motora, somatossensorial, proprioceptiva e de habilidades automatizadas.

Não é uma região cerebral.

Nem significa ausência de processamento sofisticado.

É um estado de alta prontidão.

Quando uma situação suficientemente familiar aparece, determinadas pistas podem favorecer:

“já sei.”

Não necessariamente como linguagem.

Mas funcionalmente.

O Corpo-Território recruta uma configuração que já percebeu, previu e agiu naquela classe de situação.

A resposta pode ser rápida porque a solução não precisa ser reconstruída do zero.

Tesoura: “preciso pensar”

Mas e quando algo não corresponde à expectativa?

A música muda.

O adversário faz algo inesperado.

A sequência estatística deixa de fechar.

Nesse momento, talvez outra configuração precise ganhar prioridade.

Tesoura.

Mais comparação.

Mais controle deliberativo.

Mais alternativas.

O sistema funcionalmente passa de:

“já sei”

para:

“preciso pensar.”

Chamamos provisoriamente essa passagem de Transição Tensional:

a mudança entre configurações funcionais do Corpo-Território à medida que evidências internas e externas tornam uma delas mais recrutável que as demais.

É uma hipótese BrainLatam.

A CPP troca o Eu?

Não.

Essa afirmação ultrapassaria os dados.

A CPP é melhor tratada como um sinal relacionado à acumulação de evidências para uma decisão.

Ela não é consciência.

Não é um Eu.

E não sabemos se causa mudanças de estados funcionais.

Mas podemos perguntar:

a CPP poderia acompanhar parte da trajetória que antecede uma Transição Tensional?

Isso torna a hipótese testável.

Epilepsia: decidir e verbalizar não são a mesma coisa

O estudo de Sabina Gherman e colaboradores, publicado em 2024, oferece uma contribuição especialmente importante.

Os pesquisadores registraram atividade intracraniana em pacientes com epilepsia submetidos a monitoramento clínico.

Em parte do experimento, os participantes formavam uma decisão, mas precisavam esperar entre 1 e 2 segundos antes de verbalizar a resposta.

Mesmo sem uma resposta motora imediata, apareceram dinâmicas distribuídas de acumulação de evidências.

Isso mostra algo fundamental:

formar uma decisão e verbalizar uma decisão podem ser temporalmente separados.

Portanto, a palavra:

“isso eu já vivi”

pode chegar depois de uma trajetória que já vinha se formando.

E onde entra a consciência?

Aqui entram Alfredo Pereira Jr., Flávia Foz e Armando Freitas da Rocha.

Em 2017, os autores propuseram uma distinção entre processamentos rápidos e a formação de episódios conscientes complexos, que dependeriam de integração distribuída em escala mais longa.

No modelo apresentado, essa integração ocorreria aproximadamente na escala de 2 segundos, em diálogo com a literatura de Ernst Pöppel sobre o “presente consciente” na faixa de cerca de 2–3 segundos.

A BrainLatam também tem trabalhado, a partir de interlocuções com as ideias de Armando Freitas da Rocha, com uma referência aproximada de 3,1 segundos. Esse valor não deve ser tratado como um cronômetro universal da consciência.

O ponto mais interessante é outro:

a experiência consciente complexa pode exigir integração temporal mais longa do que os primeiros ERPs.

Talvez consciência permita perceber de qual Eu estamos respondendo

Isso abre uma possibilidade importante para o modelo 5D.

Talvez consciência não seja simplesmente:

“produzir uma resposta.”

Talvez também permita:

Perceber a configuração a partir da qual estamos prestes a responder.

Então aparecem três possibilidades:

Pedra:
“Já sei.”

Tesoura:
“Preciso pensar.”

Papel:

“Percebo de qual Eu estou respondendo.”

Papel introduz metacognição.

Podemos permanecer no Eu de alta performance.

Podemos interrompê-lo.

Ou recrutar outra configuração.

O déjà entendu oferece uma cautela

Em 2025, McNeely-White e Anne Cleary investigaram o déjà entendu, análogo auditivo do déjà vu.

Quando os participantes experimentavam déjà entendu, sentiam com maior frequência que sabiam o que aconteceria depois.

Mas não previam melhor.

Isso produz uma conclusão crucial:

o Eu “já sei” também pode estar errado.

Familiaridade pode aumentar confiança sem aumentar acurácia.

Por isso alta performance para repetir o conhecido não significa necessariamente alta flexibilidade diante do novo.

A decisão começa antes da resposta

Volte à música.

Primeira nota.

Não sei.

Segunda.

Algo muda.

Terceira.

Isso parece familiar.

Quarta.

Talvez eu saiba o que vem.

Quinta.

“Isso eu já vivi.”

Talvez cada nota não esteja apenas produzindo evidência para:

“esta música é conhecida.”

Talvez esteja tornando progressivamente recrutável uma configuração que já viveu aquela música.

A CPP não é consciência.

Não é a troca de Eu.

Mas pode oferecer uma janela para parte da trajetória que antecede uma decisão.

E a hipótese BrainLatam passa a ser:

talvez algumas decisões não sejam apenas sobre qual resposta dar, mas sobre qual configuração do Corpo-Território se torna disponível para produzir essa resposta.

Talvez reconhecer uma música não seja apenas recuperar informação.

Talvez seja:

tornar novamente possível o Eu que já viveu aquele movimento.

E talvez consciência acrescente uma possibilidade ainda mais profunda:

perceber qual Eu está prestes a responder.


Referências

Girard, J. R., Bishop, A., & Hassall, C. D. (2026). Song Familiarity Relies on Evidence Accumulation. Psychophysiology, 63(8), e70370. DOI: 10.1111/psyp.70370.

Gherman, S., Markowitz, N., Tostaeva, G., et al. (2024). Intracranial electroencephalography reveals effector-independent evidence accumulation dynamics in multiple human brain regions. Nature Human Behaviour, 8, 758–770. DOI: 10.1038/s41562-024-01824-9.

Morrow, A., Pilipenko, A., Turkovich, E., Sankaran, S., & Samaha, J. (2024). Endogenous Attention Affects Decision-related Neural Activity but Not Afferent Visual Responses. Journal of Cognitive Neuroscience, 36(11), 2481–2494. DOI: 10.1162/jocn_a_02239.

van Ede, F., & Nobre, A. C. (2024). A Neural Decision Signal during Internal Sampling from Working Memory in Humans. Journal of Neuroscience, 44(19), e1475232024. DOI: 10.1523/JNEUROSCI.1475-23.2024.

Hernández, N., Galves, A., García, J. E., Gubitoso, M. D., & Vargas, C. D. (2024). Probabilistic prediction and context tree identification in the Goalkeeper game. Scientific Reports, 14, 15467. DOI: 10.1038/s41598-024-66009-w.

McNeely-White, K. L., & Cleary, A. M. (2025). Illusory feelings of prediction during déjà entendu. Memory & Cognition, 53(8), 2375–2393. DOI: 10.3758/s13421-025-01716-x.

Pereira Jr., A., Foz, F. B., & Rocha, A. F. (2017). The Dynamical Signature of Conscious Processing: From Modality-Specific Percepts to Complex Episodes. Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice, 4(2), 230–247. DOI: 10.1037/cns0000115.

Du, Y., Krakauer, J. W., & Haith, A. M. (2022). The relationship between habits and motor skills in humans. Trends in Cognitive Sciences.

Se quiser, posso também deixar esta versão com um ritmo ainda mais editorial, na faixa de 1.150–1.200 palavras, sem perder nenhum conceito central.






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Jackson Cionek

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